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LEITURA EM PARTESParte 7 de 10

Parte 7

A coisa que Lucas queria devolver chegou numa manhã de segunda-feira.

Estava dentro de uma caixa pequena, entregue na portaria.

Era a chave reserva do meu antigo apartamento.

Eu havia dado aquela chave a ele quase dois anos antes, quando nossos planos começaram a se misturar de verdade.

Junto dela havia um bilhete de apenas uma linha:

“Eu devia ter devolvido isso quando você pediu distância.”

Fiquei alguns segundos olhando para a chave.

Nada mais.

Nenhum pedido de encontro.

Nenhuma declaração.

Nenhum “me perdoa”.

Aquela simplicidade me surpreendeu mais do que qualquer gesto grandioso teria conseguido.

Guardei a chave.

Depois joguei o bilhete fora.

Naquela semana, tomei uma decisão que vinha adiando.

Durante o noivado, Lucas e eu tínhamos planejado que eu deixaria meu apartamento depois do casamento. Eu ainda não havia vendido nem encerrado nada, mas passei meses tratando aquele lugar como temporário.

Decidi permanecer ali.

Não porque quisesse congelar minha vida no ponto anterior a Lucas.

Pelo contrário.

Queria escolher de novo.

Reorganizei móveis.

Troquei algumas coisas de lugar.

Doei objetos comprados para uma casa que seria dos dois.

Comprei uma mesa menor para a varanda.

Nada era dramaticamente simbólico.

Mas cada pequena mudança dizia a mesma coisa:

Eu não estava mais esperando outra pessoa definir onde minha vida começaria.

Algumas semanas depois, recebi de Lucas um e-mail inesperadamente objetivo.

“O divórcio foi concluído. Não estou dizendo isso para pedir nada. Achei que você deveria saber porque meu casamento foi a razão pela qual destruí o nosso.”

Li a frase duas vezes.

Não senti alívio.

Não senti alegria.

Também não senti a antiga raiva.

Só uma espécie de distância.

Respondi:

“Recebi.”

Ele não escreveu novamente naquele dia.

Mas, três noites depois, apareceu uma mensagem.

“Agora que está tudo encerrado, posso pedir uma conversa?”

Fiquei olhando para a tela.

Minha primeira vontade foi dizer não.

Depois pensei melhor.

Eu havia passado meses estabelecendo limites para não ser arrastada pela urgência dele.

Agora, pela primeira vez, a escolha de encontrar ou não encontrar Lucas não parecia determinada pelo medo.

Pensei no que eu queria.

Não no que ele queria.

Não no que Sofia queria.

Não no que nossas famílias achariam.

Eu queria fechar aquela porta olhando diretamente para a pessoa que tentara mantê-la aberta.

Aceitei.

Escolhi um restaurante tranquilo no início da tarde.

Cheguei primeiro.

Lucas apareceu alguns minutos depois.

Parecia mais composto do que nos encontros anteriores.

Sentou-se.

— Obrigado.

— Você pediu a conversa.

Ele assentiu.

— Eu não vou tentar contar uma versão diferente.

Esperei.

— Eu queria Sofia porque passei anos achando que tinha perdido alguma coisa importante quando nosso relacionamento terminou no passado. Quando ela voltou, confundi essa sensação com certeza.

Ele respirou.

— E queria você porque você era minha vida real.

Franzi a testa.

— Isso não torna melhor.

— Eu sei.

— Na verdade, torna pior.

Lucas baixou os olhos.

— Eu sei disso agora.

Não respondi.

Ele continuou:

— Achei que conseguiria resolver sem perder nenhuma das duas.

— Você queria que o custo da sua indecisão fosse pago por nós.

Lucas fechou os olhos por um instante.

— Sim.

A resposta direta me pegou desprevenida.

— Passei meses tentando achar uma explicação que não me transformasse num homem tão egoísta quanto fui.

A voz dele não tremia.

— Não encontrei.

Fiquei em silêncio.

Aquilo era diferente das conversas anteriores.

Não porque eu acreditasse que Lucas tivesse se transformado completamente.

Mas porque, pela primeira vez, ele não colocava um “mas” depois de admitir o que fez.

— Eu amava você — disse.

— Talvez.

Ele ergueu o rosto.

— Você não acredita?

— Acredito que você sentia alguma coisa verdadeira. Só não acho que isso seja suficiente.

— Eu também não acho mais.

A resposta me surpreendeu.

Lucas colocou as mãos sobre a mesa.

— Não vim pedir que volte comigo hoje.

A palavra “hoje” não passou despercebida.

— Então veio pedir que eu considere amanhã?

Ele respirou fundo.

— Vim perguntar se existe alguma possibilidade.

Não precisei pensar muito.

— Não.

Lucas ficou imóvel.

— Nenhuma?

— Nenhuma.

A dor passou pelo rosto dele.

Dessa vez não desviei.

— Você se divorciou de Sofia. Isso resolve sua situação com Sofia.

— Eu sei.

— Não resolve a nossa.

— Eu sei.

— Então por que perguntou?

Ele demorou.

— Porque eu precisava ouvir de você sem uma briga, sem convidados, sem minha mãe, sem Sofia, sem caos.

Assenti.

— Agora ouviu.

Lucas encarou a mesa.

— Sim.

Por alguns minutos, nenhum de nós falou.

Depois ele perguntou:

— Você me odeia?

Pensei antes de responder.

— Não.

Ele pareceu surpreso.

— Eu odiei o que você fez. Fiquei com raiva de você. Ainda há coisas que talvez levem muito tempo para deixar de doer.

— Mas não me odeia.

— Não quero gastar minha vida fazendo isso.

Lucas passou o polegar pela borda do copo.

— Eu não sei se isso me faz sentir melhor ou pior.

— Isso já não é uma coisa que eu preciso administrar.

Ele soltou uma respiração que quase parecia uma risada triste.

— É justo.

Levantei-me.

— Preciso ir.

Lucas também se levantou.

— Marina.

Esperei.

— Eu sinto muito.

Não respondi imediatamente.

Aquela era a frase que eu imaginara ouvir dezenas de vezes desde o dia do casamento.

Agora que finalmente vinha sem desculpa, não parecia capaz de mudar o passado.

Mas também não precisava.

— Espero que um dia você entenda completamente por quê — falei.

Saí.

Andei duas quadras antes de perceber que não estava chorando.

Não porque a conversa tivesse sido fácil.

Porque eu não carregava mais a expectativa de que Lucas pudesse dizer alguma coisa capaz de reconstruir o que quebrara.

Naquele encontro, ele finalmente assumira responsabilidade.

E eu finalmente entendia que a responsabilidade dele não criava obrigação de reconciliação para mim.

Quando cheguei em casa, abri a gaveta onde ainda estava o anel de noivado? Não. Eu o havia devolvido no próprio casamento.

Sorri ao me lembrar disso.

Talvez a decisão mais importante tivesse sido tomada antes mesmo de eu entender seu tamanho.

Eu tirara o anel.

Agora só precisava continuar vivendo de acordo com aquele gesto.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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