
Parte 3
Do lado de fora do salão, o ar pareceu gelado contra meu rosto.
Eu só percebi que estava tremendo quando tentei abrir a bolsa para procurar meu celular e não consegui encaixar o zíper de primeira. Minha madrinha, que havia saído logo atrás, não perguntou nada. Apenas ficou ao meu lado enquanto eu respirava, tentando entender como uma noite planejada durante meses podia terminar em poucos minutos.
— Quer que eu fique com você? — ela perguntou.
Assenti.
Não queria conversar. Não queria ouvir opiniões sobre Lucas, Sofia ou o casamento. Naquele momento, qualquer frase parecia grande demais.
Na manhã seguinte, acordei com dezenas de chamadas perdidas.
Havia mensagens de parentes, amigos, convidados e pessoas que eu mal conhecia. Algumas perguntavam se eu estava bem. Outras queriam detalhes. Algumas já traziam capturas de vídeos gravados durante a confusão.
Não abri nenhum.
O nome de Lucas aparecia tantas vezes na tela que comecei a apagá-lo sem ler.
Até que uma mensagem chamou minha atenção.
“Precisamos conversar sobre o que ficou pendente.”
Não era uma declaração de amor.
Não era um pedido de desculpas.
Era Lucas tentando reorganizar a situação como se estivéssemos lidando com uma reserva cancelada.
Respondi apenas:
“Podemos resolver assuntos práticos. Nada além disso.”
Ele ligou imediatamente.
Deixei tocar.
Cinco minutos depois, veio outra mensagem.
“Você não pode decidir o fim de três anos em uma noite.”
Fiquei olhando para a tela.
Durante muito tempo eu teria acreditado naquela frase. Teria pensado nos aniversários, nas viagens, nos domingos juntos, nos planos que fizemos. Teria sentido culpa por abandonar tudo.
Mas não era eu quem havia decidido o fim em uma noite.
Lucas tomara essa decisão três dias antes, diante de um funcionário do cartório, quando assinou o casamento civil com Sofia e depois continuou planejando subir ao palco comigo.
Respondi:
“Você decidiu antes de mim.”
Depois bloqueei o número.
Passei o resto da manhã organizando o que ainda estava ao meu alcance. Liguei para fornecedores da cerimônia, expliquei que o evento tinha sido interrompido e perguntei apenas sobre procedimentos de encerramento, pagamentos pendentes e objetos pessoais.
Não pedi vingança.
Não tentei recuperar cada centavo por princípio.
Eu só queria saber o que ainda precisava ser resolvido para não continuar presa ao casamento que não existiria.
A cada ligação, a realidade ganhava uma forma diferente.
O bolo já tinha sido entregue.
As flores já tinham sido usadas.
Alguns serviços não tinham reembolso.
Outros valores ainda podiam ser parcialmente devolvidos.
Era estranho falar sobre contratos, recibos e horários enquanto minha cabeça continuava presa à imagem de Lucas no palco.
Mas aquelas tarefas pequenas tiveram um efeito inesperado.
Pela primeira vez desde a descoberta, eu estava fazendo alguma coisa que dependia apenas de mim.
No início da tarde, minha madrinha colocou uma xícara de café na minha frente.
— A mãe dele me ligou.
Ergui os olhos.
— E?
— Quer que você converse com o Lucas antes de “tomar uma decisão definitiva”.
Soltei uma risada sem humor.
— Qual decisão ainda falta?
— Foi exatamente o que eu perguntei.
Agradeci por ela não tentar me convencer de nada.
Ela se sentou diante de mim.
— Tem outra coisa. Sofia também tentou falar comigo.
Dessa vez fiquei imóvel.
— Por quê?
— Disse que quer conversar com você.
— Eu não tenho nada para conversar com ela.
Minha resposta saiu automática.
Mas algumas horas depois, quando fiquei sozinha, comecei a pensar naquilo.
Eu não precisava ouvir Sofia para decidir o que fazer com Lucas. Essa decisão já estava tomada.
Ainda assim, havia uma pergunta que me incomodava.
Quanto ela sabia?
Não se tratava de descobrir se Lucas era culpado. Isso já estava claro.
Eu queria saber apenas se aquela mulher, que estivera escondida no canto da minha cerimônia depois de se casar com meu noivo três dias antes, tinha entrado naquela história sabendo exatamente quem eu era.
Aceitei encontrar Sofia no dia seguinte em uma cafeteria movimentada.
Escolhi o local.
Escolhi o horário.
E avisei que teria apenas meia hora.
Ela chegou antes de mim.
Sem o vestido branco e a maquiagem da noite anterior, parecia uma pessoa diferente. Estava cansada, com olheiras visíveis e os cabelos presos de qualquer jeito.
Não senti satisfação.
Também não senti compaixão suficiente para esquecer o que ela havia feito.
Sentei-me.
— Você queria falar.
Sofia apertou as mãos sobre a mesa.
— Eu não vim pedir que você perdoe ninguém.
— Ótimo.
Ela respirou fundo.
— Eu sabia do casamento.
— Isso ficou evidente quando você apareceu nele três dias depois de se casar com o noivo.
O rosto dela se contraiu.
— Eu sei como parece.
— Não. Você sabe como foi.
Sofia baixou os olhos.
Essa diferença pareceu atingi-la.
Depois de alguns segundos, falou:
— Lucas dizia que vocês estavam mal havia meses.
Não respondi.
— Disse que vocês continuavam com os preparativos porque tudo já estava pago, as famílias estavam envolvidas e ele ainda não sabia como terminar sem virar um desastre.
— Então ele resolveu evitar um desastre se casando com você e aparecendo no palco comigo?
Ela fechou os olhos.
— Eu fui idiota.
— Você fez uma escolha.
Sofia ergueu o rosto.
— Fiz.
Aquilo foi a primeira coisa dita por qualquer um dos dois que não tentou transferir responsabilidade.
— Eu sabia que vocês ainda estavam juntos — continuou. — Eu sabia que a cerimônia não tinha sido cancelada. Ele dizia que ia falar com você antes. Quando chegou o dia e nada aconteceu, eu deveria ter ido embora. Não fui.
Não havia ali uma revelação capaz de apagar o que acontecera.
Apenas uma confirmação amarga.
Sofia não tinha sido enganada sobre minha existência.
Talvez Lucas tivesse diminuído a importância da nossa relação, talvez tivesse prometido coisas diferentes para cada uma, mas ela sabia o suficiente para entender que eu seria ferida.
— Por que você estava no casamento? — perguntei.
Ela demorou a responder.
— Porque eu queria ver o que ele faria.
Aquilo me atingiu de uma maneira inesperada.
— E ele queria que eu fizesse o quê?
— Subisse ao palco.
Sofia passou a mão pelo rosto.
— Ele achava que conseguiria empurrar tudo por mais alguns dias. Depois disse que conversaria com você, resolveria nossa situação e… eu não sei. Quando falo em voz alta, parece ainda pior.
— Porque é pior.
Ela assentiu.
Ficamos em silêncio.
Depois me levantei.
— Era isso?
Sofia também se levantou.
— Eu sinto muito.
Olhei para ela.
— Espero que você sinta. Mas isso é algo que você vai precisar resolver consigo mesma.
Saí da cafeteria sem raiva explosiva, sem gritos e sem nenhuma sensação de vitória.
Só carregava uma certeza mais sólida.
Lucas não havia sido arrastado para uma situação impossível.
Ele criara uma situação em que esperava que duas mulheres aceitassem versões diferentes da mesma mentira.
No fim da tarde, desbloqueei o número dele por alguns minutos e mandei uma única mensagem.
“Conversei com Sofia. Não quero discutir sua versão. A partir de agora, fale comigo apenas sobre o que for necessário para encerrar qualquer pendência entre nós.”
A resposta chegou em menos de um minuto.
“Ela está tentando colocar você contra mim.”
Olhei para aquelas palavras.
Quase respondi.
Depois sorri sem alegria e bloqueei o número outra vez.
Lucas ainda não tinha entendido.
Eu não precisava que ninguém me colocasse contra ele.
Ele mesmo já tinha feito isso.
A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇














