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LEITURA EM PARTESParte 4 de 10

Parte 4

Três dias depois, Lucas apareceu no prédio onde eu estava ficando.

Não conseguiu subir porque eu havia pedido à portaria que não autorizasse sua entrada.

Ele ficou no saguão por quase quarenta minutos.

A recepcionista me ligou duas vezes, visivelmente desconfortável.

Na segunda, respondi:

— Diga que eu não vou descer.

Lucas deixou uma sacola com alguns objetos meus que estavam no apartamento onde passaríamos os primeiros dias depois da cerimônia. Nada tinha valor extraordinário: roupas, um carregador, alguns livros, um estojo de maquiagem e uma fotografia nossa que ele havia colocado em um porta-retrato.

Olhei para a fotografia por alguns segundos.

Depois retirei a imagem e a coloquei dentro de uma gaveta.

Eu não queria destruí-la.

Também não queria vê-la.

Algumas lembranças não precisam ser queimadas para perder o lugar que ocupavam.

Naquela tarde, recebi uma ligação da mãe de Lucas.

Pensei em não atender.

Acabei aceitando porque queria encerrar de uma vez a insistência.

— Marina, precisamos conversar como adultos — ela começou.

— Estou ouvindo.

— O Lucas está desesperado.

Esperei.

— Ele não dorme, não come direito. Você sabe que ele sempre foi impulsivo.

— Casar com outra pessoa não é esquecer um compromisso ou perder a cabeça durante uma discussão.

— Eu não estou dizendo que ele não errou.

A frase veio rápida demais.

Era o tipo de frase que geralmente antecedia uma longa explicação sobre por que eu deveria aceitar o erro.

— Mas vocês viveram três anos juntos — continuou. — Não acha que merece ouvir o lado dele?

— Eu ouvi.

— Quando?

— Durante três anos. E principalmente no dia do casamento, quando ele me pediu para subir ao palco mesmo sabendo que tinha uma esposa.

Ela ficou calada por alguns instantes.

— As pessoas estão falando demais.

Finalmente chegamos ao verdadeiro problema.

— Sobre quê?

— Sobre nossa família. Sobre o Lucas. Sobre mim.

— Eu não pedi que ninguém falasse.

— Mas você expôs tudo na frente de trezentas pessoas.

Fechei os olhos.

— Seu filho decidiu criar o problema diante de trezentas pessoas.

A voz dela endureceu.

— Você podia ter preservado a dignidade de todo mundo.

— E quem preservaria a minha?

Do outro lado, ouvi apenas sua respiração.

— Eu não quero brigar com você, Marina.

— Então não brigue.

— Só quero que você pense melhor antes de destruir tudo de forma definitiva.

— Não fui eu quem destruiu.

Desliguei.

Dessa vez, minhas mãos não tremiam.

A conversa me mostrou que o problema não terminava em Lucas.

Durante anos, eu havia me acostumado a pequenas concessões. Horários mudavam por causa dele. Planos eram adiados quando ele dizia estar ocupado. Discussões terminavam quando eu aceitava esperar que ele estivesse “mais calmo”.

Nada disso, isoladamente, parecia enorme.

Mas comecei a perceber um padrão.

A paz entre nós dependia quase sempre de eu reduzir minhas necessidades.

O casamento civil com Sofia não tinha surgido do nada.

Era apenas a versão extrema de uma certeza que Lucas cultivara durante muito tempo: a certeza de que eu ficaria.

Na semana seguinte, ele me procurou por outro número.

“Só uma conversa. Em lugar público. Você escolhe.”

Apaguei.

Horas depois:

“Eu preciso assumir o que fiz.”

Essa frase me fez parar.

Não porque eu pretendesse voltar.

Mas porque ainda havia uma diferença entre ouvir desculpas e ver alguém assumir responsabilidade.

Respondi que aceitaria vinte minutos em uma cafeteria próxima, no meio da tarde.

Lucas chegou sem o cuidado habitual com a aparência. O cabelo estava desalinhado e havia olheiras sob os olhos.

Não deixei que aquilo me confundisse.

Consequências também cansam quem as provoca.

Ele sentou diante de mim.

— Obrigado por vir.

— Você tem vinte minutos.

Lucas respirou fundo.

— Eu estraguei tudo.

Não respondi.

— Eu estava confuso.

Continuei em silêncio.

Ele percebeu que eu não iria ajudá-lo a construir a própria defesa.

— Sofia reapareceu na minha vida alguns meses atrás — disse. — Nós tivemos uma história antes de você.

Eu sabia.

— E eu não fechei aquilo direito. Começamos a conversar. Ela queria uma decisão. Eu fiquei com medo de perdê-la outra vez.

— Então se casou com ela.

— Sim.

— E ficou com medo de me perder também.

O rosto dele se contraiu.

— Sim.

A palavra caiu entre nós.

Pela primeira vez, ele parecia ouvir a lógica da própria escolha.

— Você queria garantir as duas coisas — falei.

— Não foi assim.

— Foi exatamente assim.

— Eu não planejava ficar casado com ela e continuar com você para sempre.

— Que alívio.

Ele abaixou os olhos.

— Eu pensei que conseguiria resolver depois.

— Depois de quê?

— Depois da cerimônia.

Quase ri.

— Você queria subir ao palco comigo, receber nossos convidados, tirar fotos, aceitar felicitações e só depois decidir qual mulher ficaria com qual versão da sua vida?

— Marina…

— Não. Responda.

Lucas passou as mãos pelo rosto.

— Eu entrei em pânico.

— E cada vez que entrou em pânico escolheu mentir.

Ele me encarou.

Havia lágrimas em seus olhos, mas eu já não conseguia transformar a dor dele em obrigação minha.

— Eu amo você.

— Você pode até acreditar nisso.

Ele pareceu surpreso.

— Mas amor não torna aceitável aquilo que você fez.

Lucas se inclinou para a frente.

— Sofia e eu estamos brigando desde o casamento. Aquilo não vai durar.

Levantei a mão.

— Não me interessa.

— Eu posso consertar.

— Não comigo.

Ele ficou imóvel.

Aquelas duas palavras fizeram mais efeito do que qualquer grito.

Olhei o relógio.

Ainda faltavam seis minutos.

Mesmo assim, me levantei.

— Você disse que precisava assumir o que fez. Agora assuma também o que isso causou.

— Marina, por favor.

— Você perdeu o direito de pedir que eu espere enquanto decide sua vida.

Virei-me.

Ele chamou meu nome.

Parei apenas o suficiente para olhar por cima do ombro.

— E não use o fim do seu casamento com Sofia como argumento para voltar para mim. Se vocês ficarem juntos ou se separarem, isso não muda o que você fez comigo.

Saí da cafeteria.

Naquela noite, percebi que uma segunda coisa havia terminado.

Não apenas o noivado.

Também havia terminado minha necessidade de esperar uma explicação que transformasse a traição em algo menos grave.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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