
Parte 2
— Sai da minha frente! — Lucas berrou, tentando contornar minha madrinha. Ela abriu os braços e manteve distância suficiente para não transformar aquilo em uma briga física. Eu continuei parada, observando o homem com quem planejei dividir a vida perder o controle porque sua mentira tinha sido exposta.
— Marina, você não sabe de tudo — ele disparou. — Você abriu um documento sem me deixar explicar nada e resolveu destruir nosso casamento na frente de todo mundo. Ouvir aquilo produziu em mim uma sensação estranha: durante três anos, eu teria corrido atrás dele para descobrir o que tinha feito de errado; naquela noite, eu apenas senti cansaço.
— Nosso casamento? — perguntei. — Você já é casado, Lucas. Algumas pessoas ao redor ficaram em silêncio outra vez. Ele apertou a mandíbula e respondeu, quase entre os dentes: — Aquilo com a Sofia foi um erro. Eu ia resolver.
Sofia, que até então permanecia no canto, ergueu a cabeça. — Um erro? — perguntou, e havia mais choque do que raiva em sua voz. Lucas virou-se para ela como se tivesse esquecido que ela também estava ali. Pela primeira vez, os dois pareciam perceber que não poderiam sustentar versões diferentes diante das mesmas centenas de testemunhas.
A mãe de Lucas já estava sentada em uma cadeira, amparada por parentes. Assim que percebeu que estava consciente, Lucas se afastou de nós e correu até ela. Eu quase senti alívio, até ouvir a primeira coisa que ela disse ao recuperar o fôlego: — Por que você precisava fazer isso aqui, Marina?
Fiquei olhando para ela. Não perguntou se eu estava bem. Não perguntou por que o filho tinha se casado com outra mulher três dias antes de subir ao palco comigo. Sua primeira preocupação também era o escândalo.
— Porque foi aqui que ele queria que eu fingisse não saber — respondi. A mãe dele levou a mão ao peito. — Vocês poderiam conversar em particular. — Ele também poderia ter se casado em particular comigo, mas escolheu outra pessoa — retruquei.
Lucas voltou imediatamente. — Chega. A voz dele estava mais baixa, porém ainda carregada de raiva. — Vamos para uma sala e resolvemos isso sem plateia. Eu dei um passo para trás. — Não existe mais “nós” para resolver.
Ele me encarou como se aquela possibilidade nunca tivesse passado pela cabeça dele. — Você vai jogar três anos fora por causa disso? A pergunta foi tão absurda que, por alguns instantes, nem consegui responder. Depois percebi que, para Lucas, o problema ainda era minha reação, não sua escolha.
Sofia se aproximou devagar. — Lucas, você disse que cuidaria disso. A frase fez vários convidados voltarem a prestar atenção. Eu não precisava saber o que exatamente ele havia prometido a ela; bastava perceber que os dois tinham tomado decisões sobre minha vida sem considerar que eu poderia descobrir.
— Cala a boca, Sofia — Lucas rebateu. Ela ficou vermelha. — Não fala comigo desse jeito. — Então não piora as coisas. A maneira como ele a tratou não despertou pena em mim, apenas confirmou algo que eu demorara tempo demais para enxergar: ele só era gentil quando as pessoas obedeciam.
Peguei minha bolsa na cadeira. Lucas percebeu imediatamente. — Aonde você vai? — Embora eu já soubesse a resposta, a pergunta me atingiu com uma tristeza breve e funda. Aquela deveria ter sido a noite em que sairíamos juntos daquele salão.
— Embora. — Você não pode simplesmente ir embora. — Posso. E vou.
Ele tentou segurar meu braço outra vez, mas desta vez recuei antes que me tocasse. — Não faça isso. Minha voz saiu baixa, e ele parou. Talvez tenha visto no meu rosto que qualquer resto de tolerância havia acabado.
Minha madrinha se aproximou do meu lado. Alguns familiares meus também já vinham em nossa direção, mas ergui a mão para que não transformassem a situação em outro confronto. Eu não precisava de ninguém brigando por mim. Precisava apenas sair dali sem voltar atrás.
Lucas respirou fundo, procurando recuperar o tom que usava quando queria parecer razoável. — Marina, eu amo você. O casamento civil com Sofia foi uma decisão precipitada. Eu ia desfazer tudo. — E em que momento você pretendia me contar? — perguntei. Ele não respondeu.
Essa ausência de resposta foi pior do que qualquer desculpa. Olhei para o palco preparado para nós dois, para as flores escolhidas durante meses, para as cadeiras ocupadas por pessoas que vieram celebrar uma união que nunca existiria. A dor continuava ali, mas alguma coisa dentro de mim havia mudado de lugar.
Tirei o anel de noivado do dedo. Lucas acompanhou o movimento e empalideceu. Coloquei a peça na palma da mão dele e fechei seus dedos sobre ela. — Agora você não tem mais uma noiva para enganar.
Virei as costas antes que ele respondesse. Atrás de mim, ouvi minha madrinha chamar meu nome e os convidados começarem a se mover novamente. Não olhei para trás.
Quando atravessei as portas do salão, a música já tinha parado. E, pela primeira vez naquela noite, percebi que eu também podia parar de representar o papel que Lucas havia escolhido para mim.
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