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LEITURA EM PARTESParte 6 de 10

Parte 6

Quase dois meses se passaram antes que eu voltasse a ver Sofia.

Dessa vez não houve encontro combinado.

Eu saía de uma papelaria quando a vi do outro lado da calçada.

Ela também me viu.

Por um instante, pensei que fingiríamos não nos reconhecer.

Seria mais fácil.

Mas Sofia atravessou a rua.

— Marina.

Parei.

Ela parecia diferente da última vez. Não necessariamente melhor. Apenas mais cansada e menos preocupada em esconder isso.

— Eu não vou tomar muito seu tempo — disse.

— Tudo bem.

Ela hesitou.

— Lucas contou que tentou falar com você.

— Várias vezes.

— Ele fez o mesmo comigo.

Aquilo não me surpreendeu.

— Estamos nos separando — continuou. — Já iniciamos os procedimentos.

Assenti.

— Espero que vocês resolvam isso da melhor forma possível.

Ela me observou como se esperasse alguma pergunta.

Não fiz nenhuma.

— Você não quer saber por quê?

— Não é assunto meu.

Sofia soltou uma respiração curta.

— Acho que finalmente entendi isso.

A frase parecia simples, mas trazia um peso que eu reconhecia.

Ela olhou para a rua antes de continuar.

— Depois do casamento, Lucas ficou obcecado em falar com você. Ele dizia que precisava fazer você entender que tinha se confundido, que podia desfazer nosso casamento e voltar para a vida que vocês tinham.

Eu permaneci em silêncio.

Não queria detalhes para alimentar mágoa.

Mesmo assim, Sofia prosseguiu:

— No começo fiquei com raiva de você.

— De mim?

— Eu sei. Não faz sentido.

— Não.

Ela aceitou a resposta.

— Era mais fácil achar que você estava atrapalhando alguma coisa do que admitir que eu tinha aceitado ser parte de uma situação horrível. Então comecei a perguntar ao Lucas por que tinha se casado comigo se, no momento em que perdeu você, tudo que fazia era tentar recuperá-la.

— E o que ele respondeu?

Sofia deu um sorriso amargo.

— Que não sabia.

Aquilo parecia exatamente com Lucas.

Não um homem sem sentimentos.

Um homem que tratara sentimentos como justificativa suficiente para evitar escolhas.

Queria Sofia porque ela representava algo que nunca tinha encerrado.

Queria a mim porque não suportava perder a vida construída durante três anos.

E, quando os dois caminhos se tornaram incompatíveis, em vez de escolher, tentou manter ambos.

— Eu não estou te contando isso para você sentir pena de mim — Sofia disse.

— Ainda bem.

— Eu sabia que vocês estavam juntos.

— Eu sei.

— Eu escolhi acreditar que ele terminaria.

— Eu sei disso também.

Ela assentiu.

— Então acho que era só isso.

Sofia começou a se afastar.

Antes que desse o segundo passo, falei:

— Sofia.

Ela se virou.

— Se você realmente quer assumir sua parte, pare de usar Lucas como única explicação para o que você fez.

Ela ficou imóvel.

— Ele mentiu. Ele manipulou. Ele foi covarde. Mas você mesma disse que sabia o bastante.

Sofia engoliu em seco.

— Eu sei.

— Então é aí que começa sua parte.

Ela não respondeu.

Depois assentiu e foi embora.

Eu continuei meu caminho.

A conversa não me trouxe satisfação.

Trouxe clareza.

Durante semanas, Lucas havia tentado construir uma narrativa em que todos estávamos presos numa confusão emocional. Ele falava de medo, impulso, passado, amor e arrependimento.

Mas as palavras começavam a perder força.

No fim, existiam ações muito concretas.

Ele havia procurado um cartório.

Entregado documentos.

Comparecido na data marcada.

Assinado o casamento.

Depois se vestido para outra cerimônia.

Recebido convidados.

Subido ao palco.

E me chamado para acompanhá-lo.

Nenhuma dessas etapas acontecera em um segundo de loucura.

Havia uma sequência inteira de decisões.

Naquela noite, Lucas me enviou um e-mail.

O assunto dizia apenas: “Última vez.”

Quase deletei sem abrir.

Acabei lendo.

Ele dizia que Sofia havia decidido seguir com a separação e que não iria impedi-la. Dizia que entendia que eu não pretendia voltar. Pedia apenas uma oportunidade de conversar quando tudo estivesse oficialmente encerrado.

Não respondi.

Três dias depois, outro e-mail chegou.

“Não estou pedindo para você esperar. Só quero que saiba que vou consertar a bagunça que fiz.”

Dessa vez respondi.

“Conserte porque é sua responsabilidade. Não por mim.”

Foi a última mensagem entre nós por algumas semanas.

E essa ausência trouxe uma mudança inesperada.

Eu voltei a planejar dias que não tinham relação com Lucas.

Retomei compromissos que havia adiado por causa da preparação do casamento. Passei fins de semana com amigos sem precisar explicar por que ficaria até mais tarde ou por que mudara de ideia. Comecei a organizar meu apartamento do jeito que eu gostava, sem pensar se aquilo combinaria com os móveis que escolheríamos juntos.

E, aos poucos, descobri quantas decisões pequenas eu tinha terceirizado.

Não porque Lucas exigisse todas elas.

Algumas eu simplesmente deixara de fazer sozinha.

Relacionamentos podem ocupar espaço sem que a gente perceba.

Quando acabam, esse espaço assusta.

Depois começa a respirar.

Minha madrinha percebeu antes de mim.

— Você está diferente — disse durante um almoço.

— Diferente como?

— Menos alerta.

Fiquei pensando naquilo.

Ela tinha razão.

Nos últimos meses do noivado, eu vivia tentando antecipar o humor de Lucas. Se ele demorava a responder, eu me perguntava se estava chateado. Se mudava um plano, tentava entender antes de reclamar.

Eu chamava isso de cuidado.

Agora começava a enxergar quanto daquela atenção era medo de conflito.

Foi nesse período que Lucas voltou a procurar minha madrinha.

Não pediu que ela me convencesse a voltar.

Pediu que entregasse um recado.

“Quando o divórcio estiver concluído, quero devolver pessoalmente uma última coisa para Marina.”

Ela me contou esperando minha reação.

— O quê?

— Ele não disse.

Balancei a cabeça.

— Então pode deixar na portaria.

— Foi o que eu respondi.

Sorri.

Ela sorriu também.

No dia seguinte, Lucas mandou um e-mail curto.

“Não é uma desculpa para ver você. É algo que deveria ter devolvido há muito tempo.”

Não respondi.

Qualquer que fosse o objeto, ele não precisava se transformar em encontro.

Pela primeira vez, percebi que não era mais a curiosidade que orientava minhas decisões.

E essa talvez fosse a mudança mais importante de todas.

Eu já não precisava descobrir cada detalhe da queda de Lucas para saber em que direção queria seguir.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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