
PARTE 8
Os meses seguintes foram menos dramáticos do que os primeiros, mas talvez mais importantes. Não havia grandes confrontos nem revelações. Havia documentos para revisar, valores para conferir, assinaturas preliminares e decisões pequenas que, juntas, desmontavam uma vida construída a dois.
O acordo sobre o apartamento levou algumas semanas para ser fechado. Caio precisou comprovar que conseguiria assumir sozinho as obrigações financeiras e organizar a compensação referente à minha parte. Nada foi resolvido com uma ligação rápida. O banco analisou a situação, os advogados ajustaram cláusulas e nós esperamos.
Eu gostava daquela lentidão.
Ela impedia que qualquer um de nós fingisse que uma decisão importante podia ser resolvida impulsivamente.
Enquanto isso, transformei o apartamento alugado num lugar realmente meu. Comprei plantas, pendurei duas fotografias que estavam guardadas havia anos e montei um pequeno espaço de trabalho junto à janela. Pela primeira vez desde que saí de casa, parei de pensar naquele lugar como provisório.
Minha rotina também mudou.
Eu ainda trabalhava bastante, mas voltei a aceitar convites de amigas que havia negligenciado durante anos. Algumas amizades não tinham desaparecido; apenas tinham ficado espremidas entre compromissos familiares e a minha antiga mania de estar sempre disponível para os Menezes.
Não contei a ninguém uma versão em que eu era vítima perfeita.
Eu tinha permitido que muitas coisas se organizassem daquela maneira porque, durante muito tempo, era confortável deixar Caio cuidar de tudo.
Reconhecer isso não diminuía a responsabilidade dele.
Apenas me ajudava a entender o que eu não queria repetir.
Bianca e Bruno conseguiram alugar uma das casas.
Com o dinheiro do aluguel, passaram a cobrir parte dos custos dos dois imóveis. Eles permaneceram com a outra casa e começaram a avaliar se, no futuro, venderiam uma delas. Não me envolvi nas decisões.
Certo domingo, Bianca me convidou para um café.
Aceitei por curiosidade.
Quando nos encontramos, ela parecia diferente da mulher cercada de parentes no funeral. Ainda era vaidosa, ainda falava com facilidade e tinha o jeito social que minha sogra sempre admirara, mas estava menos preocupada em provar que tinha sido a favorita.
— Eu queria te dizer uma coisa sem transformar isso numa grande cena — falou.
Esperei.
— Durante muito tempo, eu gostei de saber que ela gostava mais de mim.
A honestidade me surpreendeu.
Bianca continuou:
— Eu percebia a diferença. E, para ser sincera, às vezes eu alimentava isso.
Não senti raiva.
Meses antes, talvez aquela confissão tivesse me destruído.
Agora, ouvi como quem recebe a confirmação de algo que já sabia.
— Você não precisa fingir que não gostava — respondi. — Quase todo mundo gosta de ser escolhido.
Bianca abaixou os olhos.
— Só que alguém sempre paga por essa escolha.
Eu sabia que esse alguém, durante muito tempo, tinha sido eu.
Mas também sabia que Bianca não escrevera o testamento.
— Sua relação com ela era sua — falei. — O que me feriu não foi você receber mais. Foi todo mundo agir como se isso definisse quem eu era dentro da família.
Ela assentiu.
Conversamos por quase uma hora.
Não saímos dali como irmãs.
Saímos apenas como duas mulheres que finalmente conseguiam conversar sem usar minha sogra como árbitra entre nós.
Poucos dias depois, meu advogado informou que o acordo patrimonial com Caio estava praticamente concluído. Faltavam detalhes sobre a transferência da minha parte no apartamento e a formalização de algumas obrigações.
Caio pediu uma reunião presencial.
No escritório, revisamos cada ponto.
Ele não tentou esconder valores nem criar dificuldade.
Quando surgiu uma diferença pequena numa aplicação conjunta, ele próprio apontou o erro antes que meu advogado percebesse.
Talvez fosse apenas o comportamento correto.
Mesmo assim, eu notei.
No fim da reunião, Caio perguntou se poderia falar comigo alguns minutos sem os advogados.
Fomos até uma pequena praça em frente ao prédio.
Ele disse que a terapia o ajudara a perceber que passara a vida tentando conquistar o amor da mãe sendo o filho que resolvia problemas. Como ela preferia Bruno em muitos momentos, Caio aprendera a compensar assumindo responsabilidades.
Não usei aquela explicação para absolvê-lo.
Mas pela primeira vez consegui enxergar uma linha entre o menino que tentava ser útil e o homem que um dia acreditou ter o direito de pegar meu dinheiro para salvar o irmão de um problema.
— Entender de onde veio não faz desaparecer — falei.
— Eu sei.
— Mas talvez ajude você a não fazer de novo com outra pessoa.
Caio me olhou.
— Outra pessoa.
Percebi que a frase o machucara.
Ainda assim, ele sorriu de leve.
— Você está certa.
Voltamos para o prédio em silêncio.
Dias depois, a compensação pela minha parte do apartamento foi depositada na conta indicada no acordo.
Era o último vínculo financeiro realmente grande entre nós.
Quando vi o valor, não pensei em herança.
Não pensei nas casas de Bianca.
Não pensei nos R$ 50 mil.
Pensei que, pela primeira vez em muito tempo, todas as minhas decisões financeiras importantes dependiam apenas de mim.
Usei parte do dinheiro para formar uma reserva maior.
Não comprei nada extravagante.
Não precisava transformar minha separação em uma demonstração de sucesso.
A maior mudança não podia ser fotografada.
Ela estava no fato de que eu já não esperava que alguém me dissesse quanto eu valia.
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