
PARTE 7
Caio chegou ao café antes de mim. Quando entrei, ele estava perto da janela com duas xícaras sobre a mesa. Por um instante, a cena me levou de volta ao dia em que eu retornara do banco e o encontrara esperando em casa com café preparado, como se um gesto familiar pudesse tornar mais fácil uma conversa impossível.
Dessa vez, sentei.
Caio perguntou se eu queria alguma coisa para comer. Neguei com a cabeça. Não havia motivo para prolongar o início.
— Eu quero o divórcio — disse.
Ele fechou os olhos por um instante.
Não perguntou se eu tinha certeza.
Também não pediu mais uma chance imediatamente.
Apenas respirou fundo e assentiu.
Eu expliquei que não tinha chegado àquela decisão por causa do valor da herança, nem porque queria puni-lo. Durante as semanas em que estivemos afastados, eu observara nossa relação sem a pressão de resolver tudo rapidamente. E percebera que, mesmo reconhecendo mudanças reais nele, não desejava voltar ao casamento.
— Eu poderia tentar reconstruir a confiança — falei. — Mas percebi que não quero reconstruir a mesma vida.
Caio permaneceu olhando para a mesa.
Depois perguntou se poderíamos fazer tudo de maneira consensual.
Respondi que essa era minha preferência.
Nas semanas seguintes, nossos advogados começaram a organizar os termos. Não havia fortuna escondida nem patrimônio gigantesco para disputar. Existia o apartamento em que morávamos, comprado durante o casamento com financiamento ainda em andamento, um carro, aplicações relativamente modestas e os bens comuns de uma vida de cinco anos.
Caio sugeriu ficar com o apartamento e assumir sozinho o saldo do financiamento, compensando financeiramente minha participação. Minha advogada analisou os números, fez alguns ajustes e considerou a proposta razoável. Eu preferia receber minha parte e seguir no apartamento que alugara, em vez de permanecer presa ao imóvel onde nosso casamento tinha terminado.
O carro ficou comigo por necessidade de trabalho, com a diferença considerada no acerto geral.
Móveis e objetos pessoais foram a parte mais estranha.
Uma mesa não parecia importante até eu lembrar que a escolhemos juntos.
Uma cafeteira podia carregar a memória de centenas de manhãs.
Um conjunto de taças podia me fazer lembrar de um aniversário que, até poucos meses antes, eu considerava feliz.
Foi necessário aprender que terminar um casamento não transforma retroativamente todos os dias bons em mentira.
Alguns tinham sido genuinamente bons.
Mesmo assim, terminavam.
Enquanto nossos advogados trabalhavam, surgiu um novo problema: os parentes começaram a descobrir que eu havia pedido o divórcio.
Uma tia de Caio me ligou dizendo que eu estava exagerando.
Segundo ela, homens cometiam erros, Caio tinha devolvido o dinheiro e eu deveria pensar na família antes de destruir um casamento de cinco anos.
Ouvi sem interromper.
Quando ela terminou, perguntei se Caio havia pedido que ligasse para mim.
Ela hesitou.
Disse que não.
Então respondi que minha decisão não seria debatida com parentes.
No mesmo fim de semana, Caio reuniu parte da família para tratar de assuntos relacionados ao inventário da mãe. Eu não estava presente, mas soube depois, por Bianca, que a discussão sobre nosso divórcio surgiu novamente.
Dessa vez, Caio não ficou calado.
Ele contou, diante de todos, que havia retirado meu dinheiro sem autorização.
Disse que eu não estava me divorciando porque recebera menos herança, nem porque queria as casas de Bianca.
Assumiu que a ruptura começara quando ele decidira movimentar o único bem deixado para mim sem me consultar.
A notícia mudou o tom de algumas pessoas.
Bianca me ligou naquela noite.
— Ele falou tudo — disse.
Fiquei surpresa.
— Tudo o quê?
— Que o dinheiro foi usado para ajudar a gente e que você nunca pediu parte das casas.
Sentei no sofá.
Durante meses, eu havia carregado a sensação de que a família inteira me enxergava como a nora amarga que não aceitara receber menos. Eu dizia a mim mesma que não precisava da aprovação deles. Ainda assim, perceber que Caio tinha assumido publicamente sua responsabilidade trouxe um alívio que eu não esperava.
— E como reagiram? — perguntei.
Bianca soltou um suspiro.
— Alguns ficaram sem graça. Outros disseram que ele errou. A tia Marta tentou defender ele até o fim.
Eu ri pela primeira vez ao falar daquele assunto.
— Isso parece muito com ela.
Bianca também riu.
Foi uma conversa curta, mas quando desligamos percebi que nossa relação tinha mudado.
Nunca seríamos amigas íntimas.
Também não precisávamos ser rivais.
Na semana seguinte, encontrei Caio no escritório dos advogados para revisar a primeira versão do acordo.
Quando terminou a reunião, saímos juntos até a calçada.
— Bianca me contou sobre a reunião da família — falei.
Caio enfiou as mãos nos bolsos.
— Eu devia ter feito isso antes.
— Devia.
Ele assentiu.
Depois de alguns segundos, disse:
— Eu passei muito tempo tentando proteger a imagem de todo mundo. Da minha mãe, do Bruno, a minha. E deixei você parecer a pessoa difícil porque era mais conveniente ficar calado.
A sinceridade doeu.
Mas eu preferia aquela dor à velha sequência de justificativas.
— Obrigada por ter corrigido isso — respondi.
Ele olhou para mim.
— Isso muda alguma coisa?
Eu sabia o que estava perguntando.
Balancei a cabeça.
— Não muda minha decisão.
Caio respirou fundo.
— Eu imaginei.
Nos despedimos.
Caminhei até o carro sentindo uma tristeza tranquila.
Aquele era talvez o momento mais difícil de todo o processo: perceber que Caio finalmente estava se tornando capaz de reconhecer o que havia feito sem tentar escapar da responsabilidade.
E perceber, ao mesmo tempo, que eu não precisava permanecer casada com ele para validar essa mudança.
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