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LEITURA EM PARTESParte 2 de 10

PARTE 2

A atendente ficou alguns segundos em silêncio antes de girar levemente a tela para o lado, sem expor informações de outros clientes. Ela disse que precisava confirmar se eu reconhecia uma movimentação feita na aplicação vinculada ao meu CPF. Na noite anterior, quase todo o valor havia sido resgatado e transferido para uma conta em nome de Caio Menezes.

Por alguns segundos, achei que tivesse entendido errado. Perguntei qual era o valor da transferência, e ela respondeu que tinham sido movimentados R$ 49.700, restando pouco mais de trezentos reais entre saldo e rendimentos. Meu primeiro impulso foi dizer que aquilo era impossível, mas nenhuma palavra saiu.

A funcionária perguntou se eu havia autorizado o resgate. Balancei a cabeça lentamente e disse que não. Ela então explicou que a operação havia sido realizada por acesso digital e que eu poderia registrar uma contestação, bloquear imediatamente as credenciais e solicitar o histórico completo da movimentação.

Pedi que ela imprimisse tudo o que eu tinha direito de receber como titular. Enquanto a impressora trabalhava, fiquei olhando para minhas próprias mãos sobre o balcão. Na noite anterior, Caio tinha voltado bêbado para casa dizendo que me compensaria, e agora aquelas palavras ganhavam um sentido diferente.

A atendente me orientou a alterar senhas, revisar os dispositivos autorizados e formalizar a contestação. Fiz tudo ali mesmo. Não senti raiva naquele momento; senti uma espécie de vazio, como se meu corpo estivesse demorando para acompanhar o que minha cabeça já havia compreendido.

Saí do banco com uma pasta simples de documentos debaixo do braço. Não liguei para Caio imediatamente. Sentei num café do outro lado da rua e li cada linha do extrato até encontrar o destino da transferência.

O nome dele aparecia claramente. Caio Menezes. A transferência havia sido feita às 18h42 do dia anterior, enquanto eu ainda estava ocupada recebendo parentes depois do funeral.

Foi então que me lembrei de que, durante anos, Caio e eu havíamos tratado senhas e contas com uma confiança quase automática. Não porque todo o dinheiro fosse conjunto, mas porque nunca imaginei que um de nós usaria o acesso do outro sem pedir. Aquela confiança, que antes me parecia intimidade, de repente pareceu ingenuidade.

Liguei para ele apenas quando consegui falar sem tremer. Caio atendeu no terceiro toque, com a voz rouca de quem tinha acabado de acordar. Perguntei onde estavam os R$ 49.700.

Do outro lado, houve silêncio. Não uma pergunta de quem não entendia do que eu estava falando, mas o silêncio de alguém que sabia exatamente o que eu havia descoberto. Quando ele finalmente respondeu, disse apenas que preferia explicar pessoalmente.

Eu disse que estaria em casa em vinte minutos. Também avisei que já tinha bloqueado meu acesso digital anterior e registrado a contestação no banco. Pela primeira vez desde que nos casamos, não perguntei se ele estava bem nem se queria que eu comprasse alguma coisa no caminho.

Quando desliguei, fiquei olhando pela janela do café. A herança de R$ 50 mil já tinha me ferido porque parecia resumir cinco anos de convivência a uma quantia pequena diante do que Bianca recebera. Mas o que Caio tinha feito transformava aquilo em outra coisa: não era mais apenas sobre minha sogra ter me valorizado menos, e sim sobre meu marido acreditar que podia decidir o destino até da pequena parte que tinha sido deixada para mim.

Dobrei o extrato, coloquei-o de volta na pasta e me levantei. Eu ainda não sabia se aquele casamento terminaria naquele dia, mas sabia que alguma coisa havia terminado no instante em que vi o nome dele como destinatário da transferência. E, dessa vez, Caio não teria como resolver tudo dizendo que depois me compensaria.

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