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LEITURA EM PARTESParte 6 de 10

PARTE 6

As duas casas herdadas por Bianca e Bruno começaram a exigir atenção quase imediatamente. Não havia nenhum segredo escondido nos imóveis, nenhuma dívida inesperada capaz de transformar a herança em desastre. Havia apenas aquilo que qualquer patrimônio grande traz consigo: impostos, manutenção, documentação, seguros e decisões que não poderiam ser adiadas indefinidamente.

Uma das casas estava vazia havia meses. A outra precisava de reparos antes de ser colocada para locação. Bianca me contou isso numa conversa casual, semanas depois, quando nos encontramos para devolver alguns objetos que tinham ficado comigo depois do funeral.

Ela não reclamou da herança.

Disse apenas que, antes, ouvia os parentes falarem das casas como se receber dois imóveis significasse nunca mais precisar pensar em dinheiro. Na prática, ela e Bruno precisavam organizar orçamento, decidir se alugariam uma delas, avaliar custos e parar de depender de Caio sempre que surgia uma despesa.

— Acho que a gente deixou ele ocupar esse lugar também — Bianca admitiu. — O de resolver tudo.

A frase me surpreendeu porque era quase a mesma conclusão a que eu havia chegado.

Bruno, segundo ela, tinha ficado envergonhado ao entender que o irmão retirara meu dinheiro para ajudá-lo. Por isso, os dois tinham decidido não aceitar mais nenhuma ajuda financeira de Caio enquanto não devolvessem completamente o valor utilizado.

Na semana seguinte, Bruno transferiu o restante da parte que havia recebido.

Caio completou imediatamente o que ainda faltava e me enviou o comprovante.

R$ 49.700 tinham voltado para minhas mãos.

Somados ao pequeno saldo que restara na aplicação, eu finalmente possuía os R$ 50 mil que minha sogra tinha deixado para mim.

Não senti vitória.

Senti encerramento.

No mesmo dia, entrei em contato com o banco, informei que o valor havia sido restituído diretamente pelo destinatário e perguntei como proceder com a contestação. A instituição registrou a informação e manteve o histórico da ocorrência. Não existiu um botão mágico que apagasse o que acontecera; havia apenas um registro de que a transferência fora contestada e posteriormente reparada entre as partes.

Também mandei uma mensagem para Caio.

“Recebi todo o valor. Obrigada por concluir a devolução.”

Ele respondeu poucos minutos depois.

“Eu devia ter devolvido desde o primeiro dia. Obrigado por não misturar isso com a decisão sobre nós.”

A frase me pareceu importante.

Durante meses, eu temera que Caio usasse cada pagamento como argumento para me convencer a voltar. Mas ele não fez isso.

Mesmo assim, nossa distância aumentava.

Não de maneira hostil.

Apenas real.

Nossas conversas se tornaram cada vez mais objetivas. Falávamos sobre documentos, bens que precisavam ser separados e questões práticas do apartamento onde havíamos morado juntos. Sem a rotina diária para preencher os espaços, ficou evidente o quanto tínhamos construído uma relação baseada também em hábitos e papéis fixos.

Eu cuidava de determinadas coisas.

Ele cuidava de outras.

Quando esses papéis foram retirados, restaram duas pessoas tentando descobrir se ainda queriam escolher uma à outra.

Foi nesse período que Caio fez algo que eu não esperava.

Ele ligou para Bruno e Bianca e disse que não continuaria assumindo despesas dos dois apenas porque era o irmão mais velho. Não fez isso por raiva. Explicou que os ajudaria em emergências reais, como qualquer irmão faria, mas que não usaria mais o próprio casamento nem recursos de terceiros para proteger a família das consequências das próprias escolhas.

Bruno não reagiu bem no início.

Os dois discutiram.

Caio me contou depois, não para receber elogios, mas porque a conversa estava diretamente ligada ao motivo de nossa separação. Disse que Bruno o acusara de mudar depois que eu saíra de casa.

— E você respondeu o quê? — perguntei.

— Que eu precisava mudar antes.

Foi uma resposta boa.

Talvez tarde demais para nós, mas boa.

Bianca e Bruno decidiram colocar uma das casas para alugar assim que os reparos terminassem. A renda serviria para cobrir parte das despesas dos dois imóveis. Pela primeira vez, vi os dois lidando com a herança não como um prêmio, mas como uma responsabilidade.

Isso também mudou alguma coisa dentro de mim.

Eu parei de olhar para aquelas casas como a medida exata do meu valor.

Minha sogra tinha preferências.

Talvez tivesse amado mais Bianca.

Talvez tivesse se identificado mais com Bruno.

Talvez simplesmente quisesse beneficiar o filho caçula.

Eu jamais teria uma resposta completa, e ela não estava mais viva para explicar.

Mas o testamento dizia algo sobre ela.

Não precisava dizer tudo sobre mim.

No trabalho, recebi a confirmação de que seria responsável pela próxima fase do projeto que eu havia apresentado à diretoria. Não era uma promoção extraordinária nem uma mudança súbita de vida, mas representava mais responsabilidade e um aumento de salário.

Contei a notícia primeiro para uma colega.

Só horas depois percebi que, durante cinco anos, Caio teria sido a primeira pessoa para quem eu ligaria.

A percepção me entristeceu.

À noite, sentei sozinha na varanda pequena do apartamento e deixei a tristeza existir sem transformá-la em arrependimento.

Sentir falta não significava que eu tivesse tomado a decisão errada.

Dias depois, marquei outra conversa com a advogada.

Dessa vez, entrei no escritório sabendo exatamente por que estava ali.

Perguntei quais seriam os próximos passos caso eu decidisse encerrar o casamento de forma consensual.

Quando saí, não liguei imediatamente para Caio.

Esperei até chegar em casa.

Fiquei alguns minutos parada diante da janela.

Então mandei uma mensagem pedindo que nos encontrássemos no fim de semana.

Eu já não precisava de mais tempo para decidir se queria voltar à antiga relação.

Precisava apenas coragem para dizer que não queria.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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