
PARTE 5
Depois daquela conversa, parei de contar os dias desde que saí de casa. O apart-hotel, que no início parecia uma solução temporária, começou a me incomodar pela sensação de suspensão. Eu precisava de um lugar onde pudesse abrir uma gaveta e saber que ninguém esperava que eu fechasse a mala na semana seguinte. Por isso, procurei um apartamento pequeno para alugar.
Encontrei um de dois quartos a poucos quilômetros do trabalho. Não era luxuoso, e a cozinha era muito menor do que a que eu tinha dividido com Caio durante cinco anos. Mesmo assim, quando recebi as chaves, fiquei alguns minutos sozinha no meio da sala vazia. O eco dos meus passos me deu uma sensação que eu não experimentava havia muito tempo: aquele espaço não carregava expectativa alguma sobre quem eu deveria ser.
Comprei apenas o necessário. Uma mesa, uma cama, um sofá simples e algumas prateleiras. Eu poderia ter usado parte do dinheiro que Caio já havia devolvido, mas preferi manter aquela quantia separada até que toda a situação estivesse resolvida. As primeiras compras foram pagas com meu salário e com minhas economias pessoais.
A mudança tornou minha separação mais concreta.
Quando Caio soube que eu tinha alugado um apartamento, pediu para conversar. Perguntou se aquilo significava que eu já tinha decidido pelo divórcio. Respondi que significava apenas que eu tinha decidido parar de viver provisoriamente enquanto pensava.
Ele aceitou, embora fosse evidente que a resposta o machucava.
Nesse mesmo período, Bruno devolveu mais uma parte do dinheiro que tinha recebido. Bianca me enviou uma mensagem curta dizendo que os dois haviam discutido bastante sobre a situação. Segundo ela, Bruno também não sabia, quando aceitou a ajuda, de onde exatamente Caio tirara aquele valor.
Eu não tinha motivo para entrar no casamento deles. Apenas respondi que minha questão era com Caio e que ficaria satisfeita quando o dinheiro fosse totalmente devolvido.
Bianca escreveu mais uma coisa.
Disse que, depois do funeral, tinha ficado tão envolvida com comentários sobre as casas e com a ideia de que minha sogra a havia escolhido como “a nora preferida” que não percebeu o quanto aquilo devia ter sido humilhante para mim. Não pediu desculpas por ter recebido os imóveis, porque aquilo não tinha sido decisão dela. Pediu desculpas apenas por ter participado daquele ambiente sem pensar no que eu sentia.
Li a mensagem duas vezes.
Depois respondi que agradecia.
Foi pouco, mas era suficiente.
Enquanto isso, Caio começou terapia por iniciativa própria. Ele me contou isso numa mensagem, sem usar a informação como moeda de troca. Disse que estava tentando entender por que confundia constantemente “resolver problemas” com “decidir pelas pessoas”.
A frase me acompanhou por alguns dias.
Durante nosso casamento, eu havia admirado esse lado dele. Caio sempre era o primeiro a pagar uma conta atrasada de algum parente, organizar documentos, levar alguém ao hospital ou cobrir uma emergência. Para todos, ele era o filho confiável.
Agora eu percebia o preço escondido daquele comportamento.
Ele se acostumara tanto a ser o homem que resolvia tudo que, em algum momento, deixara de perguntar se os outros queriam que ele resolvesse.
No trabalho, o projeto que eu havia retomado começou a dar resultado. Fui chamada para participar de uma apresentação importante com a diretoria. Antes, eu provavelmente teria recusado a viagem necessária para não coincidir com um compromisso familiar. Dessa vez, aceitei sem hesitar.
Passei quatro dias fora da cidade.
À noite, no hotel, percebi que não tinha verificado nenhuma vez o celular para saber se Caio precisava de mim.
A constatação doeu e, ao mesmo tempo, trouxe paz.
Quando voltei, ele havia transferido mais R$ 10 mil.
Restava pouco.
Alguns dias depois, Caio pediu para me ver. Marcamos novamente num café. Dessa vez, ele não levou planilhas.
— Quero saber se existe alguma coisa que eu possa fazer para você considerar voltar — disse.
Olhei para ele durante alguns segundos.
Eu ainda reconhecia o homem com quem tinha dividido cinco anos de vida. Reconhecia seu jeito de apertar os dedos quando estava nervoso, a pequena linha entre as sobrancelhas, a maneira de esperar minha resposta sem conseguir disfarçar a ansiedade.
Não era fácil olhar para alguém que ainda fazia parte da minha história e dizer que talvez o amor não fosse suficiente.
— Existe uma diferença entre eu acreditar que você pode mudar e eu querer continuar casada enquanto você muda — respondi.
Caio ficou em silêncio.
Expliquei que eu não estava exigindo perfeição. O problema era que a confiança tinha sido quebrada justamente no ponto que sustentava nossa relação: eu acreditava que, mesmo quando discordasse de mim, ele respeitaria meu direito de escolher.
Ele perguntou se eu ainda o amava.
Demorei a responder.
— Amo partes da vida que nós tivemos. E ainda me importo com você. Mas eu não sei se isso significa que quero voltar.
Ele assentiu lentamente.
Não chorou nem insistiu.
Quando nos despedimos, Caio disse que completaria a devolução dos R$ 49.700 independentemente da decisão que eu tomasse.
Na semana seguinte, recebi mais R$ 4 mil.
Faltavam apenas R$ 2.700.
Pela primeira vez desde o funeral, a quantia já não parecia tão importante.
O que importava era outra coisa: quando entrei naquele banco, eu achava que o maior insulto da minha vida era ter recebido menos do que Bianca.
Agora eu começava a entender que a pergunta mais importante não era quanto minha sogra tinha deixado para cada uma de nós.
Era quanto da minha própria vida eu continuaria entregando aos outros para que decidissem por mim.
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