
PARTE 9
Três meses depois do noivado cancelado, restava apenas concluir formalmente o que já tinha mudado na prática. As três famílias haviam encontrado caminhos próprios, ainda que mais caros, menores ou menos confortáveis.
Eu também havia encontrado o meu.
O escritório parecia mais silencioso naquela manhã quando Daniel colocou diante de mim a minuta final do encerramento entre meu patrimônio e as obrigações futuras da família Farias.
— Depois dessa assinatura e dos registros, não sobra nenhum vínculo financeiro relacionado ao projeto.
Passei os olhos pelo documento.
— E o que já foi executado antes?
— Permanece regular. Você não está anulando o passado. Apenas encerrando qualquer obrigação futura.
Exatamente como eu queria.
Assinei.
Daniel recolheu os papéis.
— Acabou.
Eu quase corrigi.
Ainda faltava uma coisa.
Não financeira.
A família Farias havia pedido uma reunião final para formalizar o cancelamento do noivado entre as famílias e devolver alguns itens trocados durante o compromisso.
Nada valioso o suficiente para mudar minha vida.
Mas simbólico o bastante para merecer encerramento.
Aceitei.
A reunião aconteceu na casa de Beatriz.
Desta vez, não havia convidados.
Apenas eu, Marcelo, Beatriz, Augusto e Teresa.
Camila não estava.
Eu soube depois que Marcelo preferira não colocá-la no meio de uma conversa que dizia respeito ao compromisso anterior.
Foi uma decisão sensata.
Beatriz começou.
— Não vejo motivo para prolongar isso. Os documentos financeiros estão praticamente concluídos. Falta apenas registrar que o noivado está encerrado por decisão das partes envolvidas.
Eu olhei para Marcelo.
Ele respirou fundo.
— Por minha decisão inicial — disse.
Augusto desviou os olhos.
Beatriz permaneceu séria.
— Marcelo…
— Foi isso que aconteceu.
Eu não esperava que ele dissesse.
Mas não o interrompi.
— Eu escolhi cancelar — continuou. — Lívia só aceitou a decisão e retirou as garantias que estavam ligadas à união.
Augusto finalmente olhou para ele.
— Você entende quanto isso custou?
Marcelo sustentou o olhar.
— Entendo melhor agora do que naquela noite.
A resposta criou um silêncio desconfortável.
Não havia vencedores naquela sala.
A família Farias perdera margem e atrasara um projeto.
Os Tavares haviam vendido uma participação e assumido crédito mais caro.
Os Nogueira reduziriam a expansão internacional.
Eu perdera um noivado, parte da confiança na família e uma ideia de futuro.
Mas cada consequência tinha origem em decisões reais.
Era isso que tornava tudo diferente de vingança.
Beatriz colocou sobre a mesa uma pequena caixa.
Dentro estava o anel de noivado que eu havia devolvido por meio de uma funcionária dias depois da festa.
— O joalheiro confirmou que a peça pertence à família Farias — disse.
— Então deve ficar com vocês.
Ela fechou a caixa.
— E os presentes que sua família nos deu?
Augusto respondeu antes de mim:
— O que for necessário, devolvemos.
Eu olhei para ele.
— Apenas o que tiver caráter formal de compromisso. Não precisamos transformar lembranças comuns em inventário.
Beatriz concordou.
A reunião estava terminando com muito menos violência do que começara meses antes.
Marcelo pediu para falar comigo a sós por alguns minutos.
Saímos para a varanda.
Durante algum tempo, nenhum dos dois disse nada.
— Eu não vou pedir outra chance — falou por fim.
— Ainda bem.
Ele soltou uma risada curta.
— Você continua direta.
— Ficou mais fácil.
Marcelo apoiou as mãos no parapeito.
— Eu fui covarde naquela noite.
Não respondi imediatamente.
— Você poderia ter falado comigo antes.
— Eu sei.
— Poderia ter terminado sem me colocar diante de centenas de pessoas.
— Eu sei.
— E poderia ter pensado nas consequências antes de supor que todo o resto continuaria igual.
Ele assentiu.
— Também sei.
Olhei para ele.
— Então aprenda com isso.
Marcelo respirou fundo.
— Você me odeia?
A pergunta me surpreendeu.
— Não.
Ele virou o rosto.
— Isso é pior?
— Não para mim.
Eu não precisava odiá-lo para não querer voltar.
Essa percepção foi uma das coisas mais libertadoras de todo o processo.
— Eu espero que você e Camila consigam construir uma vida que seja realmente de vocês — falei. — Sem usar minha história como inimiga comum. Sem depender de mim para justificar se fizeram a escolha certa.
Marcelo me encarou.
— E você?
— Eu também vou construir a minha.
Voltamos para a sala.
Poucos minutos depois, a última declaração foi assinada.
O noivado estava formalmente encerrado.
Na saída, Augusto me acompanhou até o carro.
— Vai aparecer no jantar de domingo?
A pergunta era simples.
Não mencionava banco, empresa ou obrigação.
— Talvez.
Ele franziu a testa.
— Isso significa sim ou não?
Sorri.
— Significa que vou se eu quiser.
Augusto ficou parado por um instante.
Depois riu.
— Justo.
Entrei no carro.
Enquanto dirigia, percebi que aquela frase resumira toda a mudança dos últimos meses.
Eu iria se quisesse.
Ajudaria se escolhesse.
Assinaria se concordasse.
Ficaria se fosse respeitada.
Pela primeira vez, nenhuma dessas decisões parecia precisar da aprovação de outra família.
Ainda faltava uma etapa para concluir tudo: a reunião final do conselho patrimonial que formalizaria o novo modelo de gestão dos ativos deixados pela minha mãe.
Não havia segredo ali.
Apenas uma decisão que eu vinha adiando havia anos.
Dessa vez, eu entraria naquela sala sem pensar no que os Tavares, os Farias ou os Nogueira esperavam.
Eu pensaria apenas no que eu estava disposta a construir.
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