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LEITURA EM PARTESParte 3 de 10

PARTE 3

Na manhã seguinte, eu acordei antes do despertador. Não porque tivesse dormido bem, mas porque meu corpo parecia ainda preso à tensão da noite anterior. Durante alguns minutos, fiquei olhando para o teto, tentando separar o que tinha sido humilhação do que, de fato, precisava ser resolvido.

Havia dezenas de mensagens no celular. Algumas vinham de conhecidos que tinham estado na festa, outras de pessoas que só queriam saber se os rumores eram verdadeiros. Não respondi a nenhuma delas. A única conversa que abri foi a de Daniel.

Ele me enviara um resumo das medidas iniciadas pelo departamento jurídico. As garantias não desapareceriam de um minuto para o outro, como se nunca tivessem existido. Cada operação tinha prazo, obrigação e procedimento próprio, e meu pedido era simples: cumprir exatamente o que estava previsto, sem favores e sem atalhos.

Liguei para ele.

— Algum problema?

— Nenhum que não fosse esperado — respondeu. — Mas os bancos já pediram reuniões. O projeto dos Farias depende da apresentação de uma nova estrutura de garantia para a próxima etapa. O Grupo Tavares também terá de mostrar como pretende substituir a linha temporária quando ela vencer.

— E os Nogueira?

Daniel fez uma pausa curta.

— A aquisição no exterior ainda não terminou. Sem a continuidade do apoio patrimonial, eles provavelmente precisarão reduzir a operação, trazer um parceiro ou renegociar a parte financiada.

Fechei os olhos.

Nenhuma daquelas consequências era surpresa.

O que me surpreendia era perceber como, durante anos, todos haviam tratado meus recursos como parte natural de seus próprios planejamentos. Enquanto o casamento com Marcelo parecia garantido, ninguém se preocupava em perguntar se eu continuaria disposta a assumir aqueles riscos.

— Faça tudo pelos canais formais — eu disse. — Nada de respostas pessoais. Nada de discussões sobre a festa.

— Entendido.

Pouco depois da ligação, Augusto me telefonou.

Ignorei a primeira chamada.

Na segunda, atendi.

— Venha para a sede do grupo — disse ele, sem sequer perguntar como eu estava. — Precisamos conversar antes que isso se transforme em um problema maior.

— Sobre o quê?

— Você sabe muito bem.

— Então diga.

Houve alguns segundos de silêncio.

— O banco quer uma posição sobre a renovação da linha.

— A posição já foi dada.

— Lívia, não estou discutindo isso por telefone.

— Eu também não.

Ele respirou fundo.

— Às duas da tarde. Na sala do conselho.

Eu poderia ter recusado. Em vez disso, aceitei. Não porque Augusto tivesse o direito de me convocar, mas porque eu queria encerrar de uma vez a ideia de que a minha decisão era apenas uma reação emocional que poderia ser revertida depois que eu me acalmasse.

Cheguei alguns minutos antes do horário. Augusto estava na sala acompanhado de dois diretores financeiros do grupo. Nenhum deles mencionou a festa. Sobre a mesa havia planilhas de fluxo de caixa, vencimentos e projeções.

Aquilo me mostrou o primeiro efeito concreto da noite anterior.

O assunto já não era o meu noivado.

Era dinheiro.

Augusto fechou a porta.

— Se essa linha não for renovada, teremos de antecipar algumas medidas que não estavam previstas para este trimestre.

— Então antecipem.

— Você sabe que isso pode significar venda de ativos e adiamento de projetos.

— Sei.

Ele apoiou as duas mãos sobre a mesa.

— E mesmo assim vai manter a decisão?

— Vou.

Um dos diretores tentou falar em tom conciliador.

— Lívia, talvez seja possível renovar apenas por seis meses. Isso nos daria tempo para organizar uma substituição sem pressionar tanto o caixa.

Olhei para ele.

— Se o banco aprovar uma estrutura sem exigir meu patrimônio, não tenho objeção. O que não farei é renovar minha garantia pessoal ou qualquer suporte baseado nos ativos que herdei da minha mãe.

Augusto soltou um riso curto, sem humor.

— Ontem você dizia que não era vingança.

— E não é.

— Então o que é?

— Limite.

A palavra pareceu irritá-lo mais do que qualquer acusação teria irritado.

— Depois de tudo o que fizemos por você?

— Você continua repetindo isso como se eu estivesse negando que fui criada pela família.

— Porque parece que esqueceu.

— Não esqueci. Só aprendi que gratidão não é uma procuração ilimitada.

O silêncio que se seguiu foi pesado.

Eu me lembrei de quantas vezes havia aceitado decisões financeiras desconfortáveis apenas porque Augusto dizia que era “pela família”. A cada vez, eu recuava um pouco. Não por incapacidade de dizer não, mas porque acreditava que manter a paz também era uma forma de retribuir.

Naquela tarde, percebi que essa lógica tinha chegado ao fim.

Um dos diretores passou para o ponto seguinte.

— O banco vai querer um cronograma de substituição.

— Façam um — eu disse. — Há ativos operacionais, recebíveis e projetos que podem ser reorganizados. Talvez custe mais. Talvez exija cortes. Mas isso é responsabilidade da administração do grupo.

Augusto ficou olhando para mim durante alguns segundos.

— Você fala como se não fizesse parte disso.

Eu mantive a voz calma.

— Faço parte da família no que diz respeito à nossa história. Mas meu patrimônio não faz parte do caixa do Grupo Tavares.

Foi a primeira mudança que deixei registrada de forma inequívoca.

A segunda veio quando o diretor perguntou se eu autorizaria novos compromissos enquanto a linha atual ainda estivesse válida.

— Não — respondi. — Nenhuma ampliação de exposição. O que já existe será cumprido até o vencimento previsto. Nada além disso.

Augusto se levantou.

— Você vai se arrepender quando perceber o que está fazendo.

Eu também me levantei.

— Talvez eu me arrependesse mais se continuasse fazendo o que todos esperam de mim só porque têm medo de descobrir como é viver sem o meu respaldo.

Saí da sala sem bater a porta.

No elevador, recebi uma mensagem de um número conhecido.

Marcelo.

“Precisamos conversar. Não sobre voltar. Sobre o que está acontecendo com o projeto.”

Fiquei olhando para a tela.

Na noite anterior, ele tinha dito que sentimentos e negócios eram coisas diferentes.

Agora, pela primeira vez, parecia disposto a descobrir o quanto aquela diferença custava.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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