
PARTE 7
As semanas seguintes foram menos dramáticas do que a noite do noivado, mas muito mais importantes. Não havia salões cheios, microfones ou pessoas observando. Havia planilhas, reuniões, prazos e decisões que não podiam ser resolvidas com uma frase.
O Grupo Tavares concluiu a venda da participação que havia colocado no mercado. O valor não era suficiente para eliminar todos os problemas, mas reduziu a pressão sobre o caixa e permitiu negociar uma linha menor com o banco, desta vez sem minha garantia pessoal.
Quando Daniel me contou, senti alívio.
Não porque estivesse salvando a empresa.
Porque ela estava aprendendo a funcionar sem depender de mim.
Augusto, no entanto, não parecia disposto a admitir isso.
Ele me chamou para outra reunião.
Dessa vez, estávamos apenas nós dois.
— Conseguimos a nova estrutura — disse.
— Eu soube.
— Vai custar mais caro.
— Imagino.
— E tivemos de abrir mão de uma parte de um empreendimento.
— Eu sei.
Ele me encarou.
— Você parece satisfeita.
— Não estou.
— Então o que está sentindo?
Pensei um pouco.
— Tranquilidade.
Augusto soltou uma risada baixa.
— Tranquilidade por nos ver pagando mais?
— Tranquilidade porque finalmente ficou provado que a empresa não precisava do meu patrimônio para continuar existindo. Precisava apenas aceitar decisões que vocês vinham adiando.
Ele ficou quieto.
A diferença entre aquela conversa e as anteriores era visível.
Augusto ainda estava magoado.
Mas já não podia dizer que minha decisão destruiria a família.
A empresa havia se adaptado.
— Sua tia sente sua falta — disse ele.
— Eu tenho falado com ela.
— Não é a mesma coisa.
— Eu sei.
— Você também sente falta daqui?
Olhei em volta.
— De algumas coisas.
— De mim?
A pergunta me pegou desprevenida.
Augusto raramente falava diretamente sobre afeto.
— Sim — respondi. — Mas sentir falta não significa fingir que nada aconteceu.
Ele assentiu.
Foi pouco.
Mas foi mais do que qualquer coisa que havíamos conseguido até ali.
Enquanto isso, a família Farias enfrentava seus próprios ajustes. O projeto da Zona Leste continuava, porém em ritmo menor. Algumas unidades seriam lançadas depois do previsto, e uma expansão planejada foi suspensa.
Beatriz não me procurou durante semanas.
Quando finalmente ligou, pediu uma reunião formal.
Encontramo-nos no escritório do advogado da família Farias.
Ela chegou acompanhada de Marcelo.
— Quero resolver tudo o que ainda existe entre nossas famílias — disse.
Eu concordei.
A pauta era objetiva: encerramento das obrigações futuras, prazos de substituição de garantias e qualquer compensação referente às despesas do noivado.
— Não quero compensação sentimental — falei. — Se houver despesas que legalmente devam ser divididas ou devolvidas, resolvemos. Fora isso, cada lado segue sua vida.
Beatriz me observou atentamente.
— Você não quer nada da família Farias?
— Quero que cumpram o que assinarem.
Marcelo abaixou o olhar.
Beatriz abriu uma pasta.
— O banco aceitou substituir sua garantia dentro do prazo. Precisamos apenas concluir os registros e liberações correspondentes.
— Ótimo.
— Quando isso terminar, você ficará completamente fora do projeto.
— É exatamente o que quero.
Ela parecia ainda procurar algum sinal de provocação.
Não encontrou.
No meio da reunião, Marcelo recebeu uma ligação e saiu por alguns minutos.
Beatriz aproveitou.
— Você poderia ter evitado muita coisa se tivesse falado comigo antes da festa.
Olhei para ela.
— Sobre o quê?
— Sobre retirar as garantias.
— Eu não sabia que seu filho cancelaria o noivado diante de todos até ele fazer isso.
— Mas você já tinha preparado os documentos.
— Eu tinha preparado uma saída para uma hipótese que sabia ser possível.
Ela franziu a testa.
— Então desconfiava dele.
— Eu sabia que havia dúvidas suficientes para não continuar deixando tudo sem proteção.
Aquilo era o máximo que eu poderia dizer sem inventar certezas que nunca tivera.
Beatriz se recostou.
— Marcelo sempre foi impulsivo.
— Naquela noite, ele me garantiu três vezes que não era impulso.
Ela não respondeu.
Quando Marcelo voltou, retomamos a reunião.
Ao final, estabelecemos um calendário para a substituição definitiva das garantias.
Essa foi uma mudança concreta.
Não era mais uma ameaça, possibilidade ou discussão.
Minha saída estava formalmente em andamento.
Na mesma semana, os Nogueira anunciaram internamente que desistiriam de uma parte da aquisição internacional e manteriam apenas os ativos considerados essenciais.
Camila me mandou uma única mensagem:
“Meu pai está furioso, mas vai seguir com a operação menor.”
Respondi:
“Espero que encontrem uma estrutura que consigam sustentar.”
Ela não escreveu mais.
Eu também não.
Percebi que nem todo conflito precisava terminar em amizade ou reconciliação.
Algumas relações podiam simplesmente encontrar uma distância suportável.
No fim daquele mês, sentei-me sozinha no meu escritório depois que todos haviam ido embora.
Na mesa, havia três pastas.
Farias.
Tavares.
Nogueira.
Durante muito tempo, aqueles nomes pareciam inseparáveis da minha vida.
Agora, pela primeira vez, eram apenas três relações financeiras em processo de encerramento ou reorganização.
Fechei as pastas.
Peguei uma folha em branco.
Comecei a listar o que queria fazer com os recursos que deixariam de estar comprometidos quando as garantias fossem liberadas.
Não pensei em vingança.
Pensei em segurança, investimentos próprios e projetos que eu escolheria porque acreditava neles, não porque alguém me lembrava de uma dívida emocional.
Foi ali que entendi outra coisa.
Eu não estava apenas saindo de um noivado.
Estava aprendendo a decidir quem podia contar comigo — e em quais condições.
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