Stories · Emotions · Life

LEITURA EM PARTESParte 2 de 10

PARTE 2

— Já que vocês decidiram separar sentimentos de negócios — comecei, olhando primeiro para Beatriz e depois para Marcelo —, achei melhor fazer exatamente isso. As garantias que foram concedidas em razão da união planejada entre nossas famílias serão encerradas conforme as condições previstas nos próprios instrumentos. Nenhum contrato válido será ignorado, mas não haverá renovação, extensão ou novo suporte da minha parte.

Por alguns segundos, ninguém respondeu. Marcelo olhou para o painel, depois para mim, como se ainda tentasse entender o alcance daquela notificação. Camila soltou devagar a manga do paletó dele. Beatriz foi a primeira a recuperar a voz.

— Você preparou isso antes de vir para a festa? — perguntou. Eu mantive o microfone na mão e respondi sem alterar o tom: — Preparei a possibilidade. A decisão dependia do que acontecesse hoje. Marcelo acabou de confirmar, três vezes, que quer encerrar o noivado.

Augusto se levantou tão depressa que a cadeira raspou no chão. — Lívia, não seja infantil. Você não pode comprometer empresas inteiras porque um casamento não aconteceu. — Eu o encarei. — Eu não estou comprometendo nenhuma empresa. Estou apenas deixando de assumir riscos financeiros por famílias que acabaram de declarar publicamente que não querem mais qualquer vínculo comigo.

— O projeto da Zona Leste está no meio de uma etapa de financiamento — disse Beatriz, já sem a serenidade de alguns minutos antes. — A retirada de uma garantia pode obrigar os bancos a reverem limites. — Exatamente por isso havia cláusulas para uma eventual mudança na relação entre as partes, respondi. — Vocês terão prazo para apresentar garantias próprias ou outra estrutura de crédito. O que não terão é o meu patrimônio como obrigação automática.

Marcelo aproximou-se mais. — Você está fazendo isso para me punir. — Balancei a cabeça. — Não. Se quisesse punição, estaria tentando impedir você de ficar com Camila. Não estou fazendo isso. Você escolheu terminar. Eu apenas estou deixando de financiar as consequências da sua escolha.

Camila finalmente falou. — Eu nunca pedi dinheiro a você. — Voltei o olhar para ela. — Talvez não diretamente. Mas a operação da sua família foi sustentada por uma estrutura que usava ativos ligados ao patrimônio da minha mãe. Você pediu justiça hoje. Estou apenas devolvendo a cada família a responsabilidade pelo que é dela.

O rosto de Camila perdeu a pouca cor que ainda tinha. Marcelo segurou a mão dela novamente, mas dessa vez o gesto pareceu menos romântico e mais defensivo. Ao redor, os convidados haviam parado até de cochichar. Ninguém parecia disposto a interromper.

Augusto se aproximou da minha cadeira. — E o Grupo Tavares? Você vai fazer isso conosco também? — Eu desliguei o microfone por um instante. — A linha temporária que autorizei não será renovada quando vencer. Vocês sabiam que era um suporte excepcional. Agora terão de reorganizar o caixa sem contar comigo como solução permanente.

— Nós criamos você — ele repetiu, com o maxilar rígido. — E eu reconheço isso — respondi. — Mas gratidão não significa entregar para sempre o que minha mãe deixou para mim. Muito menos significa aceitar ser humilhada em público para preservar acordos que só beneficiam vocês.

Beatriz tentou retomar o controle. — Vamos para uma sala reservada. Isso não precisa continuar diante dos convidados. — Olhei para o salão e depois para o palco onde meu noivado acabara de ser cancelado diante de todos. — Concordo que não precisa continuar aqui. Mas não fui eu quem escolheu tornar o rompimento público.

Entreguei o microfone ao apresentador. O gerente permaneceu imóvel perto do painel, esperando instruções. — Pode retirar o documento — eu disse. — A notificação já foi feita. As comunicações formais seguirão pelos canais adequados.

Marcelo segurou meu braço antes que eu me afastasse. Não apertou, mas o gesto foi suficiente para me fazer parar. — Lívia, espere. Nós podemos conversar sem transformar tudo isso em guerra. — Tirei o braço devagar. — Conversar, podemos. Voltar atrás no que você acabou de decidir, não.

— Eu não estou pedindo para voltar atrás no noivado. — Então estamos de acordo, respondi. — Você segue com a decisão sentimental que escolheu. Eu sigo com as decisões financeiras que me pertencem.

Beatriz chamou Marcelo pelo nome, desta vez num tom que não admitia discussão. Augusto também recuou alguns passos, já pegando o celular. Pela primeira vez naquela noite, ninguém estava preocupado com a minha reação emocional; estavam tentando calcular quanto tempo tinham antes que bancos, parceiros e conselhos administrativos começassem a fazer perguntas.

Peguei minha bolsa e saí da mesa principal. Daniel já havia me enviado uma nova mensagem confirmando que o departamento jurídico iniciara as notificações previstas, respeitando os prazos de cada operação. Respondi apenas que nenhuma medida deveria ultrapassar o que estava contratualmente autorizado.

Antes de atravessar a porta do salão, olhei uma última vez para Marcelo. Ele continuava no palco ao lado de Camila, mas já não havia aplausos, discursos ou música. O noivado havia terminado como ele queria; a partir daquele instante, cada uma das três famílias teria de descobrir quanto do próprio equilíbrio dependia de algo que sempre consideraram garantido.

Obrigado por ler até aqui 🙏 A próxima parte já está na seção de comentários da página. Clique em “Ver todos os comentários” para ler a Parte 3 👇📖

DESCUBRA MAIS

Histórias mais recentes

Comece sempre pela Parte 1