
PARTE 8
Dois meses depois da festa, quase todas as medidas emergenciais já tinham sido substituídas por decisões permanentes. A família Farias reorganizara o projeto. Os Tavares haviam ajustado o caixa. Os Nogueira tinham reduzido a aquisição.
A tempestade não desaparecera.
Mas ninguém mais podia fingir que tudo dependia de eu voltar atrás.
Naquela manhã, Daniel entrou no meu escritório com o último relatório de exposição.
— Se os registros desta semana forem concluídos, a garantia principal do projeto Farias deixa de estar vinculada aos seus ativos.
Eu peguei o documento.
— E o restante?
— Pequenas obrigações administrativas. Nada que permita novas utilizações sem sua autorização.
Assinei o recebimento.
Era estranho ver tantos meses de tensão resumidos em algumas páginas.
— E os Tavares?
— A linha antiga vence em três semanas. A nova já foi aprovada pelo banco em nome do grupo.
— Sem mim.
Daniel sorriu de leve.
— Sem você.
A frase me trouxe uma paz que nenhuma vitória pública teria trazido.
Naquela tarde, Teresa veio me visitar.
Trouxe café e um bolo que eu gostava desde criança.
— Não vim pedir dinheiro — disse assim que entrou.
Eu ri pela primeira vez em muitos dias.
— É bom começar esclarecendo.
Ela colocou a sacola sobre a mesa.
— Augusto está insuportável.
— Isso não é novidade.
— Agora está insuportável e pensativo.
Servimos café.
Teresa contou que ele começara a rever algumas decisões internas da empresa. Não por generosidade repentina, mas porque a crise o obrigara a admitir que usar soluções temporárias por anos havia criado uma dependência perigosa.
— Ele não vai dizer isso para você — ela comentou.
— Não precisa.
— Precisa, sim. Só não sabe como.
Eu mexi a colher na xícara.
— Eu não quero uma confissão.
— O que você quer?
— Que a forma como as coisas funcionavam não volte.
Teresa assentiu.
— Acho que isso ele entendeu.
Na família Farias, o ajuste também cobrava seu preço.
Marcelo me procurou uma última vez antes da conclusão dos documentos.
Dessa vez, não queria falar de banco.
— Minha mãe quer que eu assine uma declaração reconhecendo que a decisão de romper o noivado foi exclusivamente minha — disse.
— Foi?
— Foi.
— Então qual é o problema?
Ele ficou alguns segundos em silêncio.
— Nenhum. Eu só achei estranho ela querer isso por escrito.
— Talvez queira evitar futuras discussões entre as famílias.
— Você pediria?
— Não.
Ele pareceu aliviado.
— Mas assinaria no seu lugar — completei.
Marcelo me olhou.
— Por quê?
— Porque você passou muito tempo dizendo que queria escolher a própria vida. Assumir por escrito que a escolha foi sua é apenas coerente.
Ele encostou-se na cadeira.
— Camila diz a mesma coisa.
Eu não comentei.
— Nós estamos tendo dificuldades — ele continuou.
— Marcelo…
— Eu sei. Não é problema seu.
Pela primeira vez, ele mesmo interrompeu a tentativa de me colocar dentro da relação dele.
— Só queria dizer que eu achava que, depois de terminar o noivado, tudo ficaria simples.
— E ficou?
Ele soltou uma risada sem humor.
— Não.
— Escolher não torna a vida simples.
— Você parece ter conseguido.
Olhei para ele.
— Eu perdi pessoas, confiança e uma ideia de futuro que carreguei por três anos. O fato de eu não ter implorado para você voltar não significa que foi simples.
Marcelo baixou os olhos.
— Eu nunca pensei nisso dessa forma.
— Eu sei.
Não havia crueldade na resposta.
Apenas verdade.
Depois que ele saiu, fiquei algum tempo lembrando da mulher que eu tinha sido na noite da festa.
Sentada à mesa principal.
Olhando para o homem com quem deveria me casar entrar de mãos dadas com outra pessoa.
Naquele momento, eu acreditara que o pior seria ser rejeitada.
Agora eu entendia que o pior teria sido aceitar tudo e continuar sustentando a estrutura como se nada tivesse acontecido.
Na semana seguinte, a garantia do projeto Farias foi oficialmente substituída.
Não houve comemoração.
Apenas uma confirmação enviada pela equipe jurídica.
Eu li duas vezes.
Depois arquivei.
A primeira das três grandes ligações financeiras estava encerrada.
Poucos dias depois, os Nogueira também concluíram a reestruturação da aquisição em escala menor. O banco aprovou a operação com os ativos da própria família e de um parceiro comercial que entrou no negócio em condições comuns de mercado.
Camila não me procurou.
Não precisava.
Ela havia dito que não queria mais que o relacionamento com Marcelo fosse sustentado por ajuda das famílias.
Agora teria de viver essa decisão.
E eu também.
No fim do mês, Augusto marcou um almoço.
Não em casa.
Não na sede do grupo.
Escolheu um restaurante simples onde costumávamos ir quando eu era adolescente.
Quando cheguei, ele já estava sentado.
— A linha antiga foi encerrada hoje — disse.
— Eu sei.
— A nova custa mais.
Sorri.
— Você já me falou.
Ele também sorriu, apesar de contrariado.
Depois ficou sério.
— Mas é nossa.
Eu senti a garganta apertar.
A palavra importava.
Não porque significasse que tudo estava resolvido.
Mas porque, pela primeira vez, Augusto falava da independência financeira da empresa como algo positivo.
— É — respondi. — É de vocês.
Ele ficou olhando para mim.
— Talvez eu tenha colocado coisas demais nas suas costas.
Não era um pedido de desculpas completo.
Mas era o começo de uma responsabilidade que antes ele não aceitava.
— Colocou — falei.
Augusto assentiu.
Nenhum de nós tentou suavizar.
Saí daquele almoço sabendo que nossa relação não voltaria a ser como antes.
E, pela primeira vez, isso não me pareceu uma perda.
Pareceu espaço.
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