
PARTE 4
Aceitei encontrar Marcelo dois dias depois, em uma sala de reuniões neutra no escritório do Grupo Valença. Não queria conversar na casa dos Farias, muito menos em algum restaurante onde qualquer gesto pudesse virar assunto. Pedi que Daniel permanecesse disponível, mas não dentro da sala.
Marcelo chegou sozinho.
Ele parecia cansado. Não abatido, não destruído, apenas diferente do homem seguro que havia subido ao palco segurando a mão de Camila. Sentou-se diante de mim e colocou uma pasta sobre a mesa.
— Minha mãe queria vir.
— E por que não veio?
— Porque eu disse que fui eu quem cancelou o noivado. Eu deveria falar com você primeiro.
Pela primeira vez desde a festa, ele assumia uma consequência sem colocar outra pessoa na frente.
Esperei.
Marcelo abriu a pasta.
— O banco pediu uma garantia substituta para a próxima liberação do projeto. Nós conseguimos manter a fase atual, mas a seguinte ficou condicionada.
— Era previsível.
— Para você, talvez.
— Para qualquer pessoa que conhecesse a estrutura, Marcelo.
Ele passou a mão pelo rosto.
— Eu sabia que o Grupo Valença tinha participação na operação. Não sabia que a renovação estava ligada diretamente ao nosso casamento.
— Não era ao casamento em si. Era à aliança entre as famílias e ao nível de risco que eu estava disposta a assumir enquanto ela existisse.
— Dá na mesma.
— Não. Casamento é uma decisão pessoal. Garantia financeira é uma decisão patrimonial. Você pode terminar uma relação sem pedir minha autorização. E eu posso deixar de assumir risco sem pedir a sua.
Ele ficou em silêncio.
A frase parecia simples, mas foi preciso dizê-la para que a conversa finalmente saísse do terreno emocional.
— Lívia, eu não quero voltar atrás no que disse sobre Camila.
— Eu não pedi isso.
— Eu sei.
Marcelo olhou pela janela.
— Mas eu também não achei que você fosse retirar tudo imediatamente.
— Eu não retirei tudo imediatamente. Existem prazos. Seu projeto não foi fechado. Nenhum banco congelou contas. Vocês só não têm mais a promessa de que eu vou continuar garantindo a próxima etapa.
— Para você isso parece pequeno?
— Não. Parece sério. Por isso mesmo vocês deveriam ter planejado uma alternativa antes de anunciar publicamente que a relação que sustentava parte dessa confiança não existia mais.
Ele respirou fundo.
— Então você queria que eu ficasse noivo de você por causa do projeto?
A pergunta me fez encará-lo por alguns segundos.
— Não. Eu queria que você não esperasse liberdade sentimental de um lado e dependência financeira do outro.
Marcelo desviou os olhos.
Naquela resposta havia algo que ele não conseguia rebater.
— Camila está sendo atacada pela minha família — disse ele depois. — Minha mãe não fala diretamente, mas todo mundo passou a tratá-la como se fosse responsável pela crise.
— E você vai permitir?
Ele me olhou, surpreso.
— O quê?
— Você subiu naquele palco dizendo que não queria mais machucá-la. Se essa foi a sua escolha, sustente a escolha. Não transfira para mim a responsabilidade pelo que sua família faz com ela.
O rosto dele endureceu.
— Você fala como se não tivesse nada a ver com o que está acontecendo.
— Eu tenho a ver com a retirada das minhas garantias. Não tenho a ver com a forma como a família Farias trata a mulher que você escolheu.
Marcelo ficou calado.
Outra mudança aconteceu ali.
Até então, ele tentava transformar todas as consequências em uma única questão: a minha reação. Naquela sala, ele começou a perceber que existiam decisões que só ele poderia assumir.
— O que você quer para manter pelo menos parte da garantia? — perguntou.
— Nada.
— Todo mundo quer alguma coisa.
— Eu quero sair desse acordo.
— Dinheiro?
— Não.
— Participação no projeto?
— Não.
— Alguma compensação?
— Marcelo, foi sua mãe quem falou em compensação na festa. Eu nunca pedi.
Ele fechou a pasta.
— Então não há negociação.
— Há negociação sobre prazos, documentos e transição, desde que respeitem o que já foi contratado. Não há negociação sobre me obrigar a continuar financiando uma relação que terminou.
Ele se levantou devagar.
Antes de sair, parou perto da porta.
— Você sabia que isso aconteceria se eu cancelasse o noivado.
— Eu sabia que poderia acontecer.
— E mesmo assim não me avisou.
— Você também sabia que pretendia cancelar o noivado. E não me avisou.
Ele não respondeu.
Depois que a porta se fechou, Daniel entrou.
— Como foi?
— Pela primeira vez, ele ouviu mais do que falou.
Daniel assentiu e colocou alguns documentos sobre a mesa.
Não eram provas secretas nem surpresas. Eram apenas os relatórios que eu havia solicitado sobre as exposições que já conhecia: Farias, Tavares e Nogueira.
Eu precisava saber exatamente até onde iam minhas responsabilidades antes de sair delas.
Passei as horas seguintes lendo.
A estrutura da família Farias era a mais visível: o projeto da Zona Leste dependia de financiamento por etapas. Sem uma garantia equivalente, as próximas liberações teriam custo maior ou exigiriam redução do ritmo.
O Grupo Tavares enfrentava um problema diferente. Tinha ativos, contratos e receitas, mas usara a linha temporária como uma ponte confortável demais. Sem renovação, teria de vender participações menores, cortar despesas e negociar prazos.
Os Nogueira estavam no meio de uma aquisição que ainda poderia acontecer, mas não na dimensão que haviam planejado. A operação precisaria ser redimensionada.
Nenhuma família iria desaparecer.
Nenhum império cairia de um dia para o outro.
Mas todas perderiam o privilégio de planejar o futuro presumindo que eu sempre estaria ali.
No fim da tarde, Daniel perguntou:
— Tem certeza de que quer manter tudo?
Fechei a pasta.
— Tenho.
— Mesmo que sua família pressione?
— Principalmente por isso.
Na saída do escritório, meu celular tocou.
Era Augusto.
Desta vez, quando atendi, ele não começou falando de bancos.
— Sua tia quer que você venha jantar domingo — disse.
A palavra “família” não foi mencionada.
Mas estava presente em cada segundo da ligação.
Eu aceitei.
Não porque pretendesse ceder.
Aceitei porque havia uma conversa que eu adiara por anos, e agora não queria mais adiar.
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