
Parte 9
Montar a nova turma me ocupou durante as semanas que antecederam a conclusão do divórcio. Pela primeira vez em muito tempo, eu tinha um projeto que existia completamente fora da história com Rafael.
Chamei a turma de “Primeiro Passo”.
Nada sofisticado.
A ideia era simples: receber mulheres que sempre quiseram dançar, mas achavam que estavam velhas, fora de forma ou sem coordenação.
Na primeira aula, doze apareceram.
Uma delas ficou perto da porta.
— Acho que vim parar no lugar errado — disse.
— Você queria aprender?
— Queria.
— Então é aqui.
Ela riu nervosa.
Eu reconheci aquele tipo de medo.
Não o medo de errar um passo.
O medo de ocupar um espaço onde você acredita que não pertence.
— Ninguém aqui precisa impressionar ninguém — falei para a turma. — Só precisa dar o próximo passo.
Enquanto dizia aquilo, percebi que estava falando comigo também.
A vida não tinha virado uma história perfeita.
Eu ainda fazia contas no fim do mês.
Ainda acordava algumas noites lembrando da sala do clube.
Ainda sentia raiva quando recordava a facilidade com que Rafael usava meu passado para me diminuir.
Mas aquelas lembranças já não comandavam minhas decisões.
A data da última audiência chegou numa terça-feira chuvosa.
Eu fui de metrô.
Rafael apareceu de carro.
Encontramo-nos no corredor.
Marina não estava com ele.
Ninguém precisava estar.
Aquela era uma conversa entre as duas pessoas que haviam se casado e agora encerravam legalmente aquela relação.
Antes de entrarmos, Rafael pediu:
— Cinco minutos.
Olhei para minha advogada.
Ela fez um gesto discreto indicando que ficaria por perto.
Fomos até uma área lateral do corredor.
— Não vou tentar fazer você mudar de ideia — ele começou.
— Certo.
— Só quero dizer algumas coisas antes de acabar.
Esperei.
— Eu ainda acho difícil entender como você conseguiu sair daquela noite e nunca voltar.
— Não foi naquela noite que comecei a ir embora.
Ele assentiu.
— Eu sei disso agora.
A chuva batia nas janelas.
Rafael passou a mão pelo bolso, mas não tirou nada.
— Durante anos, eu pensei que ter ajudado você quando nos conhecemos era a melhor coisa que eu tinha feito na vida.
— Talvez tenha sido uma coisa boa.
Ele pareceu surpreso.
— Você não precisa transformar tudo em mentira só porque terminou mal.
A expressão dele mudou.
— Eu fui grata.
— Eu sei.
— O problema foi você transformar essa gratidão numa dívida.
Rafael respirou fundo.
— Eu achava que você nunca esqueceria o que eu fiz por você.
— Eu nunca esqueci.
Olhei diretamente para ele.
— Só aprendi que lembrar não significa aceitar qualquer coisa para sempre.
Ele abaixou a cabeça.
— Marina perguntou se eu faria com ela o mesmo que fiz com você.
Não respondi.
— Eu disse que não.
— Espero que seja verdade.
— Você acredita?
Pensei antes de falar.
— Acredito que você pode escolher não repetir.
Ele levantou os olhos.
— Mas isso já não é responsabilidade minha.
A frase marcou a distância exata entre nós.
Eu não precisava acreditar na mudança dele.
Não precisava duvidar.
Não precisava acompanhar.
A vida de Rafael havia deixado de ser um projeto meu.
— Tem mais uma coisa — disse ele.
— Fala.
— Naquela noite, quando você colocou a aliança sobre o papel, eu achei que era provocação.
— Eu sei.
— Depois achei que você voltaria quando o dinheiro apertasse.
Não senti ofensa.
Aquela previsão já tinha perdido força.
— E agora?
— Agora eu sei que não vai voltar.
Assenti.
— Não vou.
A porta da sala se abriu.
Chamaram nossos nomes.
Entramos.
A conclusão foi muito menos dramática do que o casamento havia sido.
Algumas perguntas.
Confirmações.
Documentos.
Manifestação dos advogados.
A vontade de ambos de se divorciar estava clara.
A partilha havia sido ajustada.
Não havia razão para transformar o procedimento numa batalha maior.
Quando me perguntaram se eu mantinha minha decisão, respondi:
— Sim.
Rafael também.
A partir dali, restavam atos formais para a finalização.
Saímos lado a lado, mas não juntos.
Na escadaria, ele parou.
— Helena.
Virei.
— Eu sinto muito.
A frase era simples.
Não havia explicação depois.
Nenhum “mas”.
Nenhum pedido para eu compreender Marina.
Nenhuma lembrança de Foz do Iguaçu.
Nenhuma cobrança pela ajuda que me dera anos antes.
Apenas aquilo.
Eu poderia ter esperado seis anos por essas três palavras.
Naquele momento, percebi que não precisava mais delas.
Ainda assim, respondi:
— Eu ouvi.
Rafael pareceu esperar perdão.
Eu não ofereci.
Também não neguei.
— Espero que você faça diferente daqui para frente.
— E você?
— Eu já estou fazendo.
Desci os degraus.
Naquela noite, dei aula.
Não cancelei.
Não fiz celebração.
Quando a música começou, contei os tempos e conduzi a turma.
Um, dois, três.
Quatro, cinco, seis.
No fim, uma das alunas do “Primeiro Passo” ficou para conversar.
— Professora, você sempre teve essa segurança?
Quase ri.
— Não.
— Parece.
Peguei minha garrafa de água.
— Segurança não é uma coisa que você ganha inteira.
Pensei na mulher que, meses antes, tinha bebido copos de álcool diante de uma sala cheia de homens para recuperar o próprio passaporte.
— Às vezes você só faz uma escolha pequena e depois outra.
A aluna sorriu.
— Tipo aprender a dançar?
— Exatamente.
Quando cheguei em casa, havia uma mensagem da minha advogada.
A etapa final tinha sido encaminhada.
Era questão de concluir o registro.
Coloquei o celular sobre a mesa.
Abri a gaveta onde guardava meus documentos.
Meu passaporte estava ali.
Passei o polegar sobre a capa.
Por meses, eu associara aquele objeto àquela noite.
De repente, tive outra ideia.
Pesquisei passagens.
Não para fugir.
Não para desaparecer.
Não para provar nada a Rafael.
Eu sempre quis conhecer Buenos Aires e nunca tinha ido porque todos os nossos planos de viagem dependiam da escala de trabalho dele.
Encontrei uma passagem para dali a dois meses.
Olhei meu calendário de aulas.
Dava para organizar.
O valor cabia no orçamento se eu economizasse.
Fiquei alguns minutos com a tela aberta.
Antigamente, eu teria perguntado a Rafael.
Se ele podia.
Se ele queria.
Se aquela semana servia.
Se achava o gasto razoável.
Agora fiz contas.
Conferi meu saldo.
Pensei nas minhas responsabilidades.
E comprei.
O e-mail de confirmação chegou poucos segundos depois.
Sorri.
Não era a viagem que importava.
Era o gesto.
Naquela noite no clube, eu queria meu passaporte porque Rafael não tinha o direito de ficar com ele.
Agora eu finalmente sabia para que queria usá-lo.
Não para escapar de uma vida.
Mas para escolher a minha.
Na manhã seguinte, minha advogada ligou.
— Helena, saiu a confirmação final.
Parei no meio da cozinha.
— O divórcio?
— Sim.
Olhei para a janela.
O céu estava claro.
— Então terminou.
— Terminou.
Agradeci e desliguei.
Fiquei parada por alguns segundos.
Depois peguei minha bolsa.
Eu tinha uma aula em quarenta minutos.
E, pela primeira vez em seis anos, sair de casa não significava deixar Rafael para trás.
Significava simplesmente seguir em frente.
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