
Parte 8
A proximidade do fim trouxe uma calma que eu não esperava. Os documentos estavam praticamente definidos, as diferenças patrimoniais haviam sido reduzidas a questões técnicas e Rafael deixara de insistir no acordo assinado no clube. Não havia mais um grande obstáculo jurídico entre nós.
O obstáculo restante era emocional.
E esse não podia ser resolvido por advogado nenhum.
Poucos dias antes da assinatura definitiva do acordo de partilha, recebi uma caixa enviada por Rafael.
Não era presente.
Dentro estavam alguns objetos meus que haviam permanecido no apartamento funcional: fotografias antigas, dois livros, uma caixa de madeira e o xale que eu deixara no clube.
Fiquei olhando para ele por muito tempo.
O tecido estava limpo.
Dobrado com cuidado.
Segurei uma ponta entre os dedos.
Não senti a mesma coisa que sentira naquela noite.
O objeto não tinha culpa.
Ainda assim, eu sabia que nunca mais o usaria.
Coloquei-o de volta na caixa.
Não joguei fora.
Também não guardei como lembrança romântica.
Apenas deixei para decidir depois.
No fundo da caixa havia um bilhete.
Duas linhas.
“Não estou pedindo que volte. Só achei que isso era seu.”
Nada mais.
Eu poderia ter procurado algum significado escondido.
Não procurei.
Respondi apenas:
“Recebi. Obrigada.”
Aquele pequeno intercâmbio mostrou o quanto a relação tinha mudado.
Meses antes, qualquer objeto teria virado pretexto para uma discussão.
Agora havia distância suficiente para uma caixa ser apenas uma caixa.
No estúdio, a turma noturna lotou.
A proprietária me chamou para conversar.
— Quero colocar seu nome na grade fixa do próximo semestre.
— Como professora?
— Como professora e responsável por duas turmas.
Sentei diante dela.
— Quero entender como ficaria o pagamento.
Ela sorriu.
— Sabia que você ia perguntar isso.
Abrimos os números.
Dessa vez, eu não senti vergonha de falar de dinheiro.
Negociei.
Perguntei.
Fiz contas.
Aceitei depois de compreender tudo.
Quando saí daquela sala, lembrei de Rafael dizendo que eu não sobreviveria sem ele.
Eu ainda não tinha uma vida confortável.
Não tinha reserva grande.
Não tinha segurança absoluta.
Mas tinha algo que ele nunca considerara: capacidade de aprender.
A gravidez de Marina já estava avançada, e isso também aumentava a pressão sobre Rafael para encerrar oficialmente o casamento.
Minha advogada me informou que o lado dele queria marcar a formalização para a primeira data possível.
— Para mim está bem — respondi.
— Você quer alterar mais alguma coisa?
Li o acordo novamente.
— Não.
— Tem certeza?
— Tenho.
Eu sabia o que estava recebendo.
Sabia o que estava deixando.
E, principalmente, sabia por quê.
Na semana seguinte, Rafael pediu para falar comigo no corredor depois de uma reunião.
Dessa vez, não recusai.
Havia gente por perto.
— Marina voltou para casa — disse ele.
— Espero que esteja tudo bem.
— Está.
Ele olhou para o chão.
— Eu contei a ela como as coisas realmente estavam quando começamos.
Aquilo me surpreendeu.
— Por quê?
— Porque ela me perguntou diretamente.
— E?
— Eu disse que nós ainda estávamos casados de verdade. Que não havia separação acertada.
Assenti.
Não senti satisfação.
Marina tinha tomado decisões com base no que Rafael lhe contara, mas também tinha entrado numa relação com um homem casado. A responsabilidade dela existia. Ainda assim, eu não precisava ampliar essa responsabilidade para diminuir a dele.
— Foi a coisa certa — respondi.
Rafael soltou uma risada amarga.
— Ela não achou.
— Imagino.
— Disse que se eu menti sobre você, podia estar mentindo sobre outras coisas.
— Isso é entre vocês.
— Eu sei.
Pela primeira vez, ele parecia dizer aquilo de verdade.
— Helena, eu fiz você acreditar que tudo que tinha vinha de mim.
Não respondi.
— Acho que eu precisava acreditar nisso também.
Ergui os olhos.
Rafael continuou:
— Era mais fácil pensar que você ficava porque precisava do que perguntar se ainda queria ficar.
Aquilo era provavelmente o mais perto que ele chegaria de reconhecer a raiz do que tinha feito.
— E agora você sabe.
Ele assentiu.
— Agora eu sei.
Não houve abraço.
Não houve perdão dramático.
Algumas coisas não precisam terminar com reconciliação para terminar com verdade.
Naquela noite, finalmente decidi o que fazer com o xale.
Levei-o a uma pequena loja de roupas usadas que aceitava peças em bom estado para revenda e doação.
A atendente examinou o tecido.
— É bonito.
— É.
— Tem certeza de que quer deixar?
Passei os dedos pela borda uma última vez.
— Tenho.
Saí sem ele.
Não porque quisesse apagar aquela noite.
Eu já não precisava carregar um objeto para lembrar por que tinha ido embora.
Dois dias depois, a formalização do acordo foi marcada.
Eu e Rafael compareceríamos para concluir o que fosse necessário antes da decisão final do divórcio.
Minha advogada revisou tudo comigo.
— Depois disso, restará pouco.
— Quanto tempo?
— Depende do andamento, mas a parte mais difícil está resolvida.
A parte mais difícil.
Pensei na frase.
Do ponto de vista jurídico, talvez fosse verdade.
Do ponto de vista pessoal, a parte mais difícil tinha acontecido antes mesmo de eu procurar uma advogada.
Tinha sido aceitar que amor não corrigia automaticamente desprezo.
Que gratidão não era submissão.
Que alguém ter ajudado você num momento ruim não comprava o direito de humilhar você depois.
Na manhã marcada, cheguei cedo.
Rafael apareceu alguns minutos depois.
Sentou do outro lado da sala.
Não falamos.
Quando fomos chamados, os documentos foram lidos.
Valores confirmados.
Responsabilidades esclarecidas.
Perguntaram se estávamos de acordo.
— Sim — respondi.
Rafael também.
Assinamos.
Dessa vez, minha mão não tremeu.
Quando saímos, ele parou ao meu lado na calçada.
— Então acabou?
— A parte do acordo, sim. Falta a conclusão formal.
— Você está aliviada?
Pensei.
— Estou.
Ele assentiu lentamente.
— Eu não.
Eu poderia ter consolado.
Não fiz.
— Você vai ficar bem — disse apenas.
Ele soltou o ar.
— Você costumava dizer isso quando eu saía para missão.
— Eu lembro.
— E agora?
Olhei para ele.
— Agora você precisa aprender a dizer isso para si mesmo.
Atravessei a rua.
Meu celular tocou antes que eu chegasse ao outro lado.
Era a proprietária do estúdio.
— Helena, surgiu uma oportunidade.
— Qual?
— Estamos pensando em abrir uma pequena turma aos sábados para mulheres que nunca dançaram e têm vergonha de começar. Quero que você monte o programa.
Sorri.
— Posso pensar?
— Claro.
Olhei para trás.
Rafael ainda estava parado do outro lado da avenida.
Então voltei os olhos para frente.
— Na verdade, não preciso.
Segurei o celular com mais firmeza.
— Eu aceito.
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