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LEITURA EM PARTESParte 3 de 10

Parte 3

Eu não tinha planejado terminar aquela noite num hotel barato perto da Avenida Paulista, mas também não tinha intenção de voltar ao apartamento funcional onde Rafael acreditava que eu deveria permanecer até ele decidir se queria ou não me receber de volta. Quando a recepcionista me entregou a chave, minhas mãos começaram a tremer pela primeira vez. Não de medo. O álcool finalmente cobrava seu preço, e a tensão que me mantivera em pé começava a desaparecer.

Entrei no quarto, tranquei a porta e fui direto ao banheiro. Lavei o rosto, bebi água em pequenos goles e fiquei sentada no chão por alguns minutos, esperando a náusea passar. O reflexo no espelho mostrava uma marca avermelhada no meu queixo, exatamente onde Rafael havia apertado. Passei os dedos sobre ela sem sentir vontade de chorar.

A dor maior não estava ali.

Durante anos, eu havia confundido resistência com casamento. A cada humilhação, dizia a mim mesma que suportar mais um pouco era uma forma de preservar a vida que tínhamos construído. Naquela madrugada, entendi que minha resistência só tinha ensinado Rafael a acreditar que não existia limite.

Pela manhã, procurei atendimento médico por causa da quantidade de álcool que havia ingerido. Nada grave foi constatado, mas a médica recomendou repouso e hidratação. Saí de lá com uma orientação simples e uma certeza muito menos simples: eu precisava parar de tratar minha própria segurança como algo secundário.

Também procurei orientação jurídica.

A advogada que me atendeu leu a cópia fotografada do acordo antes que eu o devolvesse a Rafael.

— Isso aqui não dissolve casamento nenhum sozinho — explicou. — E uma cláusula dizendo que você sai sem nada não significa automaticamente que você perdeu todos os direitos patrimoniais. A forma como o divórcio e a partilha serão feitos precisa ser regularizada.

Eu a encarei.

— Então eu não sou obrigada a cumprir aquilo exatamente como ele escreveu?

— Você é obrigada a agir de boa-fé. Não é obrigada a aceitar uma renúncia que não queira manter só porque assinou um papel numa situação de pressão.

Eu poderia ter sentido alívio.

Senti vergonha.

Não por ter assinado, mas por perceber como Rafael havia contado com minha ignorância. Ele não precisava de uma decisão judicial naquela noite. Precisava apenas que eu acreditasse que não tinha escolha.

— Eu não quero tirar nada que não seja meu — falei.

A advogada assentiu.

— Então não tire. Mas também não abra mão do que é seu só para provar que não é interesseira.

A frase ficou comigo.

Naquela tarde, aluguei por alguns dias um quarto mobiliado num pequeno apartamento administrado por uma senhora que recebia hóspedes de longa permanência. Eu tinha pouco dinheiro disponível, mas era suficiente para começar. Ao longo do casamento, Rafael cuidara das maiores despesas, e isso alimentava a certeza dele de que eu não sobreviveria sozinha.

Eu tinha algumas economias numa conta exclusivamente minha. Não eram muitas. Eram o dinheiro de aulas particulares de dança que eu dera esporadicamente para esposas de militares e conhecidas ao longo dos últimos anos.

Rafael sempre chamara aquilo de passatempo.

Naquela semana, o passatempo pagou meu teto.

No segundo dia, uma antiga aluna me indicou para substituir uma professora num estúdio de dança na Vila Mariana. A dona do espaço queria alguém por apenas três semanas. O pagamento não era grande, mas eu aceitei antes mesmo de perguntar quantas turmas seriam.

Entrei no estúdio naquela tarde usando uma calça simples e uma camiseta emprestada pela proprietária.

Quando a música começou, meu corpo respondeu antes que minha cabeça tivesse tempo de duvidar.

Eu conhecia aquilo.

Conhecia o ritmo, o peso do próprio corpo, o momento exato em que alguém precisa confiar no movimento em vez de tentar controlá-lo.

No fim da primeira aula, três alunas ficaram para perguntar se eu daria a turma seguinte.

Sorri.

— Se vocês quiserem, sim.

Foi a primeira vez em muitos dias que meu sorriso não precisou ser ensaiado.

Rafael ligou naquela noite.

Não atendi.

Ligou novamente.

Depois uma terceira vez.

Na quarta, bloqueei o número por algumas horas e continuei preparando a aula do dia seguinte.

Eu não queria transformar aquilo numa guerra de silêncio. Só não estava pronta para ouvir outro discurso sobre tudo o que eu devia a ele.

No terceiro dia, recebi uma ligação do setor administrativo ligado ao conjunto residencial militar. Rafael havia informado que, diante da separação, seria necessário organizar a retirada de meus objetos pessoais.

— Não tenho móveis para retirar — respondi.

— Roupas, documentos, objetos pessoais?

Pensei por alguns segundos.

Minhas roupas estavam lá. Fotografias. Alguns livros. Uma caixa com documentos antigos da minha família.

Eu tinha dito que não levaria nem uma agulha da casa.

Mas aqueles objetos não pertenciam à casa.

Pertenciam a mim.

— Vou buscar apenas minhas coisas pessoais.

Quando cheguei, Rafael estava esperando.

Ele usava uniforme e mantinha os braços cruzados.

— Finalmente resolveu voltar.

— Vim buscar minhas coisas.

A expressão dele mudou.

— Eu disse que você não levaria nada.

— E eu não vou levar nada que seja seu ou que pertença à residência. Só roupas, documentos e objetos pessoais anteriores ao casamento.

Havia um servidor responsável acompanhando a retirada, exatamente para evitar discussão sobre patrimônio. Rafael não podia simplesmente me impedir sem transformar uma questão privada em um problema formal diante de terceiros.

Ele percebeu isso.

E odiou.

Entramos.

Meu antigo quarto parecia igual.

A cama arrumada.

Meus livros na estante.

O perfume sobre a cômoda.

Era estranho descobrir que um lugar podia permanecer intacto enquanto a vida que existia dentro dele acabava.

Peguei duas malas.

Rafael me seguiu pelo corredor.

— Você está mesmo fazendo isso?

Continuei dobrando minhas roupas.

— Estou.

— Por causa de uma noite?

Parei.

Virei-me.

— Não foi uma noite.

Ele abriu a boca, mas não respondi imediatamente.

— Foram seis anos ouvindo você usar meu passado para justificar cada coisa que fazia comigo. Ontem foi só a primeira vez que eu parei de fingir que isso ainda tinha conserto.

Por um instante, Rafael não pareceu furioso.

Pareceu confuso.

Talvez porque aquela explicação não combinasse com a história que contava a si mesmo — a história em que eu era dependente, ingrata e incapaz de partir.

Fechei a primeira mala.

Na segunda, coloquei apenas o que cabia.

Antes de sair, vi o xale dobrado sobre uma cadeira da sala.

Alguém o havia trazido do clube.

Rafael acompanhou meu olhar.

— Pode levar.

Balancei a cabeça.

— Não quero.

— É seu.

— Era.

Ele franziu a testa.

Peguei a mala.

— Algumas coisas ficam caras demais depois que a gente descobre o preço.

Passei por ele.

Na porta, Rafael segurou meu braço, mas soltou imediatamente quando o servidor olhou em nossa direção.

— Onde você está morando?

— Isso não diz mais respeito a você.

— Eu sou seu marido.

— Até o divórcio ser formalizado, juridicamente, sim.

Sustentei seu olhar.

— Mas marido não é dono.

Saí sem pressa.

Naquela noite, a advogada me enviou a minuta do pedido para iniciar formalmente o divórcio e discutir a partilha de forma regular.

Li cada página.

Dessa vez, não assinei em segundos.

Li de novo.

Perguntei o que não entendi.

Corrigi o endereço.

Respirei.

E então coloquei meu nome.

A diferença parecia pequena.

Mas não era.

Na primeira assinatura, Rafael havia colocado um papel diante de mim e decidido quais seriam as regras.

Na segunda, fui eu quem escolheu o que estava fazendo.

E, quando devolvi o documento à advogada, escrevi apenas uma frase:

— Pode protocolar.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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