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LEITURA EM PARTESParte 5 de 10

Parte 5

O primeiro mês depois que saí de casa foi o mais cansativo da minha vida adulta. Eu dava aulas pela manhã, resolvia questões do divórcio à tarde e passava as noites tentando transformar um quarto alugado em alguma coisa parecida com lar. Não havia espaço para grandes discursos sobre recomeço. Recomeçar era lavar a própria roupa tarde da noite porque no dia seguinte eu precisava usar a mesma calça.

Também era aprender a fazer contas.

Aluguel.

Transporte.

Comida.

Honorários jurídicos.

Uma reserva mínima para emergências.

Rafael havia passado anos dizendo que eu não entendia nada do mundo real. Descobri que entendia menos do que gostaria, mas muito mais do que ele imaginava.

O estúdio me ofereceu mais turmas.

Aceitei todas que consegui encaixar sem me esgotar.

Algumas alunas começaram a pedir aulas particulares, e a proprietária propôs que eu ficasse de maneira permanente.

— Não posso te prometer um salário enorme — disse ela. — Mas você tem presença. As pessoas voltam.

Presença.

Achei curioso.

No casamento, eu tinha passado tanto tempo tentando ocupar menos espaço que ouvir alguém dizer aquilo parecia estranho.

Assinei um contrato de prestação de serviços simples e saí dali com uma cópia dentro da bolsa.

Não era uma fortuna.

Não era uma salvação.

Era trabalho.

E justamente por isso significava muito.

Enquanto minha rotina começava a se organizar, Rafael parecia cada vez menos disposto a aceitar que a separação continuaria.

Ele mandava recados pela advogada.

Depois parava.

Tentava propor um acordo.

Retirava.

Pedia uma reunião.

Desmarcava.

Não era indecisão sobre o divórcio, percebi.

Era dificuldade em aceitar que já não podia me convocar e esperar que eu aparecesse.

A primeira reunião formal de conciliação deixou isso evidente.

Entramos numa sala pequena, cada um acompanhado por sua advogada.

Rafael evitou me olhar enquanto as questões patrimoniais eram apresentadas.

Não tínhamos uma fortuna.

Havia economias, um carro adquirido durante o casamento e alguns investimentos formados ao longo dos anos. O imóvel onde morávamos era funcional e não entrava na partilha.

Quando minha advogada explicou isso, Rafael interrompeu:

— Ela disse que sairia sem nada.

— Eu disse que não levaria nada da casa — respondi.

— Você assinou.

A mediadora o interrompeu.

— O documento será analisado dentro do contexto adequado. Nosso objetivo aqui é verificar se existe possibilidade de acordo.

Rafael apertou a mandíbula.

— Para mim existe. Ela abre mão e acaba hoje.

Eu quase ri.

Até naquele momento, ele não negociava.

Dava ordens.

— Não aceito — falei.

Ele finalmente olhou para mim.

— Você está fazendo isso para me punir.

— Não. Estou fazendo para encerrar o casamento sem fingir que seis anos não existiram.

— Eu sustentei você.

— E eu organizei nossa casa, acompanhei mudanças, suspendi meus próprios planos quando sua carreira exigiu e contribuí como pude. Não estou pedindo recompensa. Estou pedindo uma divisão regular do que foi construído durante o casamento.

Ele ficou vermelho.

A reunião terminou sem acordo.

Do lado de fora, Rafael veio atrás de mim.

— Você ensaiou esse discurso com a advogada?

Parei.

— Não.

— Parece outra pessoa falando.

— Talvez você nunca tenha escutado quando eu falava antes.

Ele se aproximou.

— Marina está passando mal com esse estresse.

— Então cuide dela.

— Você não sente nada?

A pergunta me atingiu de um jeito inesperado.

— Sinto.

Rafael pareceu esperar outra coisa.

— Sinto pena do bebê estar chegando no meio de tudo isso. Sinto pena de mim por ter demorado tanto para sair. E sinto vergonha de você ter transformado minha humilhação numa diversão para seus amigos.

Ele desviou o olhar.

— Mas não sinto vontade de voltar.

Fui embora.

Nas semanas seguintes, algumas consequências daquela noite começaram a chegar até Rafael sem que eu precisasse produzi-las.

Os colegas que tinham assistido à cena sabiam que o casamento estava terminando de verdade.

A história que antes parecia uma brincadeira privada deixou de ser confortável quando passou a ter nome: divórcio.

Um dos homens presentes no clube me encontrou por acaso perto de uma cafeteria.

Ele parou, visivelmente constrangido.

— Helena.

— Oi.

— Eu queria pedir desculpa.

Esperei.

— Eu ri naquela noite.

— Eu lembro.

Ele abaixou os olhos.

— Achei que era coisa de casal. Que vocês faziam esse tipo de provocação.

— Agora você sabe que não era.

— Sei.

Não precisei perdoá-lo nem humilhá-lo.

Apenas respondi:

— Da próxima vez que uma pessoa estiver sendo diminuída na sua frente, talvez não espere descobrir depois se era sério.

Ele assentiu.

Seguimos em direções opostas.

Quando contei o encontro para minha advogada, ela perguntou se eu queria tentar obter uma declaração sobre a retenção do passaporte.

Pensei por algum tempo.

— Só se for necessário.

— Pode ser relevante para contextualizar a assinatura do acordo.

— Então use apenas o necessário.

Eu não queria transformar cada homem naquela sala em personagem principal da minha vida.

O ponto era Rafael.

E, principalmente, eu.

Pouco depois, ele apresentou uma nova proposta.

Dessa vez, aceitava dividir o carro e parte das economias, mas ainda tentava excluir alguns investimentos que haviam sido constituídos durante o casamento.

Minha advogada colocou os números diante de mim.

— Está melhor.

— Mas não está completo.

— Não.

— Então recusamos.

Ela sorriu de leve.

— Você está aprendendo rápido.

— Estou aprendendo a ler antes de assinar.

No estúdio, as turmas cresceram.

Uma noite, depois da última aula, fiquei sozinha diante do espelho.

Lembrei de Rafael mandando que eu ensinasse Marina a dançar.

Naquela ocasião, ele usara algo que eu sabia fazer para me rebaixar.

Agora aquele mesmo conhecimento pagava minhas contas.

Não havia justiça poética nisso.

Havia apenas uma diferença simples: quando a escolha era minha, a mesma habilidade deixava de ser vergonha e voltava a ser trabalho.

Meu celular tocou.

Era um número que eu ainda reconhecia de memória.

Rafael.

Eu poderia ignorar.

Atendi.

— O que foi?

A voz dele estava mais baixa do que de costume.

— Preciso falar com você sem advogados.

— Sobre quê?

— Sobre nós.

Olhei meu reflexo.

— Não existe mais “nós” para negociar.

— Helena, por favor.

A palavra me surpreendeu.

Rafael raramente dizia por favor.

— Dez minutos — ele continuou. — Em lugar público. Você escolhe.

Eu deveria ter recusado.

Mas havia algo que eu também precisava dizer olhando para ele, sem mesa de conciliação, sem uniforme, sem plateia.

— Amanhã, seis da tarde. Cafeteria em frente ao estúdio.

— Eu estarei lá.

Desliguei.

No dia seguinte, Rafael chegou antes de mim.

Não pediu bebida.

Não mexeu no celular.

Quando sentei diante dele, vi que tinha preparado alguma coisa para dizer.

Mas fui mais rápida.

— Antes de começar, quero deixar uma coisa clara.

Ele me encarou.

— Eu não vim aqui para reconsiderar o divórcio.

A expressão dele caiu.

E, pela primeira vez desde aquela noite no clube, Rafael percebeu que a conversa não seria sobre como me convencer a voltar.

Seria sobre entender por que eu nunca mais voltaria.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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