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LEITURA EM PARTESParte 7 de 10

Parte 7

A divergência sobre o último investimento levou mais algumas semanas para ser esclarecida. Não houve documento secreto, confissão inesperada ou descoberta milagrosa. Houve extratos, datas, comprovantes e uma análise simples da origem do dinheiro.

Parte havia sido formada durante o casamento.

Parte vinha de recursos anteriores de Rafael.

Quando minha advogada me explicou a diferença, assenti.

— Então quero apenas a parte comum.

— Poderíamos discutir alguns detalhes.

— Existe fundamento?

— Existe margem de interpretação.

— Mas existe certeza?

— Não.

Pensei um pouco.

— Então não quero transformar margem em guerra.

Era estranho perceber como minha relação com dinheiro também estava mudando.

No clube, Rafael havia usado a ideia de que eu sairia sem nada como uma forma de me lembrar de que dependia dele.

Agora eu não queria o extremo contrário.

Não precisava arrancar dele tudo o que fosse possível.

Precisava apenas não aceitar menos do que era justo por medo de parecer interesseira.

A proposta final de partilha começou a tomar forma.

O carro seria vendido e o valor dividido.

As economias comuns seriam separadas.

O investimento teria a parte correspondente ao período do casamento calculada.

Cada um ficaria responsável por seus próprios bens pessoais e dívidas individuais.

Quando li a minuta, senti uma coisa que não esperava.

Cansaço.

Não vitória.

Não vingança.

Cansaço.

Eu queria que aquela etapa terminasse.

Rafael, porém, ainda parecia lutar contra uma coisa diferente da partilha.

Ele queria preservar a ideia de que, em algum momento, eu reconheceria que tinha ido longe demais.

Isso ficou claro quando pediu outra conversa.

Dessa vez, recusei.

— Tudo que for relacionado ao divórcio pode passar pelos advogados.

Ele insistiu.

— Não é sobre dinheiro.

— Então não há nada para resolver.

— É sobre a nossa história.

Fiquei alguns segundos olhando a mensagem.

Depois respondi:

— Nossa história não precisa de mais negociação.

Não bloqueei.

Também não continuei.

No dia seguinte, ele apareceu no estacionamento do estúdio.

Senti irritação antes mesmo de medo.

— Rafael, eu disse que não queria conversar.

— Eu sei.

— Então por que está aqui?

— Porque você responde tudo como se eu fosse um estranho.

— Estamos nos divorciando.

— Isso não apaga seis anos.

— Não. Mas muda o que você pode exigir de mim hoje.

Ele passou as duas mãos pelo rosto.

Parecia cansado.

— Marina foi para a casa da mãe por alguns dias.

Não respondi.

— Nós discutimos.

Continuei em silêncio.

— Ela diz que eu ainda estou preso a você.

— Isso é um problema de vocês.

— Você não sente nada ouvindo isso?

— Sinto que você está tentando me colocar de volta numa relação que não é minha.

Ele respirou fundo.

— Eu não sei como tudo virou isso.

Foi a primeira vez que senti pena dele.

Não o tipo de pena que pede reconciliação.

A pena simples que sentimos quando alguém encara as consequências de suas próprias decisões e percebe que não existe botão para voltar.

— Virou isso aos poucos — falei. — Você só percebeu quando eu saí.

Rafael abaixou a cabeça.

— Eu pensei que você precisava de mim.

— Eu também pensei.

Ele levantou os olhos.

— Talvez essa tenha sido a única coisa em que nós dois concordamos por tempo demais.

A frase o atingiu.

Mas eu ainda não havia terminado.

— Vou pedir para minha advogada concluir o acordo nas condições que já foram discutidas.

— E depois?

— Depois o casamento acaba.

— É isso?

— É.

Rafael se aproximou um passo.

— E se eu disser que quero tentar de verdade?

Meu corpo inteiro pareceu ficar quieto.

Durante anos, eu tinha esperado ouvir alguma coisa parecida.

Agora a frase chegou tarde o suficiente para não me mover.

— Você está dizendo isso porque mudou ou porque perdeu o controle sobre o resultado?

Ele abriu a boca.

Não respondeu.

Eu não precisava pressionar.

— Eu espero que você trate Marina e seu filho melhor do que me tratou.

— Helena—

— Mas eu não vou ficar para descobrir.

Entrei no estúdio.

Naquele mesmo dia, tomei uma decisão importante.

Até então, eu tinha mantido minha vida profissional pequena porque parte de mim ainda agia como se tudo aquilo pudesse ser temporário.

Eu ainda alugava algumas coisas.

Ainda evitava comprar o necessário.

Ainda guardava parte das roupas na mala.

Era como se meu corpo tivesse saído da casa de Rafael, mas minha cabeça mantivesse uma porta aberta para uma emergência imaginária.

Fechei essa porta.

Aceitei assumir a coordenação de duas turmas fixas.

Comprei um guarda-roupa simples.

Pendurei minhas roupas.

Coloquei os livros numa estante.

Comprei uma planta para a sala.

Pequenas decisões.

Mas todas diziam a mesma coisa:

Eu não estava hospedada na minha própria vida.

Eu estava vivendo nela.

A segunda mudança aconteceu no processo.

Minha advogada perguntou se eu queria registrar formalmente, na documentação da negociação, que a assinatura do primeiro acordo ocorrera sob pressão, com meu passaporte retido.

— Isso é necessário para contestar aquele documento com mais segurança — explicou. — Não precisamos transformar isso em outra ação se você não quiser. Mas não devemos fingir que aconteceu em condições normais.

Pensei na mesa cheia de garrafas.

Nos assobios.

Na mão de Rafael apertando meu queixo.

No passaporte entre seus dedos.

— Coloque.

Ela assentiu.

— Tem certeza?

— Tenho.

Por muito tempo, eu evitei nomear o que acontecia porque achava que dar nome tornaria tudo maior.

Agora entendia o contrário.

Dar nome estabelecia limite.

Rafael recebeu a manifestação alguns dias depois.

Ligou imediatamente.

Atendi porque já sabia qual seria o assunto.

— Você está dizendo que eu coagí você.

— Estou dizendo o que aconteceu.

— Eu devolvi seu passaporte.

— Depois de me obrigar a beber para recuperá-lo.

— Você aceitou!

Fechei os olhos.

— É exatamente por isso que isso precisa ser registrado. Para deixar claro em que condições eu “aceitei”.

Ele ficou alguns segundos sem falar.

— Você quer acabar com minha carreira?

— Não.

— Então por que colocar isso no processo?

— Porque você quer usar aquele acordo como prova de que eu renunciei voluntariamente a tudo.

Silêncio.

— Você não pode ter as duas coisas, Rafael.

Minha voz permaneceu baixa.

— Não pode dizer que foi só uma brincadeira quando isso te prejudica e, ao mesmo tempo, tratar minha assinatura como uma decisão perfeitamente livre quando te favorece.

Ele respirou fundo.

— O que você quer que eu faça?

— Pare de tentar usar aquele papel.

— E se eu parar?

— Seguimos com o acordo atual.

— Sem denúncia?

— Eu não estou negociando silêncio.

Fiz uma pausa.

— Estou dizendo que meu objetivo é terminar o casamento, não destruir sua vida. O que acontecer daqui para frente depende também das suas escolhas.

Do outro lado, ouvi apenas sua respiração.

— Certo — disse finalmente.

Dois dias depois, o advogado dele informou que Rafael não insistiria mais no primeiro acordo.

Era uma mudança real.

Talvez a maior até então.

Não porque eu tivesse vencido uma disputa.

Mas porque ele finalmente havia parado de usar aquela noite como instrumento contra mim.

Na reunião seguinte, quase todos os pontos foram fechados.

Restava apenas formalizar.

Quando saí do escritório, minha advogada comentou:

— Estamos perto do fim.

Olhei para o céu de São Paulo, pesado antes da chuva.

Durante anos, a ideia de ficar sem Rafael me parecera um precipício.

Agora o fim estava próximo.

E, pela primeira vez, eu não via um vazio.

Via espaço.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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