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LEITURA EM PARTESParte 2 de 10

Parte 2

…foi a primeira coisa que tirei. Dobrei o tecido devagar e coloquei sobre o encosto da cadeira, sem encarar ninguém. Um dos homens riu, mas a risada morreu quando percebeu que eu não estava participando da brincadeira.
Bebi outra dose e tirei o casaco. Na terceira, soltei os brincos e os coloquei sobre a mesa. Rafael acompanhava cada movimento com o maxilar rígido, como se meu silêncio fosse uma provocação maior do que qualquer insulto.
— Já chega — Marina disse em voz baixa, pela primeira vez. Rafael nem virou o rosto para ela. — Eu decido quando chega.
Peguei mais um copo. O álcool queimou minha garganta, e meu estômago começou a se contrair. Ainda assim, permaneci de pé e tirei os sapatos, colocando-os lado a lado sob a cadeira.
O clima da sala mudou. Aquilo deixara de parecer divertido até para alguns dos homens que tinham feito apostas. Um deles desviou o olhar; outro fingiu prestar atenção no celular.
Rafael percebeu. Sua expressão ficou ainda pior, porque a humilhação que ele planejara para mim começava a se voltar contra ele. Eu não estava implorando, gritando ou pedindo para continuar casada.
— Helena — ele chamou. — Pode parar com esse teatro.
Eu peguei outra taça. — Meu passaporte.
— Você acha que vai mesmo embora?
— Meu passaporte, Rafael.
Ele se levantou tão depressa que a mesa balançou. — Vai para onde? Com que dinheiro? Para fazer o quê? Você não tem ninguém.
Minhas mãos estavam frias, embora meu rosto queimasse pelo álcool. — Isso deixou de ser problema seu no momento em que colocou o divórcio na minha frente.
O silêncio foi imediato. Rafael parecia ter levado um golpe. Marina se mexeu no sofá, desconfortável, e o tenente que antes ria baixou a cabeça.
Rafael tirou o passaporte do bolso interno da jaqueta. Em vez de me entregar, segurou o documento entre dois dedos. — Se eu devolver, você vai voltar para casa e parar com essa palhaçada?
Olhei para o passaporte. Depois para ele. Tirei a aliança e coloquei sobre o acordo de divórcio. — Essa é a última coisa que eu tiro por sua causa.
Ninguém riu. Rafael apertou o documento com tanta força que a capa se curvou. Finalmente o lançou sobre a mesa. Eu o peguei, coloquei os sapatos, vesti o casaco e deixei o xale onde estava.
Ele me chamou quando cheguei à porta. — Helena, se sair agora, não volte chorando depois.
Parei apenas o suficiente para responder sem me virar. — Foi exatamente isso que eu acabei de decidir: não voltar.
Do lado de fora, o ar frio da madrugada atingiu meu rosto. Andei até a avenida com as pernas ainda firmes, embora por dentro tudo parecesse girar. Pela primeira vez em seis anos, o documento mais importante que eu carregava não era o acordo assinado. Era o passaporte dentro da minha bolsa — porque ele me lembrava que Rafael já não decidia para onde eu podia ir.

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