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LEITURA EM PARTESParte 6 de 10

Parte 6

Rafael permaneceu em silêncio por alguns instantes depois que deixei claro que o divórcio não seria reconsiderado. Não havia raiva imediata em seu rosto. Havia algo mais raro nele: falta de resposta.

— Então por que veio? — perguntou.

— Porque durante seis anos você contou a história do nosso casamento como se tivesse me salvado e eu, por causa disso, tivesse uma dívida que nunca acabava.

Ele recostou-se na cadeira.

— Eu tirei você daquele lugar.

— Tirou.

— Você não tinha para onde ir.

— Eu tinha poucas opções.

— Exatamente.

— E isso não transformou você em meu dono.

A frase fez seus olhos endurecerem.

— Nunca disse que era seu dono.

— Não precisava.

A cafeteria estava cheia o suficiente para nos obrigar a falar baixo.

Talvez tenha sido melhor assim.

Eu não queria outra cena.

— Toda vez que eu discordava de você, você lembrava onde me conheceu. Toda vez que eu reclamava de alguma mulher, você dizia que meu passado não me dava moral para cobrar nada. Quando você começou a me trair, passou a dizer que eu deveria aceitar porque você tinha me dado uma vida melhor.

Rafael esfregou o polegar contra a borda do copo de água.

— Você está simplificando.

— Então complique.

Ele me olhou.

Esperei.

— Você mudou depois que casamos — disse.

— Como?

— Ficou distante.

— Quando?

— Não sei. Com o tempo.

— Isso justifica o que você fez?

— Eu não disse isso.

— Então o que está tentando dizer?

Rafael respirou fundo.

— Que não foi como você pinta. Eu não acordei um dia querendo te destruir.

Pela primeira vez, vi alguma coisa parecida com honestidade naquela conversa.

Não porque ele estivesse admitindo culpa completamente.

Mas porque finalmente estava falando sem o roteiro em que eu era a única responsável por tudo.

— Eu também não acho que você acordou querendo me destruir — respondi. — Acho que foi pior. Acho que você parou de perceber quando me destruía um pouco.

Ele abaixou os olhos.

— Marina aconteceu quando as coisas entre nós já estavam ruins.

— Entre nós ou para você?

— Para os dois.

— Você perguntou?

Rafael não respondeu.

Eu já sabia a resposta.

— Ela me admirava — disse ele depois.

A frase quase me fez rir.

Não de humor.

De clareza.

— Então era isso?

— Não reduz a isso.

— Não estou reduzindo. Estou tentando entender.

Ele apertou os lábios.

— Com você, tudo parecia cobrança.

— Eu cobrava o quê?

— Presença. Explicações. Horários.

— Fidelidade?

Ele ficou calado.

— Respeito?

Mais silêncio.

— Rafael, pedir que meu marido não me traia não é uma cobrança extraordinária.

Ele passou a mão pelos cabelos.

— Eu errei.

Foi a primeira vez que o ouvi dizer aquilo sem acrescentar imediatamente uma justificativa.

Mas ele continuou:

— Só não achei que você fosse realmente embora.

Ali estava.

Não era a traição explicada.

Era a dinâmica.

— Por quê?

Ele levou alguns segundos para responder.

— Porque você sempre ficou.

Senti alguma coisa se encaixar.

Nenhuma grande revelação.

Nenhum segredo.

Apenas a confirmação de algo que já estava diante de mim.

Rafael tinha aprendido com minha permanência.

Cada vez que eu suportava, ele aumentava o limite.

Cada vez que eu perdoava sem consequência, ele interpretava como autorização.

— Então você sabia que estava me machucando.

— Não é isso.

— Sabia o suficiente para contar com o fato de que eu continuaria.

Ele tentou interromper.

Levantei a mão.

— Não estou dizendo isso para fazer você se sentir pior. Estou dizendo porque eu precisava ouvir de você.

— Ouvir o quê?

— Que você não colocou aquele divórcio na mesa porque queria liberdade.

Rafael ficou imóvel.

— Você colocou porque acreditava que poderia me mandar embora e me chamar de volta quando fosse conveniente.

Ele apertou o maxilar.

— Marina estava grávida.

— Eu sei.

— Ela queria uma posição.

— E você decidiu que eu seria a peça removida temporariamente.

— Eu achei que depois poderíamos—

— Exatamente.

Eu me inclinei para a frente.

— Você achou.

Não havia mais nada que eu precisasse perguntar.

A conversa terminou sem reconciliação, mas mudou alguma coisa importante: Rafael parou de fingir que o acordo daquela noite era uma decisão de divórcio verdadeira.

Ele tinha esperado obediência.

Eu tinha respondido com uma escolha.

Nos dias seguintes, isso também mudou as negociações.

A nova proposta enviada pelo advogado dele era mais realista. Reconhecia quase todo o patrimônio formado durante o casamento e abandonava a exigência de que eu renunciasse a tudo.

Ainda havia divergências.

Mas pela primeira vez estávamos discutindo números concretos, não a fantasia de que eu deveria desaparecer com uma mala vazia.

Eu recusaria qualquer coisa injusta.

Também não prolongaria o processo para castigá-lo.

Minha advogada concordou.

— Isso ajuda.

— Eu quero terminar.

— Terminar rápido ou terminar direito?

Pensei.

— Direito.

No estúdio, recebi outra notícia.

A proprietária queria abrir uma turma noturna fixa comigo e me ofereceu participação maior no valor pago pelos alunos.

Eu fiz contas antes de aceitar.

Perguntei sobre despesas.

Pedi tudo por escrito.

Ela riu.

— Você mudou desde que chegou.

— Eu cheguei sem ler contratos.

— Então mudou para melhor.

Assinei depois de revisar cada cláusula.

Na mesma semana, aluguei um pequeno apartamento.

Um quarto.

Sala minúscula.

Cozinha onde duas pessoas mal conseguiriam se cruzar.

Quando recebi as chaves, sentei no chão vazio por quase meia hora.

Não porque estivesse triste.

Eu precisava sentir aquilo.

Era o primeiro lugar em anos em que nenhum objeto tinha sido escolhido levando em conta o gosto de Rafael.

Comprei uma mesa usada.

Duas cadeiras.

Um colchão.

Uma luminária barata.

A primeira noite foi silenciosa.

E percebi quanto tempo fazia que o silêncio não parecia ameaça.

Marina não voltou a me ligar.

Soube apenas, por meio da negociação, que Rafael queria acelerar a formalização do divórcio.

Era compreensível.

A gravidez avançava.

A vida dele também precisava sair daquele estado suspenso.

Mas agora a pressa dele não determinava minhas decisões.

Na reunião seguinte, concordamos sobre o carro e parte das aplicações.

Restava um valor investido durante o casamento que Rafael insistia em classificar como exclusivamente dele.

Minha advogada apresentou os documentos.

O advogado dele pediu prazo para verificar.

Rafael ficou irritado.

— Você quer mesmo discutir isso até o último centavo?

Olhei para ele.

— Não.

Ele pareceu aliviado cedo demais.

— Quero discutir até ficar claro o que é de quem. Se for seu, eu não toco. Se for comum, dividimos.

— Você não precisava disso antes.

— Antes eu achava que precisava de você.

A frase escapou antes que eu planejasse.

Rafael ficou muito quieto.

Eu completei:

— Hoje eu sei que precisava de respeito. E isso você não estava me dando.

A reunião foi encerrada pouco depois.

No corredor, ele me chamou.

— Helena.

Virei.

— Se eu tivesse devolvido seu passaporte sem aquela cena, você teria ficado?

Pensei com cuidado.

— Naquela noite?

— Sim.

— Talvez eu tivesse demorado mais para ir embora.

O rosto dele mudou.

— Então eu destruí tudo por causa de uma provocação.

— Não.

Balancei a cabeça.

— A provocação só mostrou de forma impossível de ignorar o que já existia.

Eu me afastei.

Atrás de mim, Rafael não insistiu.

Pela primeira vez, parecia compreender que a pergunta certa não era qual gesto tinha acabado com nosso casamento.

Era quantas coisas ele havia feito acreditando que nenhuma delas teria consequência.

E agora as consequências estavam começando a chegar.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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