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LEITURA EM PARTESParte 9 de 10

Parte 9

Dois meses se passaram.

Nosso casamento já não parecia o mesmo.

Mas também ainda não era um casamento reconstruído.

Era uma relação em observação.

Lucas continuava morando na antiga casa.

Eu permanecia no apartamento.

A terapia tinha diminuído de semanal para quinzenal, por decisão nossa.

Havia dias bons.

Outros desconfortáveis.

Em alguns momentos eu olhava para Lucas e reconhecia o homem por quem tinha me apaixonado.

Em outros, lembrava da sala de operações, do “chega” dirigido a mim, da ligação encerrada quando eu estava ferida.

Aprendi que duas verdades podiam existir ao mesmo tempo.

Ele estava mudando.

E o que tinha acontecido ainda doía.

Certa noite, depois da terapia, Lucas me acompanhou até o prédio.

Ficamos parados perto da entrada.

“Posso fazer uma pergunta?”

“Pode.”

“Você acha que algum dia consegue voltar para casa?”

Eu sabia que aquela pergunta chegaria.

Não respondi imediatamente.

“Para aquela casa?”

“Para mim.”

Lucas percebeu a diferença antes mesmo de eu explicar.

“Não é a mesma coisa?”

“Não mais.”

Ele respirou fundo.

“Então me responde sobre mim.”

Olhei para ele.

“Eu não sei.”

Lucas fechou os olhos por um instante.

“Eu achei que depois desses meses…”

“Que eu já teria decidido?”

“Sim.”

Não havia cobrança no tom.

Só cansaço.

“Eu também achei.”

Ele apoiou as costas no muro.

“Às vezes tenho a impressão de que estamos nos dando bem porque não precisamos viver a parte difícil.”

“Qual parte?”

“Rotina.”

Ele apontou para o prédio.

“Eu venho aqui, passo duas horas com você, tento estar presente. Depois volto para uma casa vazia.”

Pela primeira vez, eu entendi o receio dele.

“Você acha que, se voltarmos a morar juntos, tudo volta ao que era?”

“Tenho medo disso.”

“Eu também.”

Lucas soltou uma risada breve.

“Ótimo. Pelo menos finalmente temos medo da mesma coisa.”

Sorri.

Depois fiquei séria.

“Tem uma pergunta que eu preciso fazer.”

“Pergunta.”

“Se eu nunca tivesse saído de casa, você teria percebido?”

Lucas não respondeu de imediato.

Eu continuei:

“Se eu continuasse acendendo a luz, esquentando a comida, dizendo que estava tudo bem… você teria percebido que eu estava desaparecendo dentro daquele casamento?”

Ele baixou os olhos.

“Não sei.”

“Eu acho que sabe.”

Lucas ficou em silêncio por alguns segundos.

Quando levantou o rosto, não havia defesa.

“Provavelmente não.”

A sinceridade doeu mais do que uma mentira teria doído.

“E isso é o que mais me assusta.”

“Eu sei.”

“Porque significa que você mudou quando existiu consequência.”

“Sim.”

“Então como eu sei que a mudança fica quando a consequência desaparece?”

Lucas aproximou um passo.

Não tentou me tocar.

“Você não sabe.”

Fiquei surpresa.

Ele continuou:

“E eu não tenho como exigir que confie.”

Respirou fundo.

“Só posso continuar fazendo diferente. Mesmo sem garantia.”

Naquela noite, depois que ele foi embora, fiquei horas acordada.

Não chorando.

Pensando.

Durante meses, minha pergunta tinha sido:

Lucas consegue mudar?

Agora eu percebia que havia outra, mais importante:

Mesmo que ele mude, eu ainda quero este casamento?

As duas perguntas não tinham a mesma resposta.

Na manhã seguinte, fui até a antiga casa.

Lucas estava na unidade.

Entrei usando uma chave temporária que ele tinha deixado na portaria depois de eu avisar que queria buscar algumas coisas antigas.

Caminhei devagar pela sala.

A estante continuava no mesmo lugar.

As condecorações também.

A velha campainha ainda estava ali.

Passei os dedos sobre ela.

Lembrei de Lucas chegando coberto de poeira.

Lembrei do primeiro jantar naquele apartamento.

Lembrei das noites felizes.

E também das noites em que eu comia sozinha.

Não queria apagar nenhuma parte.

Nem transformar anos de amor em erro só porque o casamento tinha adoecido.

Entrei no quarto.

Meu lado do armário permanecia quase vazio.

Lucas não tinha ocupado o espaço.

Aquilo me tocou.

Mas não mudou o que eu sabia.

No fim da tarde, pedi para encontrá-lo no apartamento.

Lucas chegou direto da unidade.

Quando entrou, percebeu meu rosto.

“Você decidiu.”

Não foi uma pergunta.

Assenti.

Ele deixou a mochila no chão.

“Quer que eu sente?”

“Sim.”

Sentamos em lados opostos do sofá.

Minhas mãos estavam frias.

“Eu pensei muito.”

Lucas ficou quieto.

“Você mudou.”

Ele respirou devagar.

“Mas?”

“Não é um ‘mas’ para apagar isso.”

Olhei para ele.

“Eu vejo sua mudança. Eu acredito nela.”

Os olhos dele ficaram úmidos.

“Só que eu percebi que passei esses meses tentando descobrir se você merecia outra chance.”

Ele franziu a testa.

“E essa não era a pergunta certa.”

“Qual era?”

“Se eu ainda queria construir minha vida como sua esposa.”

Lucas fechou os olhos.

Eu continuei:

“E a resposta é não.”

A dor atravessou o rosto dele sem disfarce.

Ainda assim, ele não interrompeu.

“Não porque você seja um monstro. Não porque exista outra mulher. Não porque tudo que tivemos tenha sido mentira.”

Minha voz tremeu.

“Eu só não consigo voltar a morar naquela versão de mim.”

Lucas olhou para as mãos.

“Então você quer se divorciar.”

“Quero.”

O silêncio que veio depois não parecia punição.

Parecia luto.

Lucas respirou várias vezes antes de conseguir falar.

“Eu achei que, se fizesse tudo certo…”

“Você fez porque precisava fazer.”

“Eu sei.”

Uma lágrima escorreu pelo rosto dele.

Ele passou a mão rapidamente.

“Isso não significa que eu não esperava que você ficasse.”

Meu peito doeu.

“Eu sei.”

Lucas levantou.

Caminhou até a janela.

Depois voltou.

“Eu não vou dificultar.”

“Obrigada.”

“Só preciso de tempo para aceitar.”

“Você tem.”

Ele me encarou.

“Mas não para tentar mudar sua decisão.”

Assenti.

“Certo.”

Naquele momento, entendi que o último teste da mudança de Lucas não seria reconquistar minha presença.

Seria respeitar minha saída.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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