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LEITURA EM PARTESParte 4 de 10

Parte 4

Lucas cumpriu a promessa de me dar espaço.

Durante uma semana inteira, não apareceu na casa da minha mãe.

As mensagens também diminuíram.

Nada de “precisamos conversar” no meio da noite. Nada de ligações repetidas. Nada de justificativas sobre Sofia ou sobre a missão.

Ele perguntava apenas se meu braço estava melhor e, quando eu respondia, encerrava a conversa.

Aquilo me confundiu mais do que eu gostaria de admitir.

Parte de mim tinha passado tanto tempo esperando que Lucas percebesse meus limites que, quando finalmente começou a respeitá-los, eu não sabia o que sentir.

Alívio não era perdão.

Saudade não era decisão.

E um comportamento correto durante alguns dias não apagava anos de pequenas ausências.

No sábado, fui até nossa casa buscar mais roupas.

Avisei antes.

Lucas respondeu:

“Vou estar lá. Se você preferir que eu saia, eu saio.”

Pensei por alguns minutos.

“Pode ficar.”

Quando abri a porta, a primeira coisa que vi foi a luz do sensor acesa.

Lucas percebeu meu olhar.

“Eu religuei.”

Tirei os sapatos.

“Por quê?”

Ele respondeu com simplicidade:

“Porque eu sempre achei que aquela luz existia para mim. Depois percebi que você tinha colocado para nós dois.”

Não disse nada.

Passei por ele.

Na sala, a velha campainha continuava sobre a estante, junto às condecorações.

Lucas havia deixado tudo exatamente como estava.

Fui até o quarto e abri o armário.

Ele permaneceu à porta.

“Você vai levar tudo?”

“Não.”

“Então ainda pretende voltar?”

Parei de dobrar uma blusa.

“Não transforme cada objeto que eu deixo aqui em uma promessa.”

Lucas fechou os olhos por um instante.

“Tá.”

Voltei à mala.

Depois de alguns minutos, ele falou:

“Eu conversei com meu comandante.”

Virei o rosto.

“Sobre quê?”

“Sobre a equipe. Sobre a reunião. Sobre a forma como eu conduzi aquela situação.”

Meu corpo ficou tenso.

“Você falou de mim?”

“Só o necessário.”

Ele se apoiou no batente.

“Ele disse que eu não violei protocolo operacional. Mas também disse que liderança não termina quando a missão acaba.”

Esperei.

Lucas continuou:

“Falou que eu deixei a equipe transformar uma relação de comando em brincadeira. Que permitir que Sofia me tratasse com intimidade na frente de todo mundo criava margem para interpretações e prejudicava a hierarquia.”

“E você concordou?”

“Agora, sim.”

“Agora?”

“Antes, eu achava irrelevante.”

Coloquei uma blusa na mala.

“Para você, quase tudo que me incomodava era irrelevante.”

Lucas se afastou da porta e entrou no quarto.

“Eu sei.”

A facilidade com que respondeu me irritou.

“Não, você não sabe.”

Ele parou.

“Você está começando a perceber. É diferente.”

“Então me explica.”

Soltei o ar devagar.

“Eu não achei que você estivesse me traindo com a Sofia.”

Lucas franziu a testa.

“Não?”

“Não.”

Ele parecia genuinamente surpreso.

“Então por que…”

“Porque nunca foi sobre uma amante.”

Fechei a mala e virei para ele.

“Era sobre eu estar ferida e você achar exagero. Era sobre ela usar seu nome com intimidade e você considerar minha reação o problema. Era sobre você entregar para outra pessoa uma jaqueta que eu consertei quatro vezes sem nem lembrar o que aquilo significava para mim.”

Lucas olhou para o armário.

“Era só uma jaqueta.”

“Eu sei.”

Minha voz saiu cansada.

“Esse é exatamente o tipo de resposta que me trouxe até aqui.”

Ele ficou em silêncio.

“Não é o preço da jaqueta. Não é a Sofia. Não é a luz. Não é a comida.”

Toquei no próprio peito.

“É o fato de que tudo que eu colocava dentro dessas coisas nunca chegava até você.”

Lucas respirou fundo.

“Eu achei que o fato de eu voltar para casa sempre fosse suficiente.”

“E eu achei que, porque você voltava, ainda estávamos juntos.”

A frase atingiu nós dois.

Ele se sentou na beirada da cama.

“Helena, eu nunca deixei de amar você.”

“Eu acredito.”

Ele ergueu os olhos, surpreso novamente.

“Mas isso não resolve tudo.”

“Como não?”

“Porque amor não compensa ausência para sempre.”

Lucas apertou as mãos.

“Então o que você quer de mim?”

“Hoje?”

“Sim.”

“Que pare de tentar descobrir qual resposta me faria voltar para casa.”

Ele respirou pelo nariz.

“E o que eu faço?”

“Descubra por que você só percebeu que nosso casamento estava desmoronando quando eu parei de servir jantar.”

Lucas não respondeu.

Terminei de arrumar a mala.

Antes de sair do quarto, ele perguntou:

“Você aceitaria conversar com alguém?”

“Alguém?”

“Terapia de casal.”

Parei.

Essa sugestão teria me emocionado meses antes.

Naquele momento, porém, eu não queria transformar a proposta em prova de redenção.

“Talvez.”

Lucas assentiu.

“Talvez é melhor que não.”

“Mas só vou se for para entender o que aconteceu. Não para alguém me convencer a voltar.”

“Eu aceito.”

Peguei a mala.

No corredor, Lucas falou:

“Eu pedi à Sofia que mantenha a comunicação comigo dentro do padrão da unidade.”

Olhei para ele.

“Você não precisa me contar isso para ganhar pontos.”

“Não estou contando por isso.”

“Então por quê?”

Ele pensou antes de responder.

“Porque eu finalmente entendi que limite só parece exagero para quem nunca teve que pagar o preço da falta dele.”

Foi a primeira frase de Lucas, desde o início de tudo, que não me pareceu uma defesa.

Ainda assim, saí.

Porque compreender era apenas o começo.

E eu já tinha vivido tempo demais sustentando um casamento com começos que nunca viravam mudança.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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