
Parte 3
Minha mãe não fez perguntas quando me viu parada diante do portão com uma mala pequena e o braço enfaixado.
Ela apenas abriu espaço para eu entrar.
Isso me atingiu mais do que qualquer interrogatório teria atingido. Talvez porque eu estivesse acostumada a justificar cada decisão dentro do meu casamento. Explicar por que estava triste. Explicar por que precisava de ajuda. Explicar por que alguma coisa doía.
Na casa da minha mãe, ninguém exigiu relatório.
Ela colocou minha mala no quarto em que eu tinha dormido antes de me casar e foi direto para a cozinha.
“Você comeu?”
“Não.”
“Então primeiro você come. Depois decide se quer falar.”
Sentei à mesa enquanto ela esquentava a sopa que tinha prometido preparar no fim de semana. Eu tinha chegado antes do combinado, mas ela não comentou.
O telefone vibrou duas vezes dentro da bolsa.
Lucas.
Na primeira ligação, deixei tocar.
Na segunda, atendi.
“Você chegou?”
“Cheguei.”
“Seu braço está bem?”
Olhei para o curativo.
“Está inflamado. A médica passou tratamento.”
“Por que você não me falou que estava inflamado?”
A pergunta me fez fechar os olhos.
“Lucas, você estava lá quando eu disse que tinha ido ao hospital.”
“Você não disse que era sério.”
“Eu também não disse que era leve.”
Ele ficou quieto.
Depois perguntou:
“Quanto tempo você vai ficar aí?”
“Não sei.”
“Eu preciso pelo menos saber o que está acontecendo.”
“Você sabe.”
“Não, Helena. Eu sei que você está magoada. Não sei o que pretende fazer.”
Minha mãe colocou o prato à minha frente e se afastou sem interferir.
Eu segurei o telefone com mais força.
“Nem eu sei ainda. E não vou tomar uma decisão só para diminuir sua ansiedade.”
Do outro lado, a respiração dele mudou.
“Você acha justo me deixar assim?”
Quase respondi imediatamente.
Mas parei.
Durante anos, qualquer desconforto dele se transformava em prioridade. Era por isso que eu reorganizava jantares, cancelava compromissos, deixava luzes acesas e mantinha o celular com som durante a madrugada.
“Eu não estou fazendo nada contra você, Lucas. Estou fazendo alguma coisa por mim.”
“E qual é a diferença?”
“A diferença é que nem tudo que não te agrada é um ataque.”
Ele não gostou da resposta.
Percebi pelo silêncio.
Mas, dessa vez, eu não corri para amenizá-la.
“Vou desligar. Preciso tomar o antibiótico no horário.”
“Helena.”
“Boa noite.”
Desliguei.
Minha mãe sentou à minha frente.
“Vai me contar?”
“Não hoje.”
Ela assentiu.
“Então não conta.”
Naquela noite, dormi quase oito horas seguidas.
Acordei antes das seis por hábito.
Fiquei alguns segundos olhando para o teto, esperando ouvir o barulho da porta, o chuveiro, os passos de Lucas chegando depois de algum plantão.
Nada aconteceu.
E, estranhamente, o silêncio não me assustou.
Durante os três dias seguintes, Lucas ligou apenas duas vezes.
Não insistiu quando eu não tinha assunto.
Na quarta-feira, mandou uma mensagem perguntando se poderia deixar algumas roupas e documentos que eu havia esquecido.
Respondi que poderia deixar na portaria.
Pouco depois, ele escreveu:
“Prefiro entregar para você.”
Demorei antes de responder.
“Na sexta, depois das 18h.”
Ele chegou às seis e dez.
Minha mãe abriu o portão, cumprimentou-o sem hostilidade e chamou meu nome.
Lucas entrou carregando uma sacola e uma pasta.
Parecia diferente.
Não dramaticamente.
A barba estava um pouco mais crescida. Os olhos, cansados.
Mas o que mais chamou minha atenção foi o jeito como ficou parado na sala, como alguém que não sabia onde colocar as mãos.
Na nossa casa, Lucas nunca parecia deslocado.
Ali, parecia.
“Trouxe suas coisas.”
“Obrigada.”
Peguei a pasta.
Ele olhou para o meu braço.
“O curativo está menor.”
“Melhorou.”
“Posso ver?”
“Não precisa.”
Lucas assentiu.
Não insistiu.
Minha mãe percebeu que não queríamos plateia e foi para a cozinha.
Ficamos frente a frente.
“Eu falei com a médica.”
Meu corpo endureceu.
“Sobre mim?”
“Não. Perguntei se um ferimento como o seu poderia piorar rápido. Ela disse que sim.”
“Você precisava perguntar isso para outra pessoa para acreditar?”
Ele aceitou o golpe sem se defender.
“Talvez.”
A resposta me surpreendeu.
Lucas baixou os olhos por um momento.
“Eu cheguei em casa naquele dia e vi a pomada na mesa. Depois vi a cozinha.”
Não entendi.
“Que cozinha?”
“Tudo estava arrumado. Como sempre.”
Ele soltou uma risada amarga, quase sem humor.
“Parece idiota dizer isso, mas eu percebi que não sei quando foi a última vez que entrei naquela casa pensando em tudo que você fazia antes de eu chegar.”
Eu me mantive quieta.
Ele continuou:
“Eu achei que você gostava.”
“Eu gostava.”
Lucas levantou os olhos.
“Então por que agora parece que era um problema?”
“Porque gostar de cuidar de alguém não significa querer ser tratada como se esse cuidado fosse automático.”
Ele absorveu a frase.
“Eu nunca pedi que você fizesse metade das coisas.”
“Eu sei.”
“Então…”
“Esse é o ponto. Você nunca precisou pedir.”
Ele se calou.
Respirei devagar.
“Eu sabia quando você tinha treinamento difícil. Sabia quando estava cansado. Sabia quando não queria conversar. Sabia quando precisava dormir. Sabia quando você estava irritado e quando não devia insistir.”
Lucas apertou os dedos.
“E você?”
Perguntei.
“Você sabe alguma dessas coisas sobre mim sem que eu precise te explicar?”
Ele não respondeu.
Não porque não quisesse.
Porque não conseguia.
Foi a primeira vez que vi a certeza de Lucas realmente vacilar.
“Eu estou tentando entender”, disse ele.
“Então tenta sem me exigir uma decisão enquanto você aprende.”
Ele respirou fundo.
“Você está pensando em se separar?”
Olhei diretamente para ele.
“Estou.”
A palavra ficou entre nós.
Lucas não elevou a voz.
Não tentou transformar aquilo em ameaça.
Mas seu rosto perdeu cor.
“Você fala sério?”
“Falo.”
Ele passou a mão pelo rosto.
“Por causa de uma ligação?”
“Se você ainda acha que é por causa de uma ligação, então ainda não entendeu.”
Lucas ficou mais alguns minutos.
Quando se despediu, caminhou até o portão e parou.
“Helena.”
“Sim?”
“Eu vou respeitar o espaço que você pediu.”
Assenti.
“Mas não vou fingir que isso não está me destruindo.”
Meu peito apertou.
Pela primeira vez em dias, tive vontade de diminuir a dor dele.
Foi quase instintivo.
Mas permaneci onde estava.
“Eu não quero que você sofra, Lucas.”
Ele olhou para mim.
“Só não posso continuar me machucando para impedir isso.”
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