
Parte 8
Nossa tentativa começou sem grandes gestos.
Lucas não apareceu com flores.
Não fez declarações diante da unidade.
Não pediu ajuda aos meus pais.
Isso me tranquilizou.
Começamos com um jantar por semana.
Às vezes almoçávamos no domingo.
Em outras ocasiões, caminhávamos por uma praça perto do meu apartamento e conversávamos sobre coisas que não envolviam o casamento.
No início era estranho.
Eu tinha esquecido que Lucas gostava de café forte demais.
Ele tinha esquecido que eu detestava lugares barulhentos.
Detalhes pequenos revelavam o tamanho da distância que tínhamos permitido crescer.
Em uma noite de terça-feira, ele chegou quinze minutos atrasado ao restaurante.
Antigamente, eu teria esperado em silêncio e dito que estava tudo bem.
Dessa vez, quando ele sentou, falei:
“Você poderia ter avisado.”
Lucas pegou o celular.
“Tem razão.”
“Não quero que você responda ‘tem razão’ para tudo.”
Ele me olhou.
“Então o que eu faço?”
“Conversa.”
Lucas pensou.
“Eu estava encerrando um relatório. Achei que conseguiria sair a tempo. Quando percebi que não, já estava atrasado.”
“Era difícil mandar uma mensagem?”
“Não.”
“Então?”
Ele soltou o ar.
“Eu ainda ajo como se meu tempo fosse inevitavelmente mais importante.”
Aquilo me fez parar.
Não era uma desculpa.
Era uma observação.
“É.”
“Desculpa.”
“Obrigada.”
A conversa terminou ali.
Sem três dias de silêncio.
Sem uma briga maior.
Foi quando percebi que mudança nem sempre parecia grandiosa.
Às vezes era apenas um problema pequeno que finalmente conseguia terminar pequeno.
Na unidade, Lucas também mudou algumas coisas.
Eu soube não por ele, mas porque um dos colegas que encontrávamos ocasionalmente comentou durante um almoço coletivo.
“Capitão está impossível agora. Até horário de mensagem ele respeita.”
Lucas revirou os olhos.
“Não exagera.”
O colega riu.
“Antes você mandava revisão meia-noite e esperava resposta às seis.”
Lucas olhou para mim por reflexo.
Eu não disse nada.
Mas entendi.
Ele estava percebendo que o mesmo padrão que usava comigo aparecia em outros espaços.
A urgência dele sempre ocupava o lugar da disponibilidade dos outros.
Sofia também estava presente naquele almoço.
Quando nossos olhos se encontraram, ela fez um gesto discreto com a cabeça.
Eu retribuí.
Nada além disso.
Foi suficiente.
Mais tarde, durante a terapia, contei sobre o restaurante.
A terapeuta perguntou a Lucas:
“O que está mais difícil nesse processo?”
Ele respondeu:
“Não saber se vai funcionar.”
“Por quê?”
“Porque estou acostumado a cumprir etapas para chegar a um resultado.”
Eu quase sorri.
Aquilo era muito Lucas.
Treinamento.
Plano.
Execução.
Objetivo.
A terapeuta perguntou:
“E se não houver garantia?”
Ele ficou quieto.
Então olhou para mim.
“Eu ainda quero fazer direito.”
Meu peito se apertou.
A terapeuta perguntou:
“Mesmo que Helena decida não permanecer no casamento?”
Lucas demorou mais dessa vez.
“Sim.”
Eu me virei para ele.
“Você consegue dizer isso de verdade?”
Ele assentiu.
“Se eu mudar só para você ficar, não estou mudando. Estou negociando.”
A frase me emocionou de um jeito que eu não esperava.
Mas emoção também não era resposta.
Naquela mesma semana, aconteceu uma coisa que testou tudo.
Lucas recebeu ordem para uma operação curta fora da cidade.
Antes, ele simplesmente teria ido.
Talvez mandasse mensagem quando já estivesse a caminho.
Dessa vez, ligou.
“Posso te contar uma coisa antes de sair?”
“Pode.”
“Vou ficar quatro dias fora.”
Meu corpo reagiu antes da mente.
Uma tensão antiga percorreu meus ombros.
Lucas percebeu pelo silêncio.
“Você não precisa ficar esperando notícia.”
“Eu sei.”
“Mas, se o protocolo permitir, eu mando uma mensagem quando chegar e outra quando voltar.”
Fechei os olhos.
Era exatamente o tipo de promessa que, meses antes, eu teria recebido como prova de amor.
Agora eu precisava ser cuidadosa.
“Não faça isso para me controlar emocionalmente.”
“Não.”
“Se você não puder mandar, não mande.”
“Tá.”
“E não quero que você coloque sua equipe em segundo plano.”
Lucas respirou fundo.
“Eu sei.”
A operação passou.
Ele mandou uma mensagem quando chegou ao destino.
“Cheguei. Está tudo bem.”
Eu li e continuei meu dia.
Quatro dias depois, outra mensagem:
“Voltando.”
Não fiquei diante da janela.
Não preparei comida.
Não deixei luz acesa.
Horas depois, Lucas perguntou se poderia passar no meu apartamento.
Respondi que sim.
Quando a campainha tocou, eu estava lendo no sofá.
Não corri até a porta.
Fechei o livro.
Levantei.
Abri.
Lucas estava ali, cansado, com uma mochila no ombro.
Durante um segundo, nenhum de nós disse nada.
Então ele sorriu.
“Cheguei.”
Aquela frase atravessou anos de memória.
Meu coração apertou.
Mas, dessa vez, ela não significava que eu tinha passado a noite esperando.
Significava apenas que ele havia chegado.
Eu dei espaço para Lucas entrar.
Tomamos café.
Falamos durante quase uma hora.
Depois ele se levantou.
“Vou embora.”
“Você pode ficar mais um pouco.”
Lucas olhou para mim.
“Tem certeza?”
“Tenho.”
Ele sentou novamente.
E foi nesse instante que percebi que eu não tinha mais medo de dizer “fica”.
Porque também tinha aprendido que podia dizer “vai”.
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