
Parte 7
Encontrei um apartamento pequeno a quinze minutos da casa da minha mãe.
Não tinha varanda ampla.
Não tinha móveis planejados.
Não tinha a estante onde as medalhas de Lucas ficavam alinhadas.
Mas tinha uma janela enorme na sala e uma cozinha que recebia sol pela manhã.
Quando assinei o contrato de locação, fiquei olhando meu nome no papel por alguns segundos.
Era apenas um apartamento temporário.
Mesmo assim, representava uma coisa que eu não fazia havia anos:
Escolher um espaço pensando primeiro em mim.
Lucas soube no mesmo dia.
“Você alugou?”
“Sim.”
A voz dele ficou mais baixa.
“Então é definitivo.”
“Não confunda separação física com uma sentença sobre o casamento.”
“É difícil não confundir.”
“Eu sei.”
Ele respirou fundo.
“Precisa de ajuda com a mudança?”
Minha primeira vontade foi dizer não.
Depois pensei melhor.
“Com algumas caixas.”
Lucas chegou no sábado usando roupa comum.
Sem uniforme.
Sem rádio.
Sem a postura de capitão que parecia acompanhá-lo até nos almoços de família.
Carregou caixas sem comandar ninguém.
Quando minha mãe pediu que ele tomasse café, aceitou.
Ninguém fingiu normalidade.
Mas também ninguém transformou a manhã em um velório.
No apartamento, ele montou uma pequena estante porque eu não conseguia fazer força com o braço ainda em recuperação.
Quando terminou, ficou olhando para a parede.
“Você vai colocar fotos aqui?”
“Talvez.”
“Alguma nossa?”
Olhei para ele.
Lucas balançou a cabeça.
“Esquece. Foi uma pergunta injusta.”
“Provavelmente não agora.”
“Tá.”
Ele guardou as ferramentas.
Antes de sair, coloquei algo na mão dele.
Minha chave da antiga casa.
Lucas ficou olhando para ela.
“Você já tinha deixado uma reserva.”
“Aquela era reserva.”
Fechei os dedos dele sobre a chave.
“Essa era a minha.”
Ele respirou devagar.
“Helena…”
“Eu não quero continuar entrando e saindo de lá como se ainda morasse com você.”
“Isso significa que acabou?”
“Significa que eu estou levando a separação a sério.”
O rosto dele endureceu de dor, mas ele não discutiu.
Guardou a chave no bolso.
“Entendi.”
Na terapia daquela semana, contei sobre a mudança.
Lucas disse que tinha sido pior receber a chave do que me ver sair com a mala.
“Por quê?”, perguntou a terapeuta.
“Porque quando ela saiu com a mala eu ainda pensei que era uma briga.”
Ele esfregou as mãos.
“Quando ela me devolveu a chave, entendi que ela não estava tentando me assustar.”
Olhou para mim.
“Ela realmente estava construindo uma vida que não dependia da minha volta.”
A terapeuta perguntou:
“E o que isso provoca em você?”
“Medo.”
Lucas respondeu sem hesitar.
“De quê?”
“De que ela descubra que fica melhor sem mim.”
Meu peito apertou.
Meses antes, eu teria corrido para negar.
Naquela sala, permaneci em silêncio.
A terapeuta olhou para mim.
“E você?”
“Também tenho medo.”
Lucas se virou.
“Do quê?”
“De descobrir que sinto falta dele e confundir saudade com motivo para voltar.”
Ele baixou os olhos.
Aquela foi uma das conversas mais difíceis que tivemos.
Porque não havia vilão.
Não havia mentira a desmascarar.
Havia duas pessoas olhando para o estrago acumulado e tentando decidir se amor ainda era matéria suficiente para reconstruir alguma coisa.
Depois da sessão, fomos tomar café.
Era a primeira vez desde minha saída de casa que fazíamos algo sem objetivo prático.
Lucas não falou sobre voltar.
Não perguntou se eu ainda usava aliança.
Perguntou sobre meu braço.
Depois perguntou se eu estava dormindo bem.
Só então percebi que aquelas perguntas simples tinham se tornado estranhas entre nós porque, durante anos, quase sempre conversávamos sobre a vida dele.
“Estou dormindo melhor.”
“Que bom.”
“E você?”
Lucas deu uma risada curta.
“Péssimo.”
“Por causa dos plantões?”
“Não.”
Ele mexeu no café.
“Por causa da campainha.”
Franzi a testa.
“Aquela campainha antiga?”
“Não. A atual.”
Ele olhou pela janela.
“Às vezes alguém do corredor fecha uma porta e eu acho que é você entrando.”
Fiquei quieta.
Lucas continuou:
“É ridículo. Passei anos chegando em casa e achando normal encontrar tudo pronto. Agora entro e percebo cada coisa que não acontece.”
“Isso é solidão.”
“Eu sei.”
“E solidão não é castigo.”
Ele me olhou.
“Estou começando a entender.”
Quando nos levantamos para ir embora, Lucas perguntou:
“Posso fazer uma coisa que talvez você não goste?”
“Depende.”
“Quero te pedir uma chance.”
Meu corpo ficou tenso.
Ele levantou a mão.
“Não para voltar agora.”
Esperei.
“Uma chance de começar do começo.”
“Não existe começo do começo.”
“Eu sei.”
Ele respirou fundo.
“Então uma chance de ser alguém na sua vida sem presumir que tenho direito a ocupar o lugar que tinha antes.”
A frase me acompanhou durante dias.
No domingo à noite, sentei sozinha no sofá do apartamento e tomei minha decisão.
Na sessão seguinte, olhei para Lucas.
“Eu aceito uma tentativa.”
Os olhos dele se iluminaram.
Levantei a mão antes que ele falasse.
“Mas não voltamos a morar juntos. Não retomamos a rotina de antes. E eu não prometo que isso termina em reconciliação.”
Lucas assentiu.
“Tudo bem.”
“Se você começar a fazer tudo só para me trazer de volta, eu vou perceber.”
“Eu sei.”
“E, se eu perceber que estou cedendo por culpa, também vou parar.”
“Tá.”
A terapeuta perguntou:
“Então o que vocês estão decidindo?”
Olhei para Lucas.
Depois respondi:
“Descobrir se ainda sabemos escolher um ao outro quando não existe obrigação.”
Foi a primeira vez que a possibilidade de continuar não pareceu uma volta ao passado.
Pareceu um caminho novo.
E eu sabia que, se Lucas tentasse caminhar por ele usando as mesmas regras de antes, dessa vez eu não esperaria até me perder de novo.
A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇














