Stories · Emotions · Life

LEITURA EM PARTESParte 2 de 10

Parte 2

“Então diga o que quis dizer.” Minha voz saiu baixa, sem raiva. Lucas abriu a boca, mas demorou a responder, e aquela demora me disse mais do que qualquer frase pronta.
“Eu quis dizer que não precisava ter acontecido daquele jeito ontem.” Ele passou a mão pela nuca. “Eu poderia ter falado com você de outra forma.”
“Sobre a forma?” perguntei. “É disso que você acha que estamos falando?” Lucas franziu a testa, como se tentasse encontrar o ponto exato em que aquela conversa tinha deixado de obedecer à lógica dele.
Peguei a pomada da mesa e a coloquei ao lado da minha bolsa. “Você ainda acha que meu problema é a Sofia.” Ele respirou fundo. “Ela está envolvida nisso.” “Não do jeito que você imagina.”
Lucas puxou uma cadeira. “Então me explica.” Eu quase ri. Durante anos, eu tinha explicado cansaço, preocupação, medo, saudade. Naquela noite, percebi que estava cansada de transformar sentimentos em relatórios para que meu marido os considerasse válidos.
“Quando liguei para você naquela operação, eu não pedi para abandonar os civis. Não pedi para largar sua equipe. Eu liguei porque estava ferida e com medo.” Minha mão direita pousou sobre o curativo. “Você desligou porque precisava continuar a missão. Eu consigo entender isso.”
Lucas pareceu relaxar por um segundo. “Então…” “Mas você nunca ligou de volta para saber se eu tinha saído de lá.” O alívio desapareceu do rosto dele. “Nem quando a situação estabilizou. Nem depois.”
Ele ficou imóvel. Eu continuei antes que viesse outra explicação operacional. “Você soube que eu tinha sido atingida de raspão. Soube que eu fui ao atendimento. Mesmo assim, ontem, na frente de todo mundo, quando eu disse que tinha medo, sua primeira preocupação foi me mandar calar a boca.”
“Eu não mandei você calar a boca.” “Mandou do seu jeito.” Lucas desviou os olhos para a mesa. Pela primeira vez desde que voltara, não tentou me corrigir imediatamente.
Apontei para a pomada. “Você trouxe isso porque alguém entregou para você.” Ele levantou o rosto. “Eu trouxe porque é para você.” “Mas nem perguntou como está meu braço.” O silêncio seguinte foi curto, mas pesado.
Lucas olhou para o curativo como se só então enxergasse de verdade que ele existia. “Está doendo?” “Agora você perguntou.” Ele apertou a mandíbula. “Helena, eu estou tentando.” “Não. Você está tentando encerrar a discussão.”
Ele se levantou. “O que você quer que eu faça?” Foi exatamente aí que alguma coisa em mim virou. Não havia agressividade na pergunta; havia genuína incapacidade de entender por que as soluções que sempre funcionaram já não funcionavam.
“Eu queria que você tivesse se importado sem eu precisar ensinar.” Lucas abriu a boca e fechou novamente. “Eu queria que, pelo menos uma vez, você tivesse percebido sozinho que eu também precisava de você.”
Ele caminhou alguns passos pela sala. “Eu tenho uma responsabilidade com aquelas pessoas.” “Eu sei.” “Se uma decisão errada minha coloca alguém em risco…” “Eu sei, Lucas.” Minha voz ficou mais firme. “Quantas vezes eu preciso dizer que não estou pedindo que você seja menos responsável como capitão?”
Ele parou. “Então qual é o problema?” “Você usa o capitão para não precisar ser meu marido.” Dessa vez, ele não teve resposta.
Peguei uma pequena mala que já estava perto do corredor. O olhar dele mudou imediatamente. “O que é isso?” “Vou passar alguns dias na casa da minha mãe.”
“Por causa dessa discussão?” “Não.” Coloquei a bolsa no ombro. “Por causa de todas as vezes em que eu achei que precisava esperar mais um pouco para você voltar a me enxergar.”
Lucas segurou a alça da mala antes que eu a puxasse. Não fez força, mas também não soltou. “Você está indo embora para me punir?” “Se eu quisesse te punir, ficaria aqui cobrando alguma coisa de você todos os dias.”
“Então o que você quer?” Ele parecia mais perdido do que bravo. “Dormir sem esperar a campainha.” Tirei a mão dele da mala com cuidado. “Comer sem calcular que horas você vai chegar. Parar de viver como se minha função fosse facilitar sua volta para uma casa onde eu nunca sei se você realmente está.”
Lucas respirou fundo. “Helena, isso é exagero.” A frase saiu automática. Nós dois percebemos. O rosto dele mudou no mesmo instante.
Eu assenti lentamente. “É exatamente por isso que eu preciso sair agora.” Caminhei até a porta. A luz externa permaneceu apagada porque eu continuava mantendo o sensor desligado.
Lucas veio atrás de mim. “Quando você volta?” Coloquei a mala no chão por um instante, peguei a chave reserva que ficava no meu chaveiro e a deixei sobre o aparador.
“Eu ainda não sei.” Abri a porta. “E, pela primeira vez, você vai precisar conviver com uma coisa sem saber quando termina.”
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