
Parte 6
Nas semanas seguintes, Lucas continuou indo às sessões comigo.
Não houve transformação instantânea.
Às vezes ele ainda se defendia.
Às vezes eu ainda me fechava.
Mas, pouco a pouco, nossas conversas deixaram de ser um tribunal em que um precisava provar que o outro estava errado.
Em uma das sessões, voltamos à reunião na unidade.
Lucas falou sobre Sofia.
“Eu achei que Helena estava com ciúme.”
“Por quê?”, perguntou a terapeuta.
“Porque Sofia estava sempre perto de mim.”
“Você achava que havia motivo?”
“Não.”
“Então por que, em vez de tranquilizar sua esposa, você a tratou como alguém irracional?”
Lucas demorou a responder.
“Porque era mais fácil.”
Olhei para ele.
Ele continuou:
“Se o problema fosse ciúme, eu podia dizer que ela estava entendendo errado. Se o problema fosse a forma como eu tratava Helena… eu teria que olhar para mim.”
Foi uma das poucas vezes em que ele disse alguma coisa que eu não tinha percebido antes.
Na saída, não falamos sobre a sessão.
Mas, dois dias depois, Lucas me ligou.
“Posso passar aí?”
“Para quê?”
“Quero devolver uma coisa.”
Chegou à noite carregando uma sacola de tecido.
Dentro estava a jaqueta de treinamento.
Aquela que eu tinha remendado quatro vezes.
Fiquei olhando para ela.
“Por que isso está com você?”
“Sofia devolveu.”
Meu corpo ficou tenso.
“Você pediu?”
“Não.”
Ele sentou na poltrona da sala da minha mãe.
“Ela veio falar comigo depois de um treinamento. Disse que não se sentia confortável usando uma coisa que tinha percebido ser pessoal.”
Fiquei quieta.
Lucas continuou:
“Ela também disse que você nunca acusou ela de nada. Que eu fui quem transformou tudo numa disputa entre vocês duas.”
Aquilo me surpreendeu.
Não porque Sofia tivesse se tornado importante de repente.
Mas porque confirmava uma coisa que eu estava começando a entender.
Lucas precisava que meu incômodo tivesse um nome simples.
Ciúme.
Insegurança.
Exagero.
Qualquer rótulo serviria, desde que ele não precisasse reconhecer o próprio afastamento.
“Você falou o quê para ela?”
“Que ela estava certa.”
Passei os dedos pelo remendo na manga.
“Você quer a jaqueta de volta?”
Lucas negou.
“Não.”
“Por quê?”
“Porque agora eu olho para ela e lembro quantas vezes você consertou uma coisa minha enquanto eu tratava isso como se acontecesse sozinho.”
Baixei os olhos.
“Não precisa transformar a jaqueta em símbolo de culpa.”
“Não é culpa.”
Ele falou com firmeza.
“É memória.”
Minha mãe passou pelo corredor, percebeu que estávamos conversando e voltou discretamente para o quarto.
Lucas respirou fundo.
“Meu comandante também mudou Sofia de função dentro da equipe durante os próximos treinamentos.”
Meu olhar endureceu.
“Por minha causa?”
“Não.”
Ele respondeu rápido.
“Foi uma redistribuição operacional. Ela ainda está na unidade. Continua trabalhando normalmente.”
Assenti.
Era importante ouvir isso.
Eu não queria que uma mulher mais nova carregasse a punição por problemas criados dentro do meu casamento.
Lucas continuou:
“Eu também deixei claro para todo mundo que comunicação comigo segue a cadeia normal de comando.”
“Certo.”
“Não estou te contando para mostrar serviço.”
“Eu sei.”
Foi a primeira vez que respondi isso sem ironia.
Ele me observou.
“Você parece diferente.”
“Eu estou diferente.”
“Melhor?”
Pensei antes de responder.
“Mais quieta por dentro.”
Lucas abaixou a cabeça.
“Eu queria ter conseguido te dar isso antes.”
“Você não podia me dar.”
Ele ergueu o rosto.
“Eu precisei aprender a criar sozinha.”
Na sessão seguinte, a terapeuta perguntou o que eu queria para os próximos meses.
Dessa vez, respondi sem hesitar.
“Quero morar separada.”
Lucas se moveu na cadeira.
Mas não interrompeu.
“Não necessariamente para decidir hoje se vamos nos divorciar”, continuei. “Quero descobrir quem eu sou quando não estou organizando a minha vida ao redor da rotina dele.”
A terapeuta olhou para Lucas.
“Como você recebe isso?”
Ele demorou.
“Mal.”
Eu quase sorri.
Ele também.
Foi um momento estranho, leve, o primeiro em muito tempo.
Lucas continuou:
“Mas entendo.”
“Você concorda?”
“Não sei se concordo.”
Olhou para mim.
“Mas eu não quero que ela volte para casa porque ficou com pena de mim.”
Senti alguma coisa se mover dentro do peito.
Não era reconciliação.
Era respeito.
Pequeno.
Tardio.
Mas real.
Decidimos que Lucas continuaria na residência enquanto eu ficaria com minha mãe até encontrar um lugar temporário perto dela.
Não fizemos promessas sobre frequência de contato.
Não criamos regras artificiais.
A única combinação foi simples:
Nenhum dos dois usaria silêncio como castigo.
Se não quiséssemos falar, diríamos isso.
Naquela noite, Lucas me acompanhou até o portão.
Antes de ir embora, perguntou:
“Você ainda ama aquela casa?”
Olhei para ele.
“Eu amo muitas coisas que vivi lá.”
“Não foi o que eu perguntei.”
Respirei.
“Não sei se ainda consigo chamar aquele lugar de casa.”
Ele ficou alguns segundos olhando para mim.
Depois assentiu.
“Então eu vou parar de pedir para você voltar para lá.”
Foi nesse momento que percebi que o equilíbrio entre nós tinha mudado.
Lucas ainda queria que eu voltasse.
Mas, pela primeira vez, começava a entender que me amar também significava aceitar a possibilidade de que eu não voltasse.
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