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LEITURA EM PARTESParte 9 de 10

PARTE 9

A assinatura definitiva foi marcada para a semana seguinte.

Passei os dias anteriores sem ansiedade excessiva.

Talvez porque já tivesse entendido que o acordo não era uma vingança perfeita.

Não devolveria dez anos.

Não obrigaria Davi a sentir exatamente o que eu sentira.

Não transformaria Marina novamente em minha amiga.

Não mudaria Célia.

Era apenas uma solução jurídica para impedir que um relacionamento construído sobre fraude continuasse ocupando o resto da minha vida.

Na manhã marcada, cheguei antes.

Renata já estava na sala.

Revisamos mais uma vez as cláusulas.

— Se tiver qualquer dúvida, ainda pode perguntar.

— Eu sei.

Passei os olhos pelas páginas.

— Não tenho.

Davi chegou dez minutos depois com seu advogado.

Sentou-se diante de mim.

Parecia mais velho do que alguns meses antes.

Talvez estivesse apenas cansado.

Marina não estava com ele.

Célia também não.

Pela primeira vez desde que eu o conhecera, Davi parecia completamente responsável por estar ali sozinho.

Os advogados fizeram as últimas conferências.

Davi folheou o documento devagar.

Então parou na cláusula sobre renúncia recíproca a futuras pretensões patrimoniais abrangidas pelo acordo.

— Então, depois disso, o prêmio fica totalmente fora de qualquer discussão entre nós.

Seu advogado respondeu:

— Nos termos pactuados, sim.

Davi olhou para mim.

— Quanto foi?

Renata abriu a boca, mas fiz um gesto indicando que estava tudo bem.

Eu já não tinha motivo para esconder depois que a questão estava sendo formalmente encerrada.

Falei o valor.

O silêncio na sala mudou.

Davi ficou imóvel.

— Tudo isso?

Assenti.

Ele deixou a caneta sobre a mesa.

— Você ficou milionária na noite anterior ao casamento.

— Sim.

— E não disse nada.

— Não.

— Nem quando minha mãe jogou aquele cartão em você.

— Não.

Seu rosto se contraiu.

— Por quê?

Pensei antes de responder.

— Porque eu ainda estava tentando entender o que tinha acontecido comigo. E porque, naquele momento, descobrir que vocês tinham me enganado durante dez anos era maior do que qualquer número na minha conta.

Davi soltou o ar lentamente.

— Você podia ter me contado.

Por um instante, achei que tinha ouvido errado.

— Eu podia?

— Nós vivemos juntos dez anos.

— E você podia ter me contado que a certidão era falsa.

Ele desviou os olhos.

Nada mais precisou ser dito.

A reunião continuou.

Davi pediu um intervalo.

Seu advogado concordou.

Ele saiu para o corredor.

Alguns minutos depois, fui ao banheiro e o encontrei perto da janela.

Quando me viu, veio em minha direção.

— Helena, espera.

Parei a uma distância confortável.

— O que foi?

— Você precisa mesmo assinar isso hoje?

— Preciso.

— Por quê?

A pergunta era estranha.

— Porque negociamos durante semanas.

— Não estou falando disso.

Ele passou a mão pelo cabelo.

— Estou perguntando se precisa fechar tudo assim.

Olhei para ele.

— Davi, foi você quem fechou.

— Eu estava com raiva naquele casamento.

— A certidão foi falsificada dez anos antes.

Ele não respondeu.

— Marina…

— Não use Marina para explicar dez anos.

Ele respirou fundo.

— As coisas ficaram ruins entre nós.

— Quando?

— Eu não sei.

— Antes ou depois de você começar a dormir com minha melhor amiga?

Seu rosto endureceu.

— Você também não era feliz.

— Pode ser.

Assenti lentamente.

— Mas eu acreditava que era sua esposa. Você sabia que eu não era.

Ele ficou em silêncio.

A diferença entre essas duas experiências parecia finalmente impossível de contornar.

Então veio a frase que eu já esperava havia algum tempo.

— A gente poderia tentar começar de novo.

Não senti raiva.

Só cansaço.

— Não.

— Você nem pensou.

— Pensei durante meses. E, de certa forma, durante dez anos.

— Eu errei.

— Sim.

— Eu posso mudar.

— Talvez.

Ele pareceu esperançoso por um instante.

— Então…

— Mas você não precisa mudar para mim.

A esperança desapareceu.

— Mude porque não quer repetir isso com outra pessoa.

Ele me encarou.

— Você está dizendo isso porque agora tem dinheiro.

Eu quase sorri.

— O dinheiro me deu segurança para sair mais rápido. Mas não foi ele que tornou o que você fez errado.

Davi abaixou a cabeça.

Foi a primeira vez que não tentou me convencer de que eu estava exagerando.

Voltamos para a sala.

Ele assinou.

Eu também.

As formalidades restantes foram cumpridas.

Não senti fogos de artifício.

Senti silêncio.

Um silêncio leve.

Quando saímos do prédio, Davi chamou meu nome novamente.

— Helena.

Virei-me.

Ele segurava as mãos nos bolsos.

— Marina não voltou.

Eu não sabia por que ele estava me contando.

— Sinto muito.

— Minha mãe foi morar um tempo com minha irmã.

Era a primeira vez que ele mencionava essa irmã para mim naquele contexto, mas não importava; a questão era clara: a antiga casa já não funcionava como antes.

— Entendo.

— A casa parece vazia.

Olhei para ele.

Durante anos, eu teria interpretado aquela frase como convite.

Agora eu via apenas uma consequência.

— Você vai se acostumar.

Ele soltou um riso amargo.

— Foi isso que aconteceu com você?

Pensei no meu apartamento.

Nas aulas.

Nas manhãs em que eu tomava café sem ouvir reclamações.

Nas noites em que eu ainda acordava lembrando coisas ruins.

— Não.

Balancei a cabeça.

— Eu não quero me acostumar com o vazio. Quero preencher minha vida com coisas que eu escolho.

Davi ficou parado.

Fui embora.

A investigação relacionada à falsificação ainda não estava completamente encerrada, e eu sabia que poderia haver etapas futuras.

Mas a disputa entre nós sobre patrimônio estava resolvida.

Ele não teria direito ao prêmio nos termos do acordo que acabara de assinar.

Eu também não voltaria anos depois exigindo participar do que ele construísse.

Era o fim de uma ligação financeira que durante meses ameaçara prolongar nossa história.

Naquela noite, sentei-me na varanda com uma taça de vinho.

Não comemorei a perda de Davi.

Comemorei o fim da necessidade de organizar minha vida em torno dele.

Recebi uma mensagem de Marina.

“Soube que vocês resolveram a parte patrimonial.”

Respondi:

“Sim.”

Ela escreveu:

“Eu e Davi ainda não sabemos o que vamos fazer.”

Dessa vez, não respondi.

Não por maldade.

Simplesmente não era mais uma informação que eu precisava carregar.

Coloquei o celular sobre a mesa.

No dia seguinte, começaria uma nova fase do curso.

Na semana seguinte, visitaria meus pais.

No mês seguinte, faria uma pequena viagem sozinha, a primeira em muitos anos.

Nada daquilo era espetacular perto de centenas de milhões.

Mas comecei a perceber que riqueza também podia ser isso.

Ter um amanhã que não estava previamente reservado para cuidar da vida de outra pessoa.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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