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LEITURA EM PARTESParte 3 de 10

PARTE 3

Na manhã seguinte, acordei antes do despertador. Durante alguns segundos, fiquei olhando para o teto branco do quarto de hotel sem lembrar onde estava. Então vi a mala perto da porta, a pasta de documentos sobre a mesa e tudo voltou de uma vez: o casamento, Marina grávida, a falsa certidão, dez anos reduzidos por Davi a uma espécie de serviço doméstico voluntário.

Tomei banho, coloquei uma roupa simples e fui ao cartório indicado no documento que eu guardara durante uma década. Não precisava de uma revelação dramática. Eu só precisava confirmar com meus próprios olhos o que Davi tivera prazer em anunciar diante de centenas de pessoas.

A funcionária pesquisou os dados que forneci. Pediu meus documentos, confirmou nomes e datas e voltou algum tempo depois com uma resposta curta, profissional e devastadora: não existia registro daquele casamento nos livros correspondentes.

Eu já sabia.

Mesmo assim, ouvir aquilo dentro de um cartório me atingiu de maneira diferente.

O papel que eu guardara com cuidado por dez anos, dentro de um plástico para não amassar, não provava casamento algum.

Saí dali com uma certidão de busca e marquei uma reunião com uma advogada indicada por uma conhecida. Seu nome era Renata. Contei tudo desde o início, sem tentar melhorar minha imagem nem piorar a de Davi. Coloquei a falsa certidão sobre a mesa e mostrei também os vídeos que alguns convidados tinham publicado da declaração dele.

Renata assistiu em silêncio.

— Uma coisa precisa ficar clara — disse quando terminou. — O fato de o casamento civil não existir não significa automaticamente que dez anos de convivência não tenham consequências jurídicas. Dependendo de como vocês viviam, pode existir discussão sobre união estável, patrimônio e responsabilidades.

Meu primeiro impulso foi de irritação.

— Então ele mente para mim durante dez anos e ainda pode alegar que vivíamos como casal quando for conveniente?

— Pode alegar muitas coisas. Alegar não é ganhar. E aquela declaração pública dele, dizendo que nunca quis casamento e que manteve você enganada com um documento falso, também tem peso como elemento de prova. Precisamos analisar tudo, sem prometer resultado antes da hora.

Aquilo não era a resposta simples que eu gostaria de ouvir.

Mas, pela primeira vez em muito tempo, alguém estava me tratando como adulta em vez de me dizer o que eu devia aceitar.

Contei então sobre a loteria.

Renata parou de escrever.

— Quanto?

Falei o valor aproximado.

Ela tirou os óculos, apoiou-os sobre a mesa e me observou por alguns segundos.

— Então nossa prioridade aumenta bastante.

Meu estômago apertou.

— Davi pode ficar com metade?

— Não vou lhe dar uma resposta irresponsável sem estudar datas, regime aplicável, circunstâncias da convivência e o momento exato em que essa relação terminou de fato. Não movimente esse dinheiro por impulso e não conte a ninguém além de quem for absolutamente necessário.

Assenti.

Era justamente o que eu precisava ouvir.

Naquela tarde, iniciei o procedimento para receber o prêmio da forma adequada, com acompanhamento profissional. Não comprei carro, não publiquei foto, não apareci usando joias. Depois de dez anos vivendo em função das necessidades de outras pessoas, meu primeiro luxo foi simplesmente não precisar explicar a ninguém onde eu estava.

Davi começou a ligar insistentemente no mesmo dia.

Na quinta tentativa, atendi.

— Finalmente — ele disse. — Onde você colocou meus documentos do carro?

— Na gaveta de sempre.

Silêncio.

— E os remédios da minha mãe?

— Não sei.

— Como assim não sabe?

— Eu não moro mais aí.

A pausa foi maior.

— Helena, não seja infantil.

Fechei os olhos.

Durante dez anos, aquela frase resolvera muitas discussões. Se eu discordava, era infantil. Se eu chorava, era dramática. Se eu perguntava demais, era insegura.

Dessa vez, não funcionou.

— Eu saí da casa, Davi.

— Você vai voltar.

— Não.

— Para onde você vai? Vai viver de quê?

Olhei para a janela do escritório da advogada.

— Isso não é mais problema seu.

Ele riu.

— Você não consegue nem organizar sua própria vida sem aquela casa.

— Talvez.

Minha voz continuou calma.

— Então chegou a hora de descobrir.

Desliguei antes que ele respondesse.

Nos dias seguintes, comecei a transferir para meu controle tudo o que era realmente meu: meu número de telefone, correspondências, senhas, documentos e despesas que estavam no meu nome. Algumas contas da casa haviam sido abertas por mim ao longo dos anos. Solicitei que fossem transferidas para o responsável que continuaria morando no imóvel, em vez de continuar pagando automaticamente por serviços que eu já não utilizava.

Foi aí que Davi percebeu a primeira consequência concreta da minha ausência.

Ele me mandou uma mensagem:

“Você cancelou o débito automático da internet?”

Respondi:

“Estava na minha conta. Pedi a transferência.”

Minutos depois:

“E a conta do mercado?”

“Não vou mais fazer compras para a casa.”

“Você está fazendo isso para me provocar?”

Demorei um pouco antes de responder.

“Não. Estou apenas deixando de administrar uma casa onde não moro.”

Ele não respondeu.

Célia, em compensação, ligou imediatamente.

— Você vai deixar tudo largado desse jeito?

— Não deixei largado. Vocês continuam morando aí.

— Mas você sabe como funcionam as coisas!

Quase ri.

Sim.

Eu sabia.

Eu sabia qual remédio ela tomava depois do café. Sabia qual marca de sabão Davi preferia. Sabia quando era preciso chamar alguém para limpar o ar-condicionado, quando o condomínio vencia, quais contas estavam em débito automático e até em qual gaveta ficavam os manuais dos eletrodomésticos.

Eles haviam transformado minha dedicação em obrigação.

Agora descobriam o quanto dependiam daquilo que chamavam de “nada”.

— A senhora pode aprender — respondi.

— Depois de tudo o que fizemos por você?

Olhei para a falsa certidão em cima da mesa.

— Justamente.

Desliguei.

Naquela noite, fui novamente ao hotel. Em vez de chorar pelo casamento que nunca existira, comecei a escrever numa folha tudo o que precisava resolver. Moradia. Documentos. Segurança financeira. Processo. Saúde. Rotina.

No topo, escrevi uma frase que parecia simples, mas que eu nunca praticara:

“Primeiro, Helena.”

No dia seguinte, encontrei um apartamento mobiliado para alugar por alguns meses. Não era luxuoso. Não precisava ser. Tinha uma sala pequena, uma cozinha clara e uma varanda de onde eu conseguia ver o céu entre os prédios de São Paulo.

Assinei o contrato temporário.

Quando recebi as chaves, fiquei sozinha no meio da sala vazia de objetos pessoais.

Eu poderia comprar praticamente qualquer coisa.

Mesmo assim, o que me fez chorar não foi o dinheiro.

Foi perceber que aquela era a primeira porta em dez anos cuja chave estava nas minhas mãos porque eu havia escolhido estar ali.

Davi ainda acreditava que eu voltaria.

Célia ainda achava que minha ausência era uma birra.

Marina provavelmente imaginava que bastaria esperar minha vergonha passar.

Nenhum deles havia entendido.

Eu não estava tentando assustá-los.

Eu estava indo embora de verdade.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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