
PARTE 4
Três dias depois, Davi apareceu no prédio onde eu estava morando.
Eu soube pela portaria. O interfone tocou pouco depois das sete da noite, e o porteiro informou que um homem chamado Davi Farias dizia ser meu marido.
Por um instante, quase achei engraçado.
— Ele disse exatamente isso?
— Disse, senhora Helena.
Olhei para a janela.
— Pode avisar que não autorizo a entrada.
Cinco minutos depois, meu celular tocou.
— Desce aqui.
— Não.
— Para de fazer cena.
— Você está diante de um prédio onde não mora, tentando entrar numa residência que não é sua. Quem está fazendo cena?
Ele respirou pesadamente.
— Precisamos conversar.
— Então fale.
— Por telefone?
— Foi você quem decidiu explicar nosso “casamento” diante de um salão inteiro. Não parece ter problema com conversas importantes fora de casa.
Houve silêncio.
Eu quase conseguia imaginar sua expressão.
— Minha mãe está enlouquecendo — disse finalmente. — A casa virou uma bagunça.
Não respondi.
— Marina não pode ficar fazendo tudo. Ela está grávida.
A frase me atingiu de uma maneira curiosa.
Não pela gravidez.
Mas porque, em menos de uma semana, o trabalho que Davi chamara de “voluntário” já parecia pesado demais quando precisou ser distribuído entre outras pessoas.
— Contratem alguém.
— Não é tão simples.
— É exatamente tão simples quanto você disse no casamento. Eu fazia porque queria. Agora não quero mais.
— Você está tentando se vingar.
— Não.
Cheguei perto da janela.
— Vingança seria eu fazer alguma coisa contra vocês. Estou apenas parando de fazer coisas por vocês.
Ele não conseguiu responder imediatamente.
Foi a primeira vez que percebi que Davi nunca aprendera a diferenciar essas duas coisas.
Na cabeça dele, minha disponibilidade era a ordem natural do mundo.
Quando eu a retirei, pareceu agressão.
— Você ainda tem coisas na casa — disse.
— Vou buscar com hora marcada.
— Não precisa dessa formalidade.
— Para você, talvez não.
Com orientação de Renata, eu havia decidido não entrar sozinha naquela casa enquanto a situação estivesse tão recente. Combinei um horário durante o dia e fui acompanhada por uma amiga de uma conhecida, apenas para não estar isolada. Não havia nada de heroico ou teatral nisso. Era simplesmente prudência.
Quando entrei, senti o cheiro familiar do corredor e precisei parar por alguns segundos.
Aquela casa havia sido meu universo.
No sofá estavam roupas dobradas pela metade.
Na bancada da cozinha, louça acumulada.
Uma sacola de supermercado permanecia aberta sobre a mesa.
Célia surgiu do quarto.
— Até que enfim.
Não respondi.
Ela apontou para a cozinha.
— Olha isso. Marina não sabe organizar nada.
— Então conversem com ela.
Célia me encarou como se eu estivesse falando outra língua.
— Você viveu aqui dez anos.
— Eu sei.
— Vai simplesmente jogar tudo fora?
Meu peito apertou.
Havia dor naquela pergunta, mas não era a dor que ela imaginava.
Eu não estava jogando dez anos fora.
Eu estava admitindo que eles já tinham sido usados.
— A senhora sabia? — perguntei.
Ela evitou meu olhar.
— Sabia o quê?
— Que a certidão era falsa.
A hesitação durou menos de dois segundos.
Foi suficiente.
— Helena, naquela época…
Levantei a mão.
— Não precisa.
Ela ficou pálida.
— Seu pai insistiu muito nesse casamento.
— Isso justifica falsificar um documento e me deixar acreditar durante dez anos que eu era legalmente casada?
— Nós achamos que, com o tempo, vocês iam se acertar.
Eu ri, sem humor.
— “Nós.”
Ali estava outra mudança.
Até aquele momento, uma parte de mim imaginara que a fraude tinha sido apenas uma decisão de Davi.
Célia acabara de deixar claro, com as próprias palavras, que ao menos conhecia a situação.
Eu não discuti.
Não precisava.
Peguei meus livros, algumas fotografias, roupas e pequenos objetos pessoais. Antes de sair, retirei do armário uma caixa que continha lembranças dos últimos dez anos.
Davi entrou em casa quando eu estava fechando a última mala.
Parou na porta.
— Você trouxe gente para tirar suas coisas?
— Trouxe alguém para me acompanhar.
— Está com medo de mim agora?
Olhei para ele.
— Não. Só parei de confiar.
A frase pareceu incomodá-lo mais do que qualquer acusação.
Ele olhou para as malas.
— Vai mesmo levar tudo?
— Tudo que é meu.
— E nós?
Por um segundo, não compreendi.
— O quê?
— Dez anos não somem porque eu disse uma coisa num casamento.
Pousei a mão sobre a alça da mala.
— Você não “disse uma coisa”. Você contou que me enganou durante dez anos.
— Eu não te traí durante dez anos.
— Não precisa tentar melhorar a frase.
Ele desviou o olhar.
— Marina aconteceu depois.
— Três anos atrás.
Silêncio.
— Então durante sete anos você viveu comigo sabendo que eu acreditava num casamento que você sabia não existir. Depois começou um relacionamento com minha melhor amiga. E continuou chegando em casa, deixando camisa para eu passar e perguntando o que tinha para o jantar.
Ele apertou a mandíbula.
— Você está simplificando.
— Não. Pela primeira vez estou parando de complicar para proteger você.
Peguei a mala.
Quando passei por ele, Davi falou mais baixo:
— O que você pretende fazer com aquela certidão?
Parei.
Então entendi o verdadeiro motivo de sua presença.
Não eram as roupas.
Não era a casa.
Nem sequer eram nossos dez anos.
Era o medo das consequências.
Virei-me.
— Descobrir tudo o que foi feito com ela.
Seu rosto mudou.
— Helena, não precisa envolver advogado.
— Já envolvi.
A expressão dele endureceu.
— Você quer dinheiro?
A pergunta me fez encará-lo durante alguns segundos.
Se ele soubesse.
Se soubesse que, naquele momento, dinheiro era justamente a última coisa que eu precisava arrancar dele.
— Não — respondi. — Eu quero que você pare de decidir sozinho o que esses dez anos significam.
Saí.
Naquela noite, Marina me mandou uma mensagem pedindo para conversar pessoalmente.
Minha primeira vontade foi ignorar.
Depois pensei melhor.
Durante três anos, aquela mulher soubera alguma coisa que eu desconhecia.
Agora eu queria ouvir não uma desculpa, mas a versão que ela tivera coragem de construir para si mesma.
Aceitei encontrá-la num café público na manhã seguinte.
Marina chegou quinze minutos atrasada.
Sem vestido de noiva, sem maquiagem elaborada e sem Davi ao lado, parecia diferente.
Sentou-se diante de mim e pousou as mãos sobre a barriga.
— Eu sei que você me odeia.
— Não vim aqui para discutir sentimentos.
Ela respirou fundo.
— Davi me dizia que vocês não eram um casal de verdade.
— Vocês moravam juntos? — perguntei.
— Não.
— Dormiam em quartos separados?
Ela desviou os olhos.
— Eu não sei.
— Ele chegava em casa?
Silêncio.
— Eu sabia que ele morava com você.
— Você entrou naquela casa várias vezes.
Ela apertou os dedos.
Era verdade.
Marina tomara café comigo naquela cozinha. Sentara-se no sofá. Recebera presentes de aniversário que eu escolhera enquanto Davi estava no trabalho.
— Ele disse que o casamento era falso — continuou.
— E isso tornou aceitável esconder de mim que você dormia com o homem que eu acreditava ser meu marido?
Ela não respondeu.
Pela primeira vez, a expressão segura do casamento desapareceu completamente.
— Eu achei que ele fosse contar.
— Durante três anos?
— Eu…
Levantei-me.
Não havia mais nada que eu precisasse ouvir.
Marina também se levantou.
— Helena, você vai tentar separar a gente?
Olhei para ela.
— Não.
Ela pareceu surpresa.
— O quê?
— Eu não quero Davi.
Peguei minha bolsa.
— O problema de vocês agora é descobrir se ainda querem um ao outro quando ninguém mais estiver segurando a vida de vocês por trás.
Saí do café sem olhar para trás.
Durante anos, eu imaginara que perder Davi seria o pior que poderia acontecer comigo.
Agora comecei a entender outra coisa.
Talvez o pior tivesse sido passar tanto tempo acreditando que mantê-lo era uma vitória.
A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇














