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LEITURA EM PARTESParte 8 de 10

PARTE 8

Oito dias depois, o advogado de Davi pediu nova reunião.

Dessa vez, eles não rejeitaram o acordo.

Apresentaram uma contraproposta.

Alguns valores foram questionados. Certas cláusulas foram reescritas. Havia divergências sobre despesas e sobre a forma de reconhecer as contribuições feitas ao longo da convivência.

Mas uma coisa havia mudado.

Davi já aceitava discutir uma solução definitiva que encerrasse as pretensões patrimoniais de ambos.

Renata percebeu antes de mim.

— Ele está negociando agora — disse depois da reunião. — Antes, ele estava tentando assustar você.

— Por que mudou?

— Pode ser custo, risco, orientação do advogado, exposição das próprias contradições ou tudo isso junto. Não precisamos adivinhar.

Essa frase se tornou uma regra para mim.

Durante anos, eu gastara energia tentando adivinhar o que Davi pensava.

Por que chegava tarde?

Por que estava irritado?

Por que parecia distante?

Por que respondia daquela maneira?

Agora eu trabalhava apenas com aquilo que ele realmente fazia.

E suas ações mostravam que queria encerrar a disputa sem permitir que todas as questões fossem examinadas por tempo indefinido.

Enquanto os advogados negociavam, outra mudança aconteceu.

Marina deixou definitivamente a casa de Célia.

Não soube por fofoca.

Ela mesma me contou.

Mandou uma mensagem curta:

“Não estou voltando para lá. Não sei ainda o que farei sobre o Davi.”

Li e deixei o celular sobre a mesa.

Não senti vitória.

Dias depois, ela me ligou.

— Minha mãe disse que eu devia parar de falar com você.

— Talvez ela tenha razão.

Marina soltou um riso triste.

— Você sempre foi assim?

— Assim como?

— Mais calma do que eu esperava.

Pensei no casamento.

— Não. Naquele dia eu só estava em choque.

— Eu fui cruel.

Não respondi.

Ela continuou:

— Aquela frase… de que a outra era você.

Meu estômago apertou.

— Eu lembro.

— Eu disse porque queria acreditar que, se o casamento de vocês era falso, então eu não estava fazendo nada errado.

Sua voz falhou.

— Mas eu sabia que você não sabia.

Fechei os olhos.

Era a primeira vez que ela admitia aquilo de forma tão clara.

— Sim — respondi.

— Eu sinto muito.

As palavras chegaram tarde.

Talvez tarde demais para nossa amizade.

Mas eram diferentes das justificativas anteriores.

— Obrigada por dizer.

— Você me perdoa?

Olhei para a varanda.

O céu estava cinza.

— Não sei.

Ela respirou fundo.

— Tudo bem.

— Talvez um dia eu perdoe. Talvez não. Mas mesmo que eu perdoe, isso não significa que voltaremos a ser amigas.

Houve silêncio.

— Eu entendo.

Quando desligamos, percebi que algo dentro de mim havia se acomodado.

Não porque Marina pedira desculpas.

Mas porque eu conseguira aceitar um pedido de desculpas sem me sentir obrigada a oferecer reconciliação em troca.

Mais tarde, Célia apareceu no escritório de Renata sem marcar horário.

Renata me ligou antes de permitir qualquer encontro.

Eu aceitei vê-la numa sala com a advogada presente.

Célia entrou carregando a bolsa junto ao peito.

Parecia menor do que no casamento.

Sentou-se e demorou a falar.

— Davi disse que você quer levar isso até o fim.

— Quero resolver.

— Ele está muito nervoso.

— Eu também fiquei, quando descobri que meu casamento não existia.

Ela abaixou os olhos.

— Eu não pensei que chegaria nisso.

— A senhora sabia da certidão.

Célia fechou os dedos sobre a bolsa.

— Eu sabia que não tinha sido registrado daquele jeito.

— E nunca me contou.

Ela permaneceu em silêncio.

Renata não interferiu.

— Por quê? — perguntei.

Célia respirou fundo.

— Porque no começo eu achei que vocês fossem terminar logo. Depois você começou a cuidar da casa, Davi se acostumou… e eu pensei que talvez fosse melhor deixar tudo como estava.

Fiquei olhando para ela.

A explicação era pior justamente porque era tão simples.

Não havia grande conspiração.

Não havia plano elaborado.

Havia conveniência.

Eles descobriram que meu engano funcionava para eles e decidiram não corrigi-lo.

— Dez anos — falei.

Célia assentiu lentamente.

— Eu sei.

— Não, a senhora não sabe.

Minha voz não subiu.

— A senhora sabe o número. Quem viveu fui eu.

Ela enxugou os olhos.

Pela primeira vez, não senti vontade de consolá-la.

Isso também era novo.

— Eu vim pedir para você não acabar com a vida do meu filho.

Respirei.

— Eu não estou acabando com a vida dele. Estou deixando que ele responda pelas próprias decisões.

— Ele pode ter problemas sérios.

— Eu também tive.

Célia não conseguiu responder.

Antes de ir embora, colocou sobre a mesa o cartão bancário que tinha jogado em mim no casamento.

— Eu não devia ter feito aquilo.

Olhei para o cartão.

— Não.

Ela o guardou novamente.

— Você não quer mesmo nada?

— Da senhora?

— Sim.

Pensei.

— Quero que pare de me procurar para resolver coisas que pertencem à vida de vocês.

Ela assentiu.

Dessa vez, parecia ter entendido.

Quando saiu, Renata fechou a porta.

— Como você está?

— Cansada.

— Isso foi difícil.

— Foi.

Passei as mãos pelo rosto.

— Mas também foi libertador.

Dias depois, a contraproposta final chegou.

Havia concessões dos dois lados.

Eu não receberia tudo o que, em alguns cenários, poderia tentar buscar.

Davi também renunciaria a pretensões que poderia tentar sustentar.

O acordo não apagaria a investigação relacionada ao documento falso, que seguia caminho próprio conforme as autoridades competentes.

Mas resolveria a disputa patrimonial.

Principalmente, deixaria claro que, depois de validado, nenhum de nós poderia aparecer anos depois reivindicando os bens do outro abrangidos pelo ajuste.

Incluindo meu prêmio.

Li cada página.

Fiz perguntas.

Pedi alterações em duas cláusulas.

Não assinei porque alguém disse que era “bom o suficiente”.

Assinei apenas quando compreendi o que estava aceitando.

Renata sorriu.

— Tem certeza?

Pensei durante alguns segundos.

— Tenho.

Do outro lado da negociação, Davi também precisava assinar.

Ainda faltava a etapa final.

Mas naquele momento percebi que a fortuna que eu ganhara não era a única coisa que eu tinha aprendido a proteger.

Eu estava finalmente protegendo minha própria decisão.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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