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LEITURA EM PARTESParte 7 de 10

PARTE 7

Depois que Davi soube da loteria, o tom das conversas mudou.

Não apenas o dele.

O advogado que o representava passou a insistir com mais força na discussão patrimonial. A convivência de dez anos, que no salão de casamento tinha sido apresentada como uma fantasia unilateral minha, agora ganhava palavras diferentes: “núcleo familiar”, “vida em comum”, “esforço compartilhado”.

Era quase admirável a velocidade com que uma história podia mudar quando apareciam centenas de milhões no fim da frase.

Renata não demonstrou surpresa.

— Não discuta diretamente com ele — orientou. — Vamos responder juridicamente ao que for necessário e continuar tratando a falsificação separadamente.

— Eu fico com raiva só de ler.

— Raiva não é um problema. Só não deixe a raiva tomar decisões.

Eu estava aprendendo isso.

Durante anos, eu tivera medo de sentir raiva porque Davi sempre a transformava em prova de que eu era irracional.

Agora entendia que sentir não era o mesmo que agir sem pensar.

A apuração relacionada ao documento falso seguia seu próprio ritmo.

Não houve prisão cinematográfica.

Não apareceu uma autoridade milagrosa para resolver tudo em vinte minutos.

Houve depoimentos, conferência de registros, análise do papel e perguntas sobre como aquela certidão tinha sido produzida e utilizada.

Fui chamada para relatar novamente o que acontecera.

Contei.

Davi também precisaria explicar sua versão.

Essa simples realidade parecia perturbá-lo profundamente.

Ele me mandou uma mensagem:

“Você está tentando destruir minha vida.”

Fiquei olhando para a tela.

Depois respondi apenas:

“Estou contando o que aconteceu.”

Foi suficiente.

Ele escreveu vários parágrafos.

Não li todos.

Encaminhei para Renata.

Enquanto isso, comecei a tomar decisões que nada tinham a ver com ele.

Por indicação de uma instituição séria, matriculei-me num curso de gestão financeira voltado para pessoas que precisavam compreender patrimônio e investimentos. Eu poderia contratar especialistas para sempre, mas depois de uma década sendo mantida fora de decisões importantes, queria entender meu próprio dinheiro.

Na primeira aula, senti vergonha ao não compreender alguns termos.

Quase desisti.

Depois pensei em quantas vezes Davi me chamara de incapaz.

Voltei na semana seguinte.

E na outra.

Pouco a pouco, comecei a fazer perguntas sem medo de parecer ignorante.

Descobri que ignorância não era uma identidade.

Era apenas um ponto de partida.

Também comecei a cozinhar de maneira diferente.

Durante anos, eu preparava os pratos preferidos de Davi e Célia. Se eu queria alguma coisa que eles não gostavam, quase nunca fazia.

Numa noite, cozinhei apenas para mim.

Sentei-me à mesa escolhida por mim, diante de uma janela que eu escolhera, num apartamento que eu escolhera.

A refeição ficou salgada demais.

Eu comecei a rir sozinha.

Era uma liberdade ridiculamente simples.

Do outro lado da cidade, as consequências das decisões de Davi continuavam se acumulando.

Marina permanecia na casa da mãe.

Ela me procurou novamente, mas desta vez não para perguntar por Davi.

— Posso te fazer uma pergunta?

— Pode.

— Ele mentia muito para você?

Parei.

Eu poderia responder de dezenas de maneiras.

— Eu não sei.

Ela pareceu surpresa.

— Como assim?

— Quando você descobre uma mentira de dez anos, começa a questionar coisas que antes pareciam verdade. Mas eu não vou inventar outras mentiras só porque agora desconfio dele.

Marina ficou em silêncio.

— Por que está perguntando?

— Porque ele está dizendo que eu estou exagerando.

— Sobre o quê?

— Eu disse que não quero morar com Célia.

Assenti, embora ela não pudesse me ver.

— Essa decisão é sua.

— Ele diz que eu estou destruindo a família antes do bebê nascer.

Fechei os olhos.

Reconheci a lógica.

Transformar o limite de outra pessoa em agressão.

— Marina, eu não sou a pessoa certa para aconselhar seu relacionamento.

— Eu sei.

Ela respirou.

— Só queria entender como você ficou dez anos.

A pergunta doeu mais do que eu esperava.

— Um dia de cada vez.

Foi a única resposta que consegui dar.

Não nos tornamos amigas novamente.

Eu não esqueci a traição.

Mas também parei de precisar que Marina sofresse para validar o que ela havia feito comigo.

Se ela escolhesse permanecer com Davi, seria decisão dela.

Se saísse, também.

Minha vida já não dependeria de nenhuma dessas opções.

Algumas semanas depois, houve nova reunião de negociação.

Davi entrou acompanhado do advogado e se sentou do outro lado da mesa.

Não parecia dormir bem.

Renata apresentou uma proposta para resolver determinadas questões civis sem prolongar indefinidamente uma disputa patrimonial. O texto reconhecia que havia controvérsia sobre a natureza jurídica da convivência, tratava de valores e contribuições comprováveis e previa renúncias recíprocas a determinadas pretensões futuras, desde que o acordo fosse validado pelos procedimentos adequados.

O ponto principal para mim era simples.

Eu não queria passar anos discutindo cada panela, cada transferência e cada mês da minha vida.

Queria encerrar.

Davi leu.

Seu advogado leu.

Então ele olhou para mim.

— Você quer que eu abra mão de qualquer pretensão sobre seu prêmio.

— Quero que cada um fique com o que for definido no acordo e que isso termine.

— Você ganhou quando ainda morava comigo.

— E você declarou no dia seguinte que nosso casamento era falso e que nunca quis estar casado comigo.

— Não é tão simples.

— Concordo.

Inclinei-me um pouco para frente.

— Por isso estamos com advogados.

Ele apertou a mandíbula.

— Se eu não assinar?

Renata respondeu:

— A discussão continua e será decidida pelos meios legais competentes. Com todas as provas de ambos os lados examinadas.

Davi olhou novamente para mim.

— Você acha que vai ganhar.

— Não sei.

Minha resposta o surpreendeu.

— Então por que está tão tranquila?

— Porque já parei de depender do resultado para saber quem eu sou.

Ele ficou em silêncio.

A reunião terminou sem acordo.

Mas houve uma mudança importante.

Pela primeira vez, Davi percebeu que eu estava realmente disposta a deixar a Justiça decidir, mesmo que isso demorasse, em vez de ceder apenas para evitar conflito.

E eu percebi algo sobre ele.

Davi sempre fora corajoso quando tinha certeza de que eu recuaria.

Agora que eu não recuava, sua confiança desaparecia rapidamente.

Na saída, seu advogado pediu alguns dias para avaliar a proposta.

Renata assentiu.

Quando entramos no elevador, ela me perguntou:

— Tudo bem?

Pensei um pouco.

— Acho que sim.

— “Acho”?

Sorri.

— Estou aprendendo a não fingir certeza quando não tenho.

As portas do elevador se fecharam.

Eu ainda não sabia qual seria o resultado final.

Mas sabia que, independentemente dele, minha vida já tinha começado a avançar numa direção que Davi não controlava.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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