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LEITURA EM PARTESParte 9 de 10

Parte 9

Quando a data da etapa final foi marcada, Rafael ficou olhando para o calendário durante vários minutos.

Não havia surpresa.

Ele sabia que aquele dia chegaria.

Ainda assim, ver a data escrita transformava a separação em algo concreto.

Mariana também recebeu a confirmação.

Leu a mensagem, fechou o celular e continuou embalando o filho.

A mãe, que estava por perto, perguntou:

— Ficou nervosa?

Mariana pensou antes de responder.

— Um pouco.

— Tem certeza?

Ela sorriu sem alegria.

— Ter certeza não significa não sentir nada.

Nos dias que antecederam a conclusão, Rafael manteve a rotina.

Não faltou a nenhuma visita.

Não voltou a pedir reconciliação.

Mas carregava uma pergunta que ainda não tinha feito.

Na véspera, enviou uma mensagem.

“Podemos conversar alguns minutos quando eu levar o bebê amanhã? Não é para mudar sua decisão.”

Mariana demorou a responder.

“Podemos.”

No dia seguinte, Rafael devolveu o filho no fim da tarde.

Mariana o colocou no berço e voltou para a sala.

— Pode falar.

Rafael permaneceu de pé.

— Eu queria saber se existe alguma coisa que você ainda precise ouvir de mim antes de tudo terminar.

Mariana cruzou os braços.

— Por que está perguntando?

— Porque durante muito tempo minhas desculpas eram tentativas de fazer você voltar. Não eram só desculpas.

Ela compreendeu.

— E agora?

— Agora eu sei que você não vai voltar.

A frase saiu sem ressentimento.

— Então posso falar sem esperar que você me recompense.

Mariana sentou-se.

Rafael fez o mesmo, mantendo distância.

— Eu menti quando saí do hospital.

Ela assentiu.

— Sei.

— Não porque estivesse tendo um caso. Mas porque eu sabia que a verdade era vergonhosa.

Mariana ficou quieta.

— Se eu tivesse dito: “A mulher por quem fui apaixonado na faculdade voltou e eu quero ir buscá-la”, eu teria ouvido a mim mesmo. Teria sido obrigado a admitir o que estava fazendo.

Ele esfregou as mãos.

— Então inventei uma emergência de trabalho. E depois continuei inventando.

Mariana respirou fundo.

— Por que ficou tanto tempo com ela?

Rafael olhou para o chão.

Era a pergunta que ela nunca fizera diretamente.

Talvez porque, por muito tempo, a resposta já não importasse.

— Porque perto dela eu me sentia como o homem que era antes de ter responsabilidades.

Mariana franziu a testa.

Ele continuou:

— Não é bonito. Nem romântico. Eu tinha um filho nascendo, uma esposa precisando de mim, uma vida que exigia que eu crescesse. E de repente apareceu alguém ligado a uma época em que eu só precisava pensar em mim.

Mariana ouviu sem interromper.

— Eu confundi nostalgia com amor — Rafael disse. — E usei a fragilidade dela para justificar minha própria vontade de fugir.

Mariana abaixou os olhos.

A explicação não apagava nada.

Mas tinha uma honestidade que as primeiras justificativas nunca tiveram.

— Eu pensei durante meses que talvez tivesse feito alguma coisa errada — ela confessou.

Rafael levantou a cabeça.

— O quê?

— Antes do parto. Durante a gravidez. Eu pensava se você estava infeliz e eu não tinha percebido.

— Não.

A resposta dele foi imediata.

— Mariana, não.

Ela ergueu a mão.

— Hoje eu sei.

Rafael ficou em silêncio.

— Mas no hospital eu pensei. Depois, quando você começou a sumir, pensei de novo. Quando soube da Helena, pensei que talvez eu tivesse passado anos vivendo num casamento que só existia para mim.

— Não era assim.

— Eu sei.

Ela olhou para ele.

— Essa é uma das coisas que eu precisei reconstruir sozinha. Entender que a escolha que você fez dizia sobre você, não sobre o meu valor.

Rafael sentiu os olhos arderem.

— Eu sinto muito por ter feito você questionar isso.

— Eu também.

Não havia crueldade na resposta.

Apenas verdade.

A conversa durou quase uma hora.

Pela primeira vez, eles falaram sobre o casamento inteiro sem tentar decidir quem venceria.

Mariana reconheceu que houve anos bons.

Rafael reconheceu que os anos bons não davam a ele crédito infinito para uma falha grave.

Ele perguntou se ela algum dia poderia perdoá-lo.

Mariana respondeu:

— Acho que já estou começando.

Rafael ficou surpreso.

— Então…

Ela balançou a cabeça.

— Não confunda perdão com retorno.

— Não vou.

E não confundiu.

Na manhã seguinte, encontraram-se para concluir as formalidades.

Mariana chegou primeiro.

Rafael chegou poucos minutos depois.

Sentaram-se próximos, mas não juntos.

Os pontos principais foram revisados mais uma vez.

Nada de novo apareceu.

Nenhuma revelação.

Nenhuma disputa repentina.

Era exatamente o que deveria ser: o encerramento jurídico de algo que emocionalmente já havia terminado meses antes.

Antes da assinatura final, fizeram uma pausa para esclarecer uma questão prática ligada à rotina do filho.

Rafael olhou para Mariana.

— Podemos manter como combinamos?

— Podemos.

— E quando ele estiver maior, revemos.

— Sim.

Ele respirou fundo.

Ali estava o futuro que ainda teriam em comum.

Não como marido e mulher.

Como pai e mãe.

Rafael percebeu que, durante meses, tratara o divórcio como a perda de tudo.

Mas não perderia o filho.

Não perderia a chance de cumprir sua responsabilidade.

Não perderia todos os anos bons que tinham existido.

Perderia, sim, o direito de chamar Mariana de esposa.

E aquela consequência precisava permanecer inteira.

Ao saírem, os dois caminharam até a calçada.

— Amanhã você busca ele às dez? — Mariana perguntou.

— Às dez.

— Não às dez e quinze.

Rafael sorriu.

— Às nove e cinquenta e cinco.

Ela também sorriu.

Foi um sorriso pequeno, mas verdadeiro.

Então se despediram.

Rafael entrou no carro.

Mariana ficou na calçada.

Nenhum dos dois sabia exatamente como seria a vida dali a um ano.

Mas, pela primeira vez, isso não parecia uma ameaça.

Restava apenas uma última etapa.

Não nos documentos.

Entre eles.

A conversa em que Mariana deixaria claro, sem advogados, sem familiares e sem o bebê no colo, qual seria o lugar de Rafael na vida dela dali em diante.

E Rafael sabia que, dessa vez, teria de ouvir até o fim.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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