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LEITURA EM PARTESParte 6 de 10

Parte 6

Durante as semanas seguintes, a relação entre Rafael e Mariana se transformou numa coisa que nenhum dos dois conhecia ainda.

Eles não eram um casal.

Mas também não eram dois estranhos.

Havia um bebê entre eles, horários definidos, consultas médicas, noites mal dormidas, fraldas, mamadas e uma quantidade enorme de pequenas decisões que precisavam ser tomadas mesmo quando a vontade de conversar era nenhuma.

Rafael começou a compreender que ser pai não acontecia nos grandes gestos.

Acontecia às sete em ponto.

Acontecia quando o bebê chorava sem motivo óbvio.

Acontecia quando uma visita precisava ser encurtada porque o filho estava cansado.

Acontecia quando Mariana dizia que o pediatra mudara uma orientação e ele precisava prestar atenção em vez de apenas concordar.

Ele aprendeu aos poucos.

Não porque alguém o salvou da própria incompetência.

Porque passou a perguntar.

Em uma das visitas, a mãe de Mariana ficou na sala enquanto a filha tomava banho.

Rafael estava com o bebê nos braços quando percebeu que a sogra o observava.

— Pode falar — disse.

Ela não fingiu que não sabia do que ele tratava.

— O que você quer que eu diga?

— O que estava tentando me dizer naquele dia.

A mãe de Mariana demorou.

— Na primeira ligação, eu queria que você voltasse porque o médico tinha decidido pela cesariana.

Rafael manteve os olhos no filho.

— E na segunda?

— Mariana estava com medo.

A resposta foi simples.

Ele ergueu a cabeça.

— Ela perguntou por mim?

— Perguntou.

A sogra apertou os dedos uns contra os outros.

— Eu disse que você tinha saído para resolver uma emergência e que voltaria logo. Foi a mentira que você tinha me contado. Não queria que ela entrasse na cirurgia achando que o marido tinha simplesmente ido embora.

Rafael sentiu um peso no estômago.

— Ela acreditou?

— Na hora, sim.

— Quando descobriu?

— Não fui eu que contei.

Ele franziu a testa.

— Ela perguntou a você.

A sogra assentiu.

— Alguns dias depois. Disse que você estava estranho. Eu não queria esconder. Perguntei se ela sabia quem tinha voltado para o Brasil. Ela ficou me olhando, e eu percebi que já desconfiava.

Rafael passou a língua pelos lábios secos.

— Eu nunca tive nada com Helena.

— Talvez isso seja verdade.

— É verdade.

A mãe de Mariana respondeu sem alterar o tom:

— Então deveria facilitar para você entender que o problema não é uma traição que ninguém está acusando.

O bebê se mexeu nos braços dele.

Rafael olhou para o pequeno rosto adormecido.

— Eu fui um idiota.

— Foi.

A resposta imediata quase o fez sorrir.

Mas a sogra não estava brincando.

— Só que não adianta transformar isso numa frase bonita e esperar que Mariana cuide da sua culpa — ela completou. — Ela já está cuidando de coisa demais.

Rafael guardou aquelas palavras.

Nos dias seguintes, diminuiu as mensagens sobre o casamento.

Passou a falar principalmente sobre o filho.

Quando precisava alterar um horário, avisava com antecedência.

Quando Mariana pedia que comprasse alguma coisa para o bebê, perguntava a marca e o tamanho em vez de aparecer com o produto mais caro.

Pareciam detalhes insignificantes.

Para Mariana, não eram.

A primeira mudança real aconteceu quando ela precisou ir a uma consulta do pós-parto.

Até então, a mãe a acompanhava sempre.

Naquela semana, porém, a mãe tinha um compromisso que não podia cancelar.

Mariana mandou uma mensagem para Rafael.

“Você consegue ficar com ele por duas horas na quinta?”

A resposta chegou em menos de um minuto.

“Consigo. Que horário?”

Quando Rafael apareceu, Mariana lhe entregou uma bolsa.

— Tem duas fraldas, roupa extra, lenço, pomada. O leite está na geladeira. Se ele…

Rafael interrompeu com cuidado.

— Eu anotei a rotina da última vez.

Ela o observou.

— Anotou?

Ele mostrou o celular.

Havia horários, quantidades aproximadas e algumas observações.

Mariana ficou alguns segundos sem saber o que dizer.

— Se mudar alguma coisa, me liga.

— Pode deixar.

Duas horas depois, ela voltou.

Encontrou Rafael andando lentamente pela sala com o bebê adormecido no peito.

Ele colocou um dedo diante dos lábios.

— Demorou quarenta minutos para pegar no sono.

Mariana deixou a bolsa sobre uma cadeira.

— Chorou muito?

— O suficiente para eu achar que ele me odiava.

Ela soltou uma risada curta.

Foi a primeira risada espontânea entre os dois desde o parto.

Rafael sorriu também.

Por um instante, alguma coisa antiga pareceu voltar.

Mas Mariana foi a primeira a reconhecer o perigo.

Pegou o bebê com cuidado.

— Obrigada por ficar com ele.

Rafael entendeu o limite.

— De nada.

Na mesma semana, a advogada de Mariana recebeu a resposta do advogado contratado por Rafael.

Ele não contestava o divórcio.

Pedia apenas ajustes na organização da convivência com o filho e nas questões financeiras.

Quando Mariana soube, releu a mensagem duas vezes.

Parte dela esperava que ele transformasse tudo numa disputa.

Outra parte talvez até precisasse disso para continuar com raiva.

Mas Rafael não fez.

Na visita seguinte, ela perguntou:

— Você decidiu não contestar?

— Decidi.

— Por quê?

Ele respirou fundo.

— Porque você estava certa quando disse que eu não posso obrigar você a continuar casada.

Mariana não esperava ouvir aquilo.

— Não significa que eu queira o divórcio — ele acrescentou. — Mas quero parar de piorar as coisas só porque não gosto da consequência.

Ela assentiu.

Era pouco para reconstruir um casamento.

Mas era suficiente para mudar a natureza do conflito.

Rafael estava deixando de lutar para recuperar o que acreditava possuir e começando a enfrentar o que havia perdido.

Alguns dias depois, Helena entregou as chaves do apartamento.

Ela e Rafael se encontraram pela última vez no imóvel vazio.

— Para onde você vai? — ele perguntou.

— Aluguei um lugar pequeno. Dá para mim.

— Precisa de ajuda?

Helena balançou a cabeça.

— Não desse jeito.

Ele entendeu.

Antes de sair, ela parou junto à porta.

— Rafa, eu sinto muito pelo que aconteceu.

— Eu também.

— Mas não passe os próximos anos dizendo que perdeu sua família porque eu voltei.

Ele ergueu os olhos.

— Você não perdeu porque eu voltei. Perdeu porque, naquele dia, você quis ser o homem que corria atrás de mim no aeroporto em vez do homem que tinha uma esposa numa sala de parto.

A porta se fechou.

Rafael ficou sozinho no apartamento vazio.

Dessa vez, não havia como atribuir a decisão a Helena.

Ele entregou o imóvel à administradora naquela mesma semana.

Depois foi ver o filho.

Quando Mariana abriu a porta, Rafael não falou sobre Helena.

Não falou sobre o casamento.

Apenas entrou no horário combinado e lavou as mãos antes de pegar o bebê.

No fim da visita, Mariana colocou diante dele uma pasta.

— A advogada marcou uma reunião para alinharmos os termos finais.

Rafael olhou para a pasta.

— Quando?

— Sexta-feira.

Ele passou a mão sobre a capa sem abrir.

— Você vai mesmo até o fim.

Mariana respondeu com a mesma calma que vinha construindo havia semanas:

— Vou.

E, pela primeira vez, Rafael acreditou nela sem tentar encontrar uma forma de mudar sua decisão.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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