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LEITURA EM PARTESParte 4 de 10

Parte 4

Quando Rafael ficou parado no meio da sala vazia, segurando a proposta de divórcio, a primeira sensação foi de incredulidade.

A segunda foi raiva.

Não de si mesmo.

Ainda não.

— Dona Lúcia, quando ela levou tudo isso?

A empregada apertou as mãos diante do avental.

— Foi aos poucos, senhor. Hoje vieram buscar as últimas coisas.

— E você não pensou em me avisar?

A pergunta saiu mais dura do que ele pretendia.

Dona Lúcia recuou um pouco.

— Eu achei que o senhor soubesse.

A resposta atingiu Rafael de forma inesperada.

Achou que ele soubesse.

Que tipo de marido não perceberia que a esposa estava desmontando a própria vida dentro da casa onde moravam?

Ele pegou o celular e ligou para Mariana.

Ela atendeu depois de alguns toques.

— Oi.

A tranquilidade da voz dela o desorientou.

— O que é isso?

— Você precisa ser mais específico.

— A casa está vazia. Tem uma proposta de divórcio na minha mão. Você levou nosso filho embora sem falar comigo.

— Eu falei que iria para a casa da minha mãe.

— Você disse que ficaria lá por um tempo.

— E agora estou dizendo que não pretendo voltar.

Rafael andou de um lado para o outro.

— Mariana, você enlouqueceu? Nosso filho acabou de nascer.

Ela respirou fundo.

— Exatamente.

— Então volta para casa e a gente conversa como adultos.

— Eu estou conversando como adulta.

— Você colocou papéis de divórcio numa mesa e desapareceu.

— Eu não desapareci. Você sabe onde eu estou. Você sabe meu telefone. E já falei várias vezes que pode ver seu filho.

Rafael parou.

Aquela era a parte que mais o incomodava.

Mariana não estava impedindo nada.

Ela não gritava, não ameaçava, não usava o bebê para puni-lo.

Isso tornava muito mais difícil dizer que ela estava agindo por impulso.

— Eu não traí você — ele disse.

Houve uma pausa curta.

— Eu nunca disse que traiu.

— Então por que está fazendo isso?

Mariana olhou para o berço montado no quarto da casa da mãe.

— Porque casamento não é só fidelidade sexual, Rafael.

Ele apertou a folha entre os dedos.

— Você quer destruir uma família por causa de quinze dias?

A voz dela mudou.

Não ficou mais alta.

Ficou mais firme.

— Não foram quinze dias.

— Claro que foram.

— Foram cinco segundos.

Rafael franziu a testa.

— O quê?

— Os cinco segundos em que você olhou para a porta da sala de parto e decidiu sair.

Ele não respondeu.

Mariana continuou:

— Os quinze dias só me ajudaram a entender que aquela escolha não foi um acidente.

A ligação terminou alguns minutos depois, sem solução.

Rafael passou a noite sozinho no apartamento.

Pela primeira vez percebeu quantos sons eram de Mariana.

O choro do bebê.

Os passos dela no corredor.

A torneira do banheiro durante a madrugada.

A voz chamando dona Lúcia.

Tudo tinha desaparecido.

As rosas permaneceram sobre a mesa.

No dia seguinte, ele foi até a casa da sogra sem avisar.

A mãe de Mariana abriu a porta, mas não permitiu que entrasse de imediato.

— Vim ver meu filho.

— Mariana sabe que você está aqui?

— Eu sou o pai.

— E ninguém está dizendo o contrário.

A frase era tão parecida com a de Mariana que Rafael perdeu parte da força com que chegara.

A sogra chamou a filha.

Mariana apareceu alguns minutos depois, segurando o bebê.

Ela vestia roupas simples, o cabelo preso e ainda se movia com cuidado.

Rafael sentiu um desconforto ao notar que ela parecia mais frágil fisicamente do que recordava.

Durante aquelas duas semanas, ele quase não reparara nisso.

— Posso entrar? — perguntou.

Mariana abriu passagem.

Não houve discussão.

Ela colocou o filho nos braços dele e mostrou como apoiar a cabeça.

Rafael ficou olhando para o bebê.

O menino abriu os olhos por alguns segundos e depois voltou a fechá-los.

— Ele cresceu.

Mariana respondeu:

— Bebês fazem isso.

A secura da frase não tinha crueldade.

Tinha distância.

Rafael ficou cerca de uma hora.

Quando o bebê começou a chorar, ele tentou acalmá-lo. Não conseguiu. Mariana o pegou e imediatamente verificou a fralda, depois o colocou para mamar.

Rafael percebeu que não sabia os horários, não sabia quanto o filho dormia, não sabia como segurá-lo durante uma cólica.

Na cabeça dele, tinham sido apenas quinze dias.

Nos braços de Mariana, pareciam muito mais.

Antes de sair, Rafael voltou ao assunto.

— Eu não vou assinar aquilo.

— Você não é obrigado a concordar com a proposta.

— Nem com o divórcio.

Mariana ajeitou a manta do bebê.

— Você pode discordar dos termos. Mas não pode me obrigar a continuar casada.

Ele a encarou.

— Você nem tentou salvar nosso casamento.

Foi a primeira vez que Mariana demonstrou algo parecido com raiva.

— Eu pedi que você ficasse.

— Uma noite.

— Não, Rafael. Eu pedi que você ficasse quando eu estava entrando em trabalho de parto. Pedi sem saber que estava pedindo. Depois pedi quando voltei da maternidade. Depois pedi naquela noite. Quantas vezes uma mulher precisa pedir a presença do próprio marido antes de poder parar?

Ele desviou os olhos.

Mariana continuou, mais baixa:

— Eu não quero que você deixe de ser pai. Quero que seja pai de verdade. Mas isso é diferente de ser meu marido.

Rafael saiu dali sem ter conseguido nenhuma das coisas que pretendia.

Não convencera Mariana a voltar.

Não arrancara dela nenhuma promessa.

E, pela primeira vez, carregava uma pergunta que não podia afastar culpando o cansaço dela ou o pós-parto.

Se ele realmente acreditava que não tinha feito nada grave, por que lembrava com tanta clareza dos cinco segundos diante da porta da sala de parto?

Naquela noite, Helena telefonou.

Rafael viu o nome dela na tela.

O dedo ficou sobre o botão de atender.

Mas dessa vez ele não tocou.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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