Stories · Emotions · Life

LEITURA EM PARTESParte 2 de 10

Parte 2

O celular permaneceu virado para baixo sobre a bancada da cozinha. Helena percebeu o movimento de Rafael, mas não perguntou nada. Ele abriu uma garrafa de água, colocou um copo diante dela e disse que deveria descansar. Quando o telefone tocou pela terceira vez, ele saiu para o corredor e finalmente atendeu.
— Onde você está? — a mãe de Mariana perguntou, sem cumprimentá-lo. — Levaram sua esposa para a cesariana. Rafael, ela perguntou por você antes de entrar.
O peito dele apertou, mas a primeira reação foi procurar uma justificativa. Disse que estava resolvendo um problema urgente, que tentaria chegar o quanto antes. Do outro lado, a sogra demorou um pouco para responder. — Seu filho está nascendo. Não existe reunião mais urgente do que isso.
Quando Rafael chegou ao hospital, horas depois, o bebê já estava no quarto. Mariana permanecia deitada, pálida, exausta, com movimentos cuidadosos por causa da cirurgia. O filho dormia num pequeno berço transparente ao lado da cama. Rafael se aproximou com um sorriso inseguro. — Ele é lindo.
Mariana apenas concordou com a cabeça. Não perguntou por que ele demorara tanto. A mãe dela, porém, encarou Rafael com uma frieza que ele nunca tinha visto. — Sua empresa resolveu o problema? — perguntou. Ele respondeu que sim e desviou os olhos.
Naquela noite, Rafael ficou pouco tempo. Disse que precisava terminar o que havia começado e prometeu voltar cedo no dia seguinte. Mariana segurava o bebê contra o peito quando perguntou, quase num sussurro: — Você vai mesmo? Ele ajeitou a camisa. — É só hoje. Amanhã fico com vocês.
Mas, na manhã seguinte, Helena telefonou dizendo que tinha acordado assustada, que ainda não conseguia organizar a própria vida e precisava conversar. Rafael passou no hospital, ficou quarenta minutos e saiu. Mariana viu o marido beijar a testa do filho, conferir o relógio e desaparecer pelo corredor.
Nos dias seguintes, o padrão se repetiu. Rafael aparecia com frutas, fraldas, algum presente comprado às pressas e sempre uma explicação pronta sobre trabalho. Ficava uma hora, às vezes duas, depois saía. Mariana não discutia. Limitava-se a observar.
Quando recebeu alta, ela voltou para casa com a mãe. Rafael prometera estar lá para buscá-la, mas enviou uma mensagem pouco antes dizendo que uma reunião se prolongara. A mãe de Mariana chamou um carro e levou a filha e o neto. Durante todo o trajeto, Mariana não disse uma palavra.
Naquela noite, Rafael chegou depois das onze. Encontrou Mariana sentada na sala, amamentando. Aproximou-se, beijou o alto da cabeça dela e perguntou se estava tudo bem. — Onde você esteve? — Mariana perguntou.
Ele respondeu rápido demais. — Trabalhando. Mariana levantou os olhos. — Durante todos esses dias? Rafael soltou o ar pelo nariz, já irritado com o tom. — Eu estou tentando resolver várias coisas ao mesmo tempo.
Mariana ficou alguns segundos em silêncio, então perguntou: — Helena voltou? A expressão dele mudou antes que pudesse controlar. Foi apenas um pequeno movimento, mas ela percebeu.
— Voltou — admitiu. — O relacionamento dela acabou. Ela está passando por uma fase difícil. Não tem ninguém aqui.
Mariana olhou para o bebê em seus braços. — E eu tinha quem, Rafael? A pergunta saiu baixa, sem acusação aparente. Isso o incomodou mais do que um grito teria incomodado.
— Não começa a transformar isso numa coisa que não é. Eu só estou ajudando uma pessoa que conheço há anos. Não aconteceu nada entre nós. Mariana não perguntou se havia acontecido alguma coisa. — Eu estava tendo seu filho.
Rafael passou a mão pelo rosto. — Eu sei. E estou aqui agora. — Agora? — ela repetiu. — Você chama isso de estar aqui?
O bebê se mexeu e Mariana ajustou a manta com cuidado. Quando tornou a falar, sua voz estava diferente. Já não havia cobrança. — Se eu pedir que você fique em casa esta noite, você fica?
O celular de Rafael vibrou dentro do bolso. Ele tirou o aparelho e viu o nome de Helena na tela. Hesitou. — Ela não está bem. Eu só vou passar lá e volto.
Mariana assentiu devagar. Algo em seu rosto pareceu se apagar. — Tá bom.
Rafael esperou uma discussão que não veio. — Tá bom? — repetiu.
Ela ajeitou o filho contra o peito e voltou os olhos para ele. — Pode ir, Rafael.
Naquela noite, pela primeira vez desde que saíra da sala de parto, Rafael sentiu um desconforto difícil de explicar. Ainda assim, pegou as chaves e saiu. Atrás dele, Mariana não chamou seu nome nem uma única vez.
Obrigado por ler até aqui 🙏 A próxima parte já está na seção de comentários da página. Clique em “Ver todos os comentários” para ler a Parte 3 👇📖

DESCUBRA MAIS

Histórias mais recentes

Comece sempre pela Parte 1