
Parte 5
Helena ligou novamente meia hora depois.
Rafael atendeu.
— Você sumiu — ela disse. — Está tudo bem?
Ele olhou para a sala vazia.
— Mariana pediu o divórcio.
Do outro lado, Helena ficou calada.
— Por minha causa?
A pergunta irritou Rafael.
— Não sei.
— Rafa, eu preciso saber.
— Ela acha que eu abandonei ela quando nosso filho nasceu.
— Você saiu do hospital para me buscar.
A simplicidade com que Helena disse aquilo o incomodou.
— Você estava sozinha.
— E ela estava dando à luz.
Rafael passou a mão pela testa.
— Não começa.
— Eu não estou começando nada.
A voz de Helena não tinha doçura naquele momento.
— Você me disse que precisava resolver uma coisa no hospital e depois voltaria. Eu achei que sua esposa ainda levaria horas. Só depois entendi que você perdeu o nascimento.
Rafael ficou quieto.
Helena continuou:
— Eu estava mal, sim. Mas eu não pedi que você ficasse comigo quinze dias.
Ele sentiu a irritação voltar.
— Então agora a culpa é toda minha?
— Eu não estou distribuindo culpa. Estou dizendo que não vou servir de desculpa.
A frase permaneceu com Rafael mesmo depois que a ligação terminou.
Na manhã seguinte, ele foi trabalhar.
Era a primeira vez em duas semanas que realmente passava um dia inteiro no escritório.
Tudo continuava funcionando.
Havia problemas, reuniões, cobranças e decisões esperando por ele, mas nenhum desastre semelhante àquele que usara para justificar sua saída da maternidade.
A constatação foi desagradável.
Rafael percebeu que mentira para Mariana de maneira quase automática.
Não porque precisasse esconder uma emergência real.
Mentira porque dizer “estou indo buscar Helena” teria soado errado até para ele.
No fim do expediente, não foi ao apartamento onde Helena estava.
Foi à casa da sogra.
Dessa vez, avisou antes.
Mariana autorizou a visita.
Quando chegou, encontrou o bebê acordado.
Ela entregou o filho a Rafael e se sentou na poltrona ao lado.
— Ele mamou há pouco. Se começar a se contorcer, provavelmente é porque precisa arrotar.
Rafael tentou seguir as orientações.
Errou a posição.
Mariana corrigiu sem ironia.
Depois de alguns minutos, o bebê soltou um arroto pequeno, e Rafael sorriu involuntariamente.
— Consegui.
Mariana quase sorriu também.
Quase.
Aquele instante foi suficiente para fazê-lo acreditar que ainda existia uma porta aberta.
— Mari…
Ela ergueu os olhos.
— Não.
— Você nem sabe o que eu ia dizer.
— Sei.
— Eu queria pedir desculpas.
Mariana respirou fundo.
— Então peça.
Rafael não esperava aquilo.
Imaginara resistência, talvez uma discussão. Em vez disso, ela simplesmente lhe dera espaço para falar.
— Eu errei quando saí do hospital.
Mariana esperou.
— E errei ficando fora depois.
Ela continuou esperando.
Rafael percebeu que a frase estava incompleta.
— Eu deveria ter estado com você.
Mariana assentiu.
— Deveria.
— Desculpa.
— Eu ouvi.
Ele franziu a testa.
— Só isso?
— O que você espera que eu faça?
— Não sei. Que diga alguma coisa.
— Sua desculpa é importante. Mas não apaga o que aconteceu.
Rafael apertou a boca.
— Então não adianta pedir desculpas?
— Adianta para você assumir o que fez. Não significa que eu precise voltar.
A conversa terminou ali.
Na saída, Rafael se sentiu frustrado.
Mas a frustração era diferente.
Antes, ele se irritava porque Mariana não entendia suas justificativas.
Agora começava a perceber que ela entendia muito bem.
Apenas não as aceitava.
Durante a semana seguinte, Rafael passou a visitar o filho em horários combinados.
No segundo dia chegou vinte minutos atrasado.
Mariana não discutiu.
Apenas disse que o bebê já tinha iniciado a rotina de sono e que precisariam encurtar a visita.
Aquilo o incomodou.
— Foram vinte minutos.
— Para você.
Ele entendeu a mensagem.
Na visita seguinte, chegou dez minutos antes.
Helena, por outro lado, começou a procurar uma nova moradia por conta própria.
Quando Rafael apareceu no apartamento onde ela estava, encontrou algumas caixas já fechadas.
— Você vai embora?
— Vou.
— Não precisa.
Helena riu sem humor.
— Preciso, sim.
— Por causa da Mariana?
— Por minha causa.
Ela se sentou no braço do sofá.
— Eu voltei para cá achando que você ainda era a pessoa que eu conhecia aos vinte e poucos anos. E talvez você também tenha olhado para mim e enxergado alguém que não existe mais.
Rafael não respondeu.
— Nós nunca tivemos uma vida juntos — Helena continuou. — Tivemos uma história interrompida. Não é a mesma coisa.
Ele olhou para a janela.
Durante anos, guardara Helena numa parte intocável da memória.
Não lembrava das incompatibilidades.
Não lembrava das vezes em que ela escolhera outros planos.
Não lembrava de nada difícil.
Guardara apenas a versão perfeita de algo que nunca chegara a acontecer.
— Eu achei que ainda sentia alguma coisa — confessou.
— Talvez sentisse.
Helena deu de ombros.
— Mas sentir alguma coisa não lhe dava o direito de deixar sua mulher sozinha numa sala de parto.
Não havia acusação na voz dela.
Isso tornou a frase mais pesada.
— E você? — Rafael perguntou. — Por que me ligou?
Helena demorou.
— Porque eu sabia que você viria.
A honestidade doeu nos dois.
— Foi egoísmo — ela completou. — Eu estava assustada. Queria alguém que me conhecesse. Mas depois eu percebi o tamanho do que estava acontecendo e deveria ter colocado um limite também.
Rafael ficou olhando para ela.
Pela primeira vez, a imagem da mulher idealizada e a mulher real se separaram dentro dele.
Helena não era uma vilã.
Nem uma grande paixão predestinada.
Era alguém do passado que voltara num momento vulnerável.
A escolha de transformar aquilo no centro da própria vida fora dele.
Quando saiu do apartamento, Rafael não sentiu uma libertação dramática.
Sentiu vergonha.
No sábado, durante a visita ao filho, ele pediu a Mariana que conversassem por alguns minutos.
— Helena vai sair do apartamento.
Mariana ajeitou a bolsa do bebê.
— Isso é problema de vocês.
— Não existe “nós”.
Ela ergueu os olhos.
Rafael percebeu como a frase soava.
— Quero dizer… nunca aconteceu nada.
— Rafael, você ainda está tentando provar a coisa errada.
Ele ficou em silêncio.
— Eu não pedi divórcio porque precisava descobrir se você beijou Helena — Mariana explicou. — Pedi porque, quando precisei saber qual era a sua prioridade, você respondeu com ações.
Ele assentiu lentamente.
Dessa vez não argumentou.
Antes de ir embora, colocou o bebê no berço portátil.
— Posso vir terça às sete?
Mariana verificou a agenda no celular.
— Pode. Mas sete em ponto. Às oito ele começa a rotina para dormir.
— Vou chegar.
Ela o encarou por um instante.
— Tá bom.
Rafael saiu.
Não tinha reconquistado a esposa.
Mas havia feito algo que deveria ter feito desde o início.
Assumira um compromisso concreto.
Na terça-feira, às seis e cinquenta e cinco, ele estava diante da porta.
E, quando o relógio marcou sete, Mariana abriu.
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