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LEITURA EM PARTESParte 10 de 10

 

Parte 10

A conversa aconteceu três dias depois.

Não foi marcada como uma despedida.

Rafael havia levado o filho de volta depois de passar a manhã com ele e, antes de sair, Mariana perguntou:

— Você tem alguns minutos?

Meses antes, aquela pergunta teria despertado esperança.

Agora Rafael apenas respondeu:

— Tenho.

A mãe de Mariana estava no quarto com o bebê.

Os dois ficaram na sala.

Mariana sentou-se no mesmo sofá onde, meses antes, pedira ao marido que ficasse em casa por uma noite.

Rafael percebeu a coincidência.

Ela também.

— Eu queria terminar uma conversa que comecei aqui — Mariana disse.

Rafael sentou-se na poltrona em frente.

— Estou ouvindo.

— Naquela noite eu perguntei se você ficaria.

Ele assentiu.

— E eu fui embora.

— Foi.

Não precisavam reconstruir a cena.

Ela existia inteira na memória dos dois.

— Durante muito tempo, eu pensei que meu objetivo era fazer você entender como aquilo me machucou.

Mariana juntou as mãos sobre o colo.

— Depois percebi que isso não bastava.

Rafael manteve os olhos nela.

— O que bastava?

— Eu entender o que faria com a minha vida depois.

A resposta o surpreendeu.

Mariana continuou:

— Eu não queria que o resto da minha história fosse definido pelo pior dia do nosso casamento.

Rafael respirou fundo.

— Nem eu quero isso para você.

— Eu sei.

Ela olhou para a porta do quarto onde o filho dormia.

— Você mudou muito nesses meses.

Rafael não respondeu.

— Virou um pai presente. Aprendeu a cumprir horários. Aprendeu a ouvir. Parou de usar desculpas. Assumiu sua parte sem transformar tudo numa guerra.

Ele baixou os olhos.

— Demorei.

— Demorou.

A palavra não veio como castigo.

Veio como constatação.

— E é por isso que eu quero que você continue na vida do nosso filho — Mariana disse. — Quero que ele conheça o pai que você está tentando ser agora, não apenas o homem que não estava lá quando ele nasceu.

Rafael apertou os dedos.

— Obrigado.

— Mas eu também preciso que você entenda uma coisa sem deixar espaço para esperança errada.

Ele ergueu o rosto.

Mariana sustentou o olhar.

— Eu não vou voltar para o casamento.

Dessa vez, Rafael não sentiu o chão desaparecer.

A dor estava ali.

Mas já não vinha acompanhada de negação.

— Eu entendo.

— Não quero que você espere.

— Não vou esperar.

— Não quero que cada gesto seu como pai venha acompanhado da ideia de que um dia vai receber nosso casamento de volta como recompensa.

— Não vai.

Mariana respirou.

Parecia ter carregado aquelas frases havia muito tempo.

— E não quero que a gente passe os próximos anos se punindo.

Rafael assentiu.

— Também não.

Ela observou o homem à sua frente.

Ainda reconhecia nele o rapaz que conhecera anos antes.

O homem com quem se casara.

O marido que a fizera rir em tantas manhãs comuns.

E o homem que, no momento mais vulnerável de sua vida, saíra de um corredor de hospital para encontrar outra mulher.

Todas aquelas versões podiam existir ao mesmo tempo.

Não precisava transformar Rafael num monstro para justificar a própria decisão.

Também não precisava diminuir o que ele fizera para reconhecer suas mudanças.

— Eu perdoo você — Mariana disse.

Rafael ficou imóvel.

Ela continuou antes que ele respondesse:

— Não porque tenha sido pouco. E não porque você mereça automaticamente. Eu perdoo porque não quero continuar carregando raiva todos os dias.

Os olhos dele ficaram úmidos.

— Eu não sei o que dizer.

— Não precisa dizer nada.

Ele olhou para as próprias mãos.

— Eu também preciso pedir perdão por uma coisa.

Mariana esperou.

— Por ter tentado fazer você se sentir culpada por sair.

Ele respirou fundo.

— Quando encontrei a casa vazia, pensei que você estivesse destruindo nossa família. Demorei para admitir que você só tomou uma decisão depois que eu já tinha quebrado a confiança entre nós.

Mariana sentiu uma pressão no peito.

Não de dor.

De encerramento.

— Obrigada por dizer isso.

Do quarto veio um pequeno choro.

Os dois viraram a cabeça ao mesmo tempo.

Mariana sorriu.

— Seu filho acordou.

Rafael levantou.

— Nosso.

Ela olhou para ele.

— Nosso.

Foram até o quarto.

A mãe de Mariana já pegava o bebê no berço, mas Rafael se aproximou e estendeu os braços.

— Posso?

Mariana assentiu.

Ele pegou o filho.

O bebê encostou o rosto em seu peito.

Meses antes, Rafael não saberia como segurá-lo.

Agora ajustou a cabeça com naturalidade, verificou a fralda e começou a caminhar devagar pelo quarto.

Mariana observou em silêncio.

Não sentiu vontade de voltar.

E essa certeza já não vinha acompanhada de raiva.

Era apenas uma certeza.

O casamento acabara.

A família, porém, não precisava desaparecer.

Ela apenas teria outra forma.

Nas semanas seguintes, a nova rotina começou a se tornar comum.

Rafael buscava o filho nos dias combinados.

Às vezes Mariana já estava pronta na porta.

Às vezes precisavam conversar sobre horários, alimentação ou consultas.

Houve divergências.

Houve irritação.

Mas nenhum dos dois usou o passado como arma em cada desacordo.

Helena não voltou a ocupar espaço entre eles.

Rafael soube, por uma mensagem breve meses depois, que ela estava bem.

Respondeu desejando o mesmo.

E encerrou ali.

Não havia mais uma fantasia a perseguir.

Algum tempo depois, no fim de uma tarde de domingo, Rafael trouxe o filho de volta.

O menino estava maior, atento a tudo e começava a reagir com pequenos sons quando via a mãe.

Mariana abriu a porta.

— Como foi?

— Dormiu metade do tempo e sujou três fraldas no resto.

Ela riu.

— Então foi ótimo.

— Excelente.

Rafael entregou a bolsa.

— A roupa limpa está no compartimento de trás. A outra… melhor abrir longe do nariz.

— Informação importante.

Os dois riram.

Era simples.

Tão simples que meses antes pareceria impossível.

Rafael entregou o filho a Mariana.

O bebê segurou a gola da blusa dela.

— Semana que vem, mesmo horário? — Rafael perguntou.

— Mesmo horário.

Ele caminhou até o elevador.

Antes de entrar, olhou para trás.

Mariana estava à porta com o filho no colo.

Durante muitos meses, Rafael imaginara aquela cena de outra maneira.

Ele entrando de novo.

A família reunida.

O casamento restaurado.

Agora sabia que aquele final não lhe pertencia.

E, estranhamente, aceitar isso tornou possível algo mais digno do que insistir.

— Boa noite, Mariana.

— Boa noite, Rafael.

A porta do elevador se fechou.

Mariana voltou para dentro.

A casa da mãe já não parecia um abrigo temporário.

Era o lugar onde havia conseguido respirar quando tudo ficou pesado demais.

Em breve, quando se sentisse pronta, poderia decidir onde construiria a próxima etapa da vida com o filho.

Sem pressa.

Sem precisar provar nada.

Colocou o bebê no tapete da sala e se sentou ao lado dele.

O menino segurou seu dedo.

Mariana sorriu.

Meses antes, quando assinou os primeiros papéis, tinha acreditado que estava encerrando apenas um casamento.

Agora entendia que também estava recuperando uma coisa que havia deixado em segundo plano por tempo demais.

O direito de confiar na própria percepção.

O direito de dizer que uma ferida era grave mesmo quando outra pessoa insistia que era exagero.

O direito de reconhecer a mudança de Rafael sem ser obrigada a recompensá-la com uma segunda chance.

E, principalmente, o direito de decidir o que faria com a própria vida.

Do lado de fora, a tarde começava a escurecer.

Mariana pegou o filho no colo e caminhou até a janela.

Não sabia exatamente como seriam os próximos anos.

Mas já não precisava saber tudo.

Pela primeira vez desde aquela porta de maternidade, o caminho diante dela não dependia da escolha de Rafael.

Dependia da sua.

E isso bastava para começar de novo.

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