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LEITURA EM PARTESParte 3 de 10

Parte 3

A porta se fechou, e Mariana continuou sentada no sofá por mais alguns minutos, com o bebê adormecido contra o peito.

Ela não chorou imediatamente.

O cansaço era maior do que o choro.

A cicatriz da cesariana repuxava quando ela se levantava. Os seios doíam. Dormia em intervalos tão curtos que às vezes acordava sem saber se tinham passado vinte minutos ou duas horas. Até então, vinha tentando suportar aquilo repetindo para si mesma que Rafael estava trabalhando, que a empresa realmente podia estar enfrentando algum problema, que tudo voltaria ao normal quando a rotina se organizasse.

Agora já não precisava inventar desculpas por ele.

Helena havia voltado.

E Rafael a escolhera no momento em que Mariana mais precisava do marido.

Não era necessário descobrir uma traição para entender aquilo.

Na manhã seguinte, a mãe de Mariana encontrou a filha na cozinha, tomando café enquanto o bebê dormia no carrinho.

— Você descansou?

— Um pouco.

A mãe olhou para a sala.

— Rafael chegou?

Mariana mexeu lentamente a colher dentro da xícara.

— Ainda não.

A mulher apertou os lábios. Queria falar, mas esperou.

Mariana foi quem quebrou o silêncio.

— Mãe, se eu precisar ficar uns dias na sua casa, dá?

— Uns dias?

Mariana passou a mão pela borda da xícara.

— Talvez mais do que isso.

A mãe se sentou diante dela.

— Ele fez alguma coisa?

Mariana demorou a responder.

— Fez uma escolha.

Não explicou tudo naquela hora. Ainda não tinha forças para transformar cada ausência em uma narrativa. Apenas contou que Helena havia voltado e que Rafael vinha passando boa parte do tempo cuidando dela.

A mãe fechou os olhos por um instante.

— E ele saiu daqui ontem para ir atrás dela?

— Saiu.

— Depois de você pedir que ele ficasse?

Mariana assentiu.

A indignação da mãe veio imediata, mas Mariana interrompeu antes que ela começasse a falar.

— Eu não quero briga. Nem quero que você ligue para ele.

— Mariana…

— Eu só quero pensar com clareza.

Durante os três dias seguintes, Rafael apareceu em casa em horários cada vez mais irregulares.

Ele não percebia que alguma coisa havia mudado porque Mariana parara de perguntar.

Não queria saber onde ele estivera, com quem almoçara, quando voltaria ou por que passava tanto tempo ao telefone.

Rafael interpretou aquele silêncio como uma trégua.

Na realidade, Mariana estava tomando distância.

Ela começou pelo que era concreto.

Separou documentos pessoais. Organizou as roupas do bebê. Conferiu recibos, despesas, contas conjuntas e tudo que precisaria continuar sendo pago enquanto estivesse afastada do trabalho por causa da maternidade.

Não tentou esconder o que fazia.

Também não anunciou.

Rafael simplesmente não estava em casa tempo suficiente para perceber.

No quinto dia, ele apareceu no fim da tarde.

Mariana estava no quarto do bebê, dobrando pequenos macacões.

— Pensei que você estivesse dormindo — disse ele.

— Acabei de colocar o bebê para dormir.

Rafael encostou no batente da porta.

— A Helena começou a procurar apartamento. Acho que logo tudo se ajeita.

Mariana continuou dobrando uma peça de roupa.

— Que bom.

Ele franziu a testa.

— Você ainda está chateada?

Ela o encarou.

— Você acha que eu estou chateada porque Helena ainda não encontrou apartamento?

Rafael percebeu tarde demais que formulara a pergunta errada.

— Não foi isso que eu quis dizer.

— Então o que você quis dizer?

Ele entrou no quarto.

— Mariana, eu sei que não estive presente como deveria. Mas você também precisa entender que Helena acabou de sair de um relacionamento, voltou sozinha para o país e…

Mariana ergueu a mão.

Não com raiva.

Apenas para que ele parasse.

— Não.

Rafael ficou calado.

— Eu não preciso entender Helena. Ela não é minha esposa. Ela não estava comigo no hospital. Ela não é mãe do seu filho. Eu precisava entender você. E foi exatamente isso que eu fiz.

— O que isso quer dizer?

Mariana colocou o último macacão dentro da gaveta.

— Quer dizer que eu entendi qual é a minha posição na sua vida.

Rafael soltou uma risada breve, sem humor.

— Você está exagerando.

A frase acertou Mariana de um modo diferente das outras.

Até aquele momento, ela ainda guardava uma pequena esperança de que ele simplesmente não tivesse compreendido o tamanho do que fizera.

Mas Rafael compreendia.

Só considerava a dor dela excessiva.

— Talvez — respondeu.

Ele ficou esperando que viesse algo mais.

Não veio.

Mariana fechou a gaveta.

Dois dias depois, ela marcou uma consulta com uma advogada de família indicada por uma amiga antiga. Não pediu que ninguém resolvesse sua vida. Queria apenas entender quais eram suas opções e como organizar a guarda, a convivência com o bebê e as responsabilidades financeiras sem transformar tudo numa guerra.

A advogada explicou que divórcio, guarda e alimentos precisariam ser formalizados de maneira adequada, especialmente porque havia um recém-nascido envolvido. Disse também que um acordo era possível, desde que os dois participassem e que os interesses da criança fossem preservados.

Mariana ouviu tudo com atenção.

Quando saiu do escritório, não se sentia vingada.

Sentia-se cansada.

Mas, pela primeira vez desde o parto, aquele cansaço vinha acompanhado de uma direção.

Naquela mesma noite, Rafael voltou para casa sorrindo.

Trazia comida pronta e uma caixa de doces.

— Hoje eu consegui sair mais cedo.

Mariana estava amamentando no quarto.

Ele se sentou ao lado dela.

— Amanhã a gente podia jantar junto. Minha mãe também quer conhecer o bebê direito.

— Amanhã eu vou para a casa da minha mãe.

Rafael virou o rosto.

— Passar o dia?

— Não.

Ela sustentou o olhar dele.

— Vou ficar lá por enquanto.

A expressão de Rafael endureceu.

— Por causa de Helena?

— Por causa de você.

Ele se levantou.

— Mariana, isso está saindo do controle.

— Para mim, saiu do controle quando você deixou o hospital.

— Eu voltei.

— Depois que seu filho nasceu.

— Eu estava resolvendo uma situação excepcional.

Mariana quase respondeu, mas desistiu.

Aquela conversa começava a voltar para o mesmo lugar.

Então escolheu avançar.

— Eu já decidi.

Rafael olhou para o bebê.

— Você não pode simplesmente pegar meu filho e ir embora.

Mariana respondeu sem elevar a voz:

— Eu não estou tirando seu filho de você. Estou tirando a mim mesma de uma casa em que já não quero continuar.

A frase fez o quarto parecer menor.

Rafael deu dois passos para trás.

— Você está falando em separação?

Mariana demorou apenas o tempo necessário para ter certeza de que não responderia movida pela raiva.

— Estou dizendo que preciso sair daqui.

Na manhã seguinte, a mãe dela chegou cedo.

Dona Lúcia ajudou a organizar as primeiras caixas. Mariana não levou móveis naquela ocasião; apenas o necessário para ela e o bebê.

Rafael acompanhou tudo com uma inquietação crescente.

— Quanto tempo você vai ficar fora?

— Não sei.

— Uma semana?

Mariana fechou a bolsa do bebê.

— Não sei.

— Você não pode me deixar sem resposta.

Ela finalmente o encarou.

— Eu fiquei seis horas em trabalho de parto e depois entrei numa cirurgia sem saber onde meu marido estava. Acho que você consegue sobreviver alguns dias sem uma resposta.

Rafael abriu a boca, mas nada saiu.

Mariana pegou o bebê.

Passou por ele e deixou o apartamento.

Durante os dias seguintes, Rafael telefonou.

No começo, ela atendia.

Depois passou a responder apenas ao que dizia respeito ao filho.

Ele queria saber quando ela voltaria.

Mariana perguntava se ele queria visitar o bebê.

Ele insistia no casamento.

Ela voltava ao assunto do bebê.

Aquilo o enfurecia porque, pela primeira vez, não conseguia conduzir a conversa para onde queria.

No décimo segundo dia após o parto, Mariana voltou ao escritório da advogada.

Leu a minuta preparada.

Não havia vingança ali.

Nenhuma tentativa de impedir Rafael de ser pai.

Ela apenas não aceitava continuar sendo esposa de um homem que conseguira ouvir seu grito atrás da porta de uma maternidade e, mesmo assim, escolher outro caminho.

Mariana segurou a caneta.

A advogada perguntou:

— Tem certeza de que quer seguir?

Ela pensou no aeroporto que nunca vira.

No celular desligado.

Nas noites em que acordara sozinha para cuidar do filho.

E principalmente na última vez em que pedira que Rafael ficasse.

“Ela não está bem. Eu só vou passar lá e volto.”

Mariana assinou.

Três dias depois, antes de enviar a documentação pelos canais formais, decidiu deixar uma cópia no apartamento.

Não como armadilha.

Não como ameaça.

Como resposta.

Dona Lúcia estava na sala quando os últimos objetos foram retirados.

O berço desmontado.

O carrinho.

A cômoda.

As roupas.

A fotografia da gravidez.

Mariana observou a parede vazia e não sentiu satisfação.

Sentiu apenas que aquele apartamento já não era o lugar onde queria criar o filho.

Colocou o envelope sobre a mesa.

Depois foi embora.

Naquela mesma tarde, Rafael comprava um buquê de rosas a caminho de casa, convencido de que, finalmente, teria tempo para consertar as coisas.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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