
PARTE 9
A última parcela chegou numa manhã de terça-feira. Pouco depois, recebi a confirmação de que a transferência final das quotas havia sido registrada. Meu nome deixava oficialmente de fazer parte da sociedade.
Li a mensagem uma vez.
Depois outra.
Não havia euforia.
Apenas uma sensação de conclusão.
Oito anos de casamento tinham sido encerrados no cartório meses antes.
Agora terminava também o último vínculo financeiro relevante.
Caio mandou uma mensagem no começo da tarde.
“Terminou.”
Respondi:
“Sim.”
Alguns minutos depois, ele perguntou se eu ainda aceitava conversar.
Marcamos para o dia seguinte, em uma cafeteria tranquila que ficava longe do antigo bairro onde morávamos.
Cheguei primeiro.
Caio apareceu alguns minutos depois, sem terno, sem a postura confiante das fotos do casamento.
Sentou-se diante de mim.
Por alguns segundos, nenhum de nós falou.
Foi ele quem começou.
— Eu ensaiei essa conversa várias vezes.
— Então provavelmente ficou pior do que precisava.
Caio riu.
Foi um riso verdadeiro.
Talvez o primeiro entre nós desde o divórcio.
— Continua prática.
— Você já comentou isso algumas vezes.
Ele assentiu.
Depois ficou sério.
— Eu queria pedir desculpas.
Não respondi.
Caio continuou:
— Não por ter escolhido Marina. Seria desonesto fingir que eu não queria aquilo naquele momento. Mas pela maneira como eu transformei nosso casamento numa história simples demais para me sentir certo.
Olhei para ele.
— Que história?
— Que você não me amava. Que nosso casamento era apenas uma parceria. Que eu estava preso e que, quando Marina voltou, eu finalmente tive coragem de viver.
Ele respirou fundo.
— Era mais confortável pensar assim.
Eu não o interrompi.
— Depois do divórcio, quando você cancelou os cartões, fiquei furioso. Achei que queria me humilhar. Depois percebi que você tinha feito isso antes do casamento.
— Na saída do cartório.
— Eu sei.
Caio abaixou os olhos.
— E comecei a perceber quantas coisas eu tratava como minhas só porque você nunca reclamava.
A sinceridade não apagava o passado.
Mas eu podia reconhecê-la.
— Sua mãe também tratava.
— Sim.
— Sua irmã também.
— Sim.
Caio passou a mão pelo rosto.
— E eu deixei.
Ficamos em silêncio.
A cafeteria estava quase vazia.
— No dia em que levei Marina para casa — ele disse — eu achava que você faria uma cena.
— Eu percebi.
— Quando você colocou os documentos na mesa, eu fiquei com raiva.
— Também percebi.
— Eu queria que você tentasse me impedir.
Essa frase me surpreendeu.
— Por quê?
Caio demorou.
— Talvez porque eu quisesse provar que ainda significava alguma coisa para você.
Olhei para ele por alguns segundos.
— Você tinha acabado de entrar na nossa casa com outra mulher e pedir o divórcio.
Ele baixou os olhos.
— Eu sei.
— E ainda queria que eu lutasse por você?
— Quando você coloca assim, parece ridículo.
— Porque era.
Ele aceitou.
Não havia muito mais a dizer sobre aquilo.
Depois de alguns minutos, Caio perguntou:
— Você me amava?
Dessa vez, não desviei.
— Sim.
Ele ficou imóvel.
— Então por que nunca disse?
— Eu disse de muitas maneiras. Talvez não das maneiras que você queria.
— Eu não vi.
— Eu sei.
A resposta pareceu doer mais do que qualquer acusação.
Caio olhou para a xícara.
— Eu também amei você, Helena.
— Talvez.
Ele ergueu os olhos.
— Você não acredita?
— Acredito que você sentiu coisas por mim. Mas também acredito que passou anos comparando um casamento real com uma lembrança idealizada. Nenhuma pessoa real vence facilmente uma lembrança.
Caio não tentou negar.
Perguntei por Marina.
Ele pareceu surpreso.
— Estamos tentando fazer nosso casamento funcionar de verdade.
— Sem me usar como assunto?
Um sorriso cansado apareceu no rosto dele.
— Estamos aprendendo.
— Ótimo.
Não havia ironia.
Eu realmente preferia que encontrassem uma maneira adulta de viver a escolha que haviam feito.
Caio respirou fundo.
— Minha mãe parou de falar de você.
— Melhor para todos.
— Fernanda também.
— Melhor ainda.
Ele hesitou.
— Eu queria pedir desculpas pelo que elas disseram.
— Você não pode pedir desculpas por elas.
— Então peço por ter deixado.
Essa desculpa eu aceitei.
— Certo.
Caio me observou.
— Isso significa que você me perdoa?
Pensei.
— Significa que eu ouvi seu pedido de desculpas.
Ele assentiu.
— Justo.
Terminamos o café sem transformar aquilo em reconciliação.
Não houve mão segurando mão.
Não houve pedido para tentar novamente.
Não houve promessa de amizade.
Quando nos levantamos, Caio me acompanhou até a porta.
Na calçada, perguntou:
— Então agora acabou mesmo?
Olhei para ele.
— Agora acabou sem pendências.
Caio respirou fundo.
— Espero que você seja feliz.
— Eu também espero que você aprenda a ser responsável pela felicidade que escolheu.
Ele sorriu de leve.
— Isso soa muito como você.
— Talvez você esteja finalmente me conhecendo.
Nos despedimos.
Caminhei até meu carro sem olhar para trás.
Caio ficou parado alguns segundos antes de seguir na direção oposta.
Mais tarde, contou a Marina que havia conversado comigo.
Ela não perguntou se eu ainda o amava.
Não perguntou se ele queria voltar.
Apenas perguntou:
— Você conseguiu dizer o que precisava?
— Sim.
— E agora?
Caio olhou ao redor da sala.
Uma casa menos extravagante do que a vida que costumava exibir.
Contas organizadas.
Uma esposa real, com defeitos, limites e opiniões próprias.
Uma mãe que começava a entender que o filho podia dizer não.
Uma irmã que finalmente pagava as próprias despesas.
— Agora eu preciso viver com as escolhas que fiz — respondeu.
Marina assentiu.
— Então faça isso direito.
Naquela noite, no meu apartamento, arquivei os últimos documentos da empresa em uma caixa.
Fechei a tampa.
Guardei no armário.
Não senti necessidade de abrir novamente.
O passado finalmente estava onde deveria estar.
Atrás de mim.
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