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LEITURA EM PARTESParte 7 de 10

PARTE 7

Os pagamentos seguintes foram feitos sem atraso. A cada etapa, uma parte da minha participação era transferida conforme o contrato, e o vínculo entre mim e a empresa diminuía. O processo era lento, mas justamente por isso parecia definitivo.

Caio passou a tratar nossas conversas com mais cuidado.

Já não ligava para reclamar dos procedimentos.

Preferia mensagens objetivas.

Datas.

Documentos.

Valores.

Em determinado momento, percebi que haviam se passado quase duas semanas sem que eu pensasse nele fora de algum assunto administrativo.

Aquilo me surpreendeu.

Durante oito anos, Caio havia sido parte de quase todas as decisões importantes da minha rotina.

Agora, lentamente, deixava de ocupar espaço mental.

Lúcia, no entanto, ainda resistia.

Quando soube que mais uma parcela tinha sido paga, procurou Caio para dizer que ele estava “entregando patrimônio” para mim.

Dessa vez, ele não tentou explicar com delicadeza.

— Não estou entregando nada. Estou comprando.

— Você podia contestar.

— O quê?

— Tudo.

Caio olhou para a mãe.

— Ela abriu mão de discutir a casa e os carros quando nos divorciamos. Poderia ter complicado tudo. Não fez isso.

Lúcia fechou a expressão.

— Então agora você está defendendo sua ex-mulher?

— Estou dizendo o que aconteceu.

Era exatamente o tipo de frase que, meses antes, Caio teria evitado.

Fernanda ouviu parte da conversa e não interferiu.

Ela própria já havia parado de falar sobre os cartões.

Depois de algum tempo pagando suas contas, aquela antiga dependência começou a parecer menos natural até para ela.

Marina também havia mudado.

Ela deixou de acompanhar as discussões financeiras entre Caio e a família e começou a impor limites próprios.

Quando Lúcia tentava falar mal de mim, Marina encerrava o assunto.

— Eu não quero discutir Helena.

Isso incomodava Lúcia, que parecia preferir uma nova nora disposta a participar de sua antiga rivalidade.

Mas Marina tinha seus próprios problemas para resolver.

Seu casamento não estava destruído.

Também não era o conto de fadas que a festa havia vendido.

Ela e Caio começaram a fazer algo que provavelmente deveriam ter feito antes do casamento: conversar sobre expectativas reais.

Dinheiro.

Família.

Responsabilidade.

Espaço.

O fato de Caio ter me deixado por ela não significava que Marina queria herdar todas as obrigações que eu havia aceitado.

Um domingo, durante uma discussão sobre Lúcia, Marina perguntou:

— Por que você nunca disse não para sua mãe antes?

Caio ficou surpreso.

— Porque não precisava.

— Não. Porque outra pessoa absorvia a consequência.

Ele entendeu a referência.

— Helena deixava.

— E você gostava que ela deixasse.

Caio se levantou e foi até a janela.

— Você está defendendo ela demais.

— Não estou defendendo Helena. Estou tentando entender com quem me casei.

A frase ficou entre os dois.

Na mesma época, recebi uma notícia simples do banco: todos os antigos cartões adicionais estavam oficialmente encerrados, inclusive nos registros históricos de cartões ativos. Nenhuma cobrança nova poderia entrar por aquele caminho.

Olhei a confirmação por alguns segundos.

Era um detalhe administrativo.

Mas também parecia o encerramento de uma fase.

Lembrei de quantas vezes Caio havia saído com o cartão no bolso sem perguntar.

De quantas vezes Lúcia comprara algo e me agradecera como se eu fosse apenas a esposa que autorizava um privilégio do filho.

De quantas vezes Fernanda brincara dizendo que o “cartão do irmão” não tinha limite.

Nunca corrigi.

Talvez devesse ter corrigido.

Não por dinheiro.

Por limite.

No mês seguinte, a empresa passou por sua reunião periódica de sócios. Compareci porque ainda tinha participação e direitos correspondentes. Caio estava presente.

Foi uma reunião comum.

Resultados.

Planos.

Despesas.

Nenhum drama.

Quando terminou, um dos executivos comentou comigo:

— Faz tempo que a senhora não participa tão diretamente.

— Estou encerrando meu ciclo aqui — respondi.

Caio ouviu.

Depois, no corredor, perguntou:

— Você não pensa em manter uma parte pequena?

— Não.

— Mesmo sendo um bom investimento?

— Pode ser um ótimo investimento.

— Então por quê?

Pensei alguns segundos.

— Porque nem todo bom investimento vale a ligação emocional que vem junto.

Ele assentiu lentamente.

— Entendi.

Antes, Caio teria tentado argumentar.

Dessa vez, não.

Quando estávamos prestes a nos despedir, ele me chamou.

— Helena.

Virei.

— Eu falei com minha mãe sobre o casamento.

Esperei.

— Disse que ela não deveria ter falado de você daquele jeito.

— Certo.

— E falei para Fernanda parar de usar você como assunto nas redes sociais.

Aquilo me surpreendeu um pouco.

— Obrigada.

Caio enfiou as mãos nos bolsos.

— Eu deveria ter feito antes.

— Deveria.

Ele aceitou a resposta.

Não havia mais necessidade de aliviar a consciência dele.

Nas semanas seguintes, Fernanda realmente parou de fazer indiretas. Lúcia também deixou de me mandar mensagens.

O silêncio que veio depois não parecia vazio.

Parecia espaço.

Caio vendeu outro bem que não utilizava com frequência para antecipar parte das parcelas restantes da compra. Não fez isso porque eu exigi.

Fez porque queria terminar o processo mais cedo.

Marina apoiou a decisão.

— Quanto antes isso acabar, melhor para todo mundo — disse.

Caio concordou.

Mas, quando assinou os documentos da nova antecipação, percebeu que o término daquela negociação significava algo maior.

Quando comprasse a última parte, não haveria mais dividendos.

Mais reuniões.

Mais documentos.

Mais motivo financeiro para falar comigo.

O casamento terminara meses antes.

Mas aquele seria o verdadeiro fim do nosso contato regular.

Naquela noite, ele ficou muito tempo olhando para uma fotografia antiga guardada no celular.

Não era uma foto romântica.

Era uma imagem comum.

Nós dois sentados à mesa de casa, anos antes, durante um jantar simples.

Eu aparecia olhando para alguma coisa fora do enquadramento.

Ele sorria.

Caio ampliou a foto.

Depois apagou a tela.

Não tentou me ligar.

Pela primeira vez, parecia entender que arrependimento e direito de voltar eram coisas completamente diferentes.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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