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LEITURA EM PARTESParte 8 de 10

PARTE 8

A antecipação dos pagamentos reduziu bastante o prazo previsto no acordo. Restavam poucas etapas para que minha participação fosse totalmente transferida. Eu acompanhava o processo sem ansiedade. Quanto mais perto do fim, menos precisava lembrar por que havia começado.

Minha rotina já era outra.

Eu havia aprendido a ocupar os fins de semana sem organizar a agenda de uma família que não era mais minha.

Passei a visitar amigos que quase não via.

Voltei a ler com frequência.

Comecei a cozinhar apenas quando tinha vontade.

Nada disso parecia extraordinário visto de fora.

Para mim, era uma recuperação silenciosa.

Durante anos, eu acreditara que ser uma boa esposa significava reduzir a própria presença para diminuir conflitos.

Agora entendia que desaparecer dentro de uma relação não era prova de maturidade.

Era apenas desaparecimento.

Caio também enfrentava mudanças menos visíveis.

A relação com Lúcia ficou mais distante depois que ele começou a impor limites.

Não deixara de amar a mãe.

Mas parou de tratar cada pedido dela como obrigação imediata.

Fernanda, depois de alguma resistência, também começou a construir uma relação mais adulta com o irmão.

Pela primeira vez, ele conseguia encontrá-la sem que a conversa terminasse em pedidos ou cobranças financeiras.

Isso o fez perceber algo desconfortável.

Os cartões que parecera perder no divórcio não tinham apenas facilitado a vida.

Também haviam impedido conversas necessárias.

Marina foi quem mais insistiu para que ele encarasse isso.

— Você não precisa comprar paz para ser amado — disse uma noite.

Caio riu sem humor.

— Engraçado ouvir isso agora.

— Por quê?

— Porque durante anos eu achava que Helena era fria justamente porque ela não reclamava.

Marina apoiou o queixo na mão.

— Talvez ela só estivesse cansada de discutir antes mesmo de começar.

Caio não respondeu.

Aquela hipótese provavelmente doía porque fazia sentido.

Pouco tempo depois, recebi uma ligação do advogado que acompanhava a transferência societária. Restariam apenas duas parcelas após o pagamento daquele mês. Se tudo continuasse dentro do cronograma antecipado, o processo terminaria muito antes do previsto.

Agradeci e desliguei.

Na mesma tarde, Caio me enviou uma mensagem.

“Quando isso terminar, gostaria de conversar uma última vez. Sem falar de dinheiro.”

Fiquei olhando para a tela.

Minha primeira vontade foi recusar.

Depois pensei que uma conversa não me obrigava a nada.

Respondi:

“Quando terminar.”

Ele não insistiu.

Marina soube do pedido porque Caio contou.

— Você quer voltar com ela? — perguntou.

— Não.

— Tem certeza?

Caio pensou.

— Eu não tenho o direito de querer isso.

Marina franziu a testa.

— Não foi o que eu perguntei.

Ele ficou alguns segundos em silêncio.

— Não sei se sinto falta do casamento ou se finalmente entendi coisas que não enxergava.

Marina respirou fundo.

— Isso já é uma resposta.

Caio olhou para ela.

— Você se arrepende de ter voltado?

Dessa vez, foi Marina quem demorou.

— Eu me arrependo de ter acreditado que nosso passado bastava para construir o presente.

A frase não significou separação.

Mas marcou uma mudança.

Os dois pararam de tratar o casamento como prêmio de uma história interrompida.

Se quisessem continuar juntos, teriam de aprender a viver no presente.

Sem me usar como inimiga comum.

Sem transformar o passado em desculpa.

Nos meses anteriores, Marina havia suportado comparações de Lúcia e comentários de conhecidos sobre a velocidade do casamento. Ela começava a compreender que ocupar o lugar de outra mulher não era a mesma coisa que construir um lugar próprio.

Essa compreensão tornou sua relação com Caio mais dura, mas também mais honesta.

Certa tarde, Lúcia voltou a dizer que tudo era mais fácil antes.

Marina respondeu:

— Antes era mais fácil para vocês. Talvez não fosse para Helena.

Lúcia revirou os olhos.

— Você fala como se fosse amiga dela.

— Não sou.

Marina fez uma pausa.

— Mas não preciso odiá-la para ser sua nora.

Caio ouviu da cozinha.

Não interferiu.

A antiga aliança familiar baseada em me tratar como problema estava desaparecendo porque já não servia para manter nada unido.

Do meu lado, eu não sabia de nenhuma dessas conversas.

E isso era saudável.

Minha vida não precisava mais acompanhar cada mudança na vida deles.

O que chegou até mim foram apenas os assuntos que ainda exigiam minha assinatura.

Na penúltima etapa da transferência, encontrei Caio no escritório responsável pela documentação.

Ele estava mais magro do que no casamento.

Não parecia infeliz.

Apenas menos protegido por certezas.

Assinamos os papéis.

Enquanto aguardávamos as cópias, ele perguntou:

— Você está bem?

— Estou.

— De verdade?

Reconheci a mesma pergunta que uma amiga havia me feito meses antes.

Dessa vez, minha resposta saiu sem esforço.

— Sim.

Caio olhou para mim e sorriu de forma pequena.

— Dá para perceber.

Não senti prazer em ouvi-lo.

Também não senti tristeza.

Talvez aquilo fosse o que eu buscava desde o início.

Indiferença não.

Paz.

Quando saímos, ele se ofereceu para me acompanhar até o carro.

Aceitei.

Antes de nos despedirmos, disse:

— Falta uma etapa.

— Eu sei.

— Depois dela, conversamos.

Caio assentiu.

— Obrigado.

Entrei no carro.

Enquanto dirigia, percebi que não estava pensando no que ele queria dizer.

Meses antes, qualquer palavra dele teria peso suficiente para ocupar meu dia.

Agora, a última conversa era apenas uma conversa que aconteceria quando tudo estivesse terminado.

Essa mudança, mais do que qualquer contrato, mostrava o quanto eu havia avançado.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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