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LEITURA EM PARTESParte 4 de 10

PARTE 4

A resposta do contador chegou alguns dias depois. Minha participação poderia ser mantida normalmente, caso eu quisesse continuar recebendo os dividendos, ou poderia ser negociada de acordo com as regras previstas nos documentos da empresa. Não existia solução instantânea. Seria necessário avaliar o negócio, discutir valores e respeitar os procedimentos societários.

Foi exatamente o que eu queria ouvir.

Não buscava atalhos.

Pedi que ele preparasse uma documentação organizada e sugerisse um profissional independente para fazer a avaliação. Depois informei Caio, por escrito, que estava considerando vender minha participação e que preferia resolver tudo de maneira formal.

Ele me ligou menos de dez minutos depois.

— Vender para quem?

— Ainda não decidi.

— Helena, você sabe que colocar uma pessoa de fora na sociedade pode criar problemas.

— Por isso estou avisando antes.

A empresa não estava em crise. Também não existia nenhum segredo escondido nos livros. O problema era mais simples: Caio não queria imaginar um terceiro sócio ocupando o espaço que durante anos pertencera à esposa silenciosa que raramente opinava.

— Eu posso comprar sua parte — ele disse.

— Então faça uma proposta quando tivermos uma avaliação séria.

— Você precisa mesmo transformar isso em negócio?

Quase sorri.

— É uma empresa, Caio.

A frase encerrou a discussão.

Marina percebeu que ele estava mais tenso naquele período. Depois do casamento, ela esperava uma espécie de lua de mel emocional, uma fase em que os dois finalmente viveriam a história que haviam interrompido anos antes. Em vez disso, Caio passava noites revisando contas, falando com contador e tentando entender quanto custaria adquirir minha participação.

Ela não era responsável por aquilo, e eu não pretendia colocá-la no centro de um problema que existia antes de sua volta.

Mas a realidade não deixou de alcançá-la.

Em um jantar com Lúcia e Fernanda, a mãe de Caio voltou a falar de mim.

— Ela está fazendo isso de propósito. Sempre foi fria. Agora quer tirar dinheiro do Caio.

Marina pousou os talheres.

— Se a participação está no nome dela, então não é dinheiro do Caio.

Lúcia ficou em silêncio.

Fernanda olhou para o irmão.

Caio não defendeu a mãe.

Esse pequeno silêncio teve mais peso do que uma discussão.

Na semana seguinte, ele cancelou algumas despesas que pagava para Lúcia e avisou Fernanda que não poderia continuar bancando o mesmo padrão de antes. Não estava quebrado. Apenas precisava reorganizar prioridades, especialmente porque o casamento havia consumido uma quantia significativa e a possível compra da minha participação exigiria planejamento.

As duas reagiram mal.

Lúcia disse que Marina estava afastando Caio da família.

Fernanda afirmou que tudo havia começado depois que eu bloqueei “os cartões deles”.

Caio corrigiu:

— Não eram nossos.

A sala ficou quieta.

Talvez fosse a primeira vez que ele dizia aquilo em voz alta.

Do meu lado, a avaliação preliminar avançou. Recebi relatórios, fiz perguntas e conferi números. Não porque quisesse me vingar, mas porque eu havia passado anos deixando assuntos importantes nas mãos de outras pessoas em nome da tranquilidade doméstica.

Eu começava a entender que tranquilidade e ausência de conflito não eram a mesma coisa.

Durante nosso casamento, eu raramente dizia não.

Não porque fosse incapaz.

Mas porque parecia mais fácil.

Se Lúcia queria usar o cartão em uma viagem, eu não discutia.

Se Fernanda aparecia com uma compra cara, eu não perguntava.

Se Caio tratava meu limite como algo naturalmente disponível para ele, eu deixava.

Aos poucos, o silêncio virou hábito.

E o hábito deles virou sensação de direito.

Eu também tinha responsabilidade por ter permitido que aquilo durasse tanto.

Essa conclusão não me fazia culpada pelo comportamento dos outros, mas me ajudava a entender o que eu precisava mudar.

Quando o avaliador terminou a primeira etapa do trabalho, marcou uma reunião conosco. Caio apareceu sozinho. Sentou-se do outro lado da mesa e evitou meu olhar enquanto os números eram apresentados.

O valor estimado da minha participação era significativo.

Caio respirou fundo.

— Eu não consigo pagar isso à vista sem mexer em coisas que não quero mexer agora.

— Eu não pedi pagamento à vista.

Ele levantou os olhos.

— Então o que você quer?

— Uma saída justa.

Discutimos possibilidades.

Uma compra parcelada.

A entrada de outro investidor.

Ou a manutenção temporária da participação até que ele pudesse fazer a aquisição.

Nada foi decidido naquele dia.

Mas uma coisa mudou.

Caio deixou de falar comigo como se estivesse concedendo favores.

Pela primeira vez desde o divórcio, tratou a conversa como uma negociação entre duas pessoas com direitos equivalentes.

Ao sairmos, ele caminhou alguns passos ao meu lado.

— Você já tinha pensado em tudo isso antes de eu pedir o divórcio?

— Não.

— Então por que os documentos estavam prontos?

Parei.

Aquela pergunta havia ficado entre nós desde o dia em que Marina apareceu em casa.

— Porque eu sabia que, se algum dia você escolhesse ir embora, eu não queria ser a pessoa que imploraria para ficar.

Caio ficou em silêncio.

— Isso não significa que eu queria que você fosse.

Segui até meu carro.

Pela primeira vez, ele pareceu compreender que minha calma nunca significara ausência de sentimento.

Significava apenas que eu não pretendia perder a dignidade tentando manter alguém que já havia decidido partir.

Naquela noite, Caio voltou para casa e encontrou Marina esperando na sala.

Ela perguntou como havia sido a reunião.

Ele contou a verdade.

Falou do valor.

Do parcelamento possível.

E também da última frase que eu havia dito.

Marina ouviu sem interromper.

Depois perguntou:

— Você achava que ela não sentia nada por você?

Caio demorou a responder.

— Acho que era mais fácil acreditar nisso.

A resposta mudou alguma coisa entre os dois.

Não porque Marina tivesse deixado de amá-lo.

Mas porque, pela primeira vez, a história que sustentara o reencontro deles deixava de parecer tão simples.

Eu não tinha sido apenas a mulher fria ocupando o lugar errado.

E Caio começava a perceber que repetir essa versão por anos talvez tivesse servido para tornar suas próprias escolhas mais confortáveis.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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