
PARTE 2
Eu quase fechei o celular naquele instante, mas a transmissão de Fernanda continuou aparecendo entre as publicações dos nossos conhecidos. Não senti vontade de discutir, responder ou provar coisa alguma. Caio havia feito sua escolha, e eu havia feito a minha. O fato de eles transformarem o casamento em espetáculo não mudava mais nada na minha vida.
Horas depois, a festa começou a esvaziar. Os últimos convidados ainda circulavam pelo salão quando um funcionário do hotel se aproximou de Caio com a conta dos serviços contratados. Fernanda continuava transmitindo parte da comemoração, por isso algumas cenas acabaram registradas sem que ninguém percebesse a importância delas. Caio tirou do bolso o cartão preto que usava havia anos.
O funcionário passou o cartão uma vez e recebeu uma mensagem de transação recusada. Tentou novamente, pensando que poderia ser falha da máquina. Na segunda vez, o resultado foi o mesmo. Caio ainda sorria, mas agora olhava para o visor com atenção.
Na terceira tentativa, o funcionário chamou discretamente um superior. Depois de alguns minutos, voltou até Caio. — Senhor, o cartão está bloqueado pela titular. A frase foi dita em voz baixa, mas Fernanda estava perto o suficiente para ouvir.
Ela imediatamente encerrou a transmissão. Marina ficou ao lado de Caio, sem dizer nada, enquanto Lúcia perguntava o que estava acontecendo. Caio pegou o cartão da mão do funcionário e observou o próprio nome impresso como usuário adicional. Então pareceu lembrar da ligação que eu havia feito ao sair do cartório.
Ele tentou o cartão que Lúcia carregava. Também estava bloqueado. Fernanda procurou o dela na bolsa, mas nem chegou a entregá-lo ao funcionário depois de ouvir o que havia acontecido. Os três pertenciam à mesma conta principal.
— Liga para ela — Lúcia disse imediatamente. Caio não respondeu. Marina olhou para o marido e perguntou, em voz baixa, se o cartão realmente era meu. Ele demorou alguns segundos antes de admitir que sim.
Meu celular tocou pouco depois das onze da noite. Vi o nome de Caio na tela e imaginei o motivo. Atendi apenas porque ainda existiam algumas questões formais do divórcio que poderiam exigir contato. — O que foi?
— Você bloqueou os cartões hoje? — ele perguntou.
— Sim.
— Justamente hoje?
— Eu bloqueei quando saímos do cartório. Você se casou depois disso.
Ele ficou em silêncio. Ao fundo, ouvi vozes e movimento. — Helena, a conta do casamento ainda não foi encerrada. Você não podia ter esperado?
— Caio, nós estamos divorciados. O cartão está no meu nome e os adicionais existiam porque éramos uma família. Não somos mais.
— Você sabia que eu usaria esse cartão.
— E você sabia que ele não era seu.
A resposta deixou o outro lado em silêncio. Eu não aumentei a voz, não fiz ameaça e não senti necessidade de lembrá-lo das coisas que sua mãe havia dito durante a festa. O bloqueio não tinha sido preparado para humilhá-lo no casamento; havia sido feito horas antes, no momento em que nossa vida financeira deixou de ter qualquer motivo para continuar ligada.
Caio desligou sem se despedir. No hotel, ele tentou usar um cartão pessoal, mas o limite disponível não cobria o valor que ainda faltava. Marina também tinha recursos próprios, porém não suficientes para arcar sozinha com uma celebração daquela proporção. Os dois precisaram reorganizar os pagamentos com o hotel e fazer transferências a partir de contas pessoais.
Nada aconteceu em cinco minutos. O gerente não ameaçou chamar a polícia, ninguém reteve convidados e não houve cena cinematográfica. Apenas uma conversa longa, constrangedora e objetiva sobre valores, prazos e responsabilidade. Pela primeira vez naquela noite, Caio precisou olhar para a festa sem o cartão adicional que sempre tratara como extensão da própria carteira.
Parte do valor foi transferida naquela mesma noite. O restante foi acertado para o dia útil seguinte, com as garantias e procedimentos exigidos pelo hotel. O casamento terminou, mas o sorriso de Caio já não era o mesmo das fotos publicadas no início da festa.
Na manhã seguinte, recebi mensagens de Lúcia. Ela dizia que eu havia sido cruel, mesquinha e vingativa por “cortar o cartão da família” justamente quando o filho precisava dele. Não respondi. Fernanda também tentou me ligar duas vezes, mas ignorei as chamadas.
Foi Caio quem escreveu por último. Disse que precisávamos conversar sobre “o que eu estava fazendo”. Li a frase duas vezes. Depois respondi apenas que os cartões adicionais tinham sido cancelados e que qualquer assunto relativo ao divórcio ou à empresa deveria ser tratado de forma objetiva.
Em seguida, liguei para o banco para confirmar se não existia nenhum outro cartão adicional ativo. Depois pedi que toda correspondência financeira futura fosse enviada somente para meu endereço e meus contatos pessoais. Não havia mais razão para manter brechas administrativas entre nós.
Naquela tarde, Caio precisou cumprir o acordo feito com o hotel e transferir o restante do valor com dinheiro das próprias contas. A festa que ele havia planejado como símbolo de uma nova vida começou, portanto, com uma consequência bastante simples: a nova vida teria de ser paga por ele.
Eu não comemorei. Também não senti culpa. Pela primeira vez em oito anos, cada um de nós estava realmente responsável pelas próprias escolhas.
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