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LEITURA EM PARTESParte 6 de 10

PARTE 6

O primeiro pagamento previsto no acordo caiu na minha conta na data correta. Recebi também a documentação correspondente à transferência proporcional das quotas. Conferi tudo com calma e arquivei os comprovantes. A separação financeira começava, finalmente, a acompanhar a separação que já existia no papel.

Caio também parecia decidido a cumprir o que assinara. Para isso, reduziu mais algumas despesas e estabeleceu limites que sua família não estava acostumada a ouvir.

Lúcia perdeu a paciência primeiro.

Ela queria manter algumas viagens e compras como antes e não entendia por que o filho, que continuava ganhando bem, dizia que precisava planejar melhor.

— Você ficou pão-duro depois que se casou com Marina — acusou.

Caio respondeu:

— Eu fiquei responsável pelas minhas próprias contas.

A frase foi curta.

Lúcia não gostou.

— Helena colocou isso na sua cabeça.

— Helena não fala comigo sobre você.

A resposta deixou a mãe ainda mais irritada.

Fernanda, aos poucos, percebeu que reclamar não mudaria nada. Passou a usar apenas seus próprios meios de pagamento e reduziu gastos. A adaptação não foi dramática. Era apenas a vida comum que ela havia adiado enquanto outra pessoa bancava parte de sua conveniência.

Marina observava tudo em silêncio.

O casamento dela com Caio também estava diferente do sonho mostrado nas fotografias.

Não porque houvesse falta de dinheiro para viver bem.

Mas porque a atmosfera de abundância sem limite tinha desaparecido.

Eles precisavam decidir juntos.

Planejar.

Escolher.

Dizer não.

Essas coisas expunham características que o romance do passado não havia exigido.

Em uma noite, Marina comentou:

— Quando você veio me buscar e disse que queria viver por você, achei que você soubesse exatamente como seria essa vida.

Caio olhou para ela.

— Eu também achei.

— E agora?

Ele não respondeu imediatamente.

— Agora estou percebendo que muita coisa funcionava porque Helena evitava conflito.

Marina apoiou os braços sobre a mesa.

— Você sente falta dela?

Caio demorou.

— Eu sinto falta de algumas coisas que eu achava que eram minhas.

A resposta foi mais honesta do que qualquer declaração apaixonada.

Marina ficou em silêncio por um momento.

— Então talvez você não sinta falta dela. Talvez sinta falta do conforto.

Caio não gostou de ouvir aquilo.

Mas não discutiu.

Do meu lado, eu comecei a perceber o quanto minha antiga rotina era organizada ao redor das necessidades dos outros.

Ainda me pegava comprando alimentos em quantidades grandes demais.

Ainda olhava o relógio no fim da tarde pensando na hora em que Caio costumava chegar.

Ainda lembrava automaticamente de compromissos de Lúcia ou Fernanda.

Esses reflexos demoravam a desaparecer.

Certa noite, decidi fazer sopa outra vez.

A mesma que eu preparava no dia em que Caio levou Marina até nossa casa.

Quando o cheiro começou a ocupar a cozinha, parei por alguns segundos.

Lembrei da panela sendo despejada pelo ralo.

Naquela ocasião, eu tinha jogado fora três horas de trabalho porque não conseguia imaginar sentar à mesa sozinha e comer algo preparado para duas pessoas.

Dessa vez, servi uma tigela.

Sentei-me.

Comi devagar.

Parecia um detalhe insignificante.

Para mim, não era.

Algumas semanas depois, Caio atrasou um dos contatos administrativos necessários para a transferência seguinte. Não o pagamento, apenas a documentação.

Meu advogado enviou um lembrete formal.

Caio ligou.

— Você precisa colocar advogado em tudo?

— Preciso garantir que tudo fique documentado.

— Você acha que eu vou tentar enganar você?

— Não estou baseando meus contratos no que acho sobre você.

Ele soltou um suspiro.

— Antes você confiava em mim.

— Antes nós éramos casados.

A frase encerrou outra discussão.

Mais tarde, Caio admitiu a Marina que aquilo o incomodava.

— Parece que ela não confia mais em nada que eu digo.

— Você pediu o divórcio para se casar comigo — Marina respondeu. — Talvez você não possa esperar que ela continue agindo como sua esposa.

Ele ficou quieto.

Marina também começava a se cansar de ocupar o papel de recompensa pela coragem de Caio.

Durante anos, ele a havia idealizado como o amor perdido.

Quando ela voltou, frágil e precisando de apoio, ele transformou o reencontro em prova de que havia desperdiçado o casamento comigo.

Agora, convivendo diariamente, ambos descobriam que amor antigo não eliminava contas, hábitos, família, inseguranças ou diferenças.

Ainda havia carinho entre eles.

Mas já não existia a fantasia de que bastava ficarem juntos para que tudo se encaixasse.

A pressão maior veio quando Lúcia começou a criticar Marina por não “ajudar Caio” a recuperar o estilo de vida anterior.

— Helena pelo menos sabia cuidar de certas coisas — disse durante um almoço.

Marina pousou o copo.

— Então talvez a senhora devesse ter tratado Helena melhor quando ela fazia isso.

Lúcia ficou pálida.

Caio ergueu a cabeça.

Fernanda parou de comer.

Marina não aumentou a voz.

— Eu sou esposa do Caio. Não sou substituta financeira de ninguém. E não vou competir com a ex-mulher dele para ver quem paga mais coisas para esta família.

Aquele almoço terminou cedo.

Depois, Caio e Marina discutiram no carro.

Não porque ele discordasse totalmente.

Mas porque a maneira como Marina havia colocado a questão o obrigava a enxergar algo que preferia não analisar.

Sua família reclamava de Helena enquanto sentia falta do dinheiro dela.

E ele havia permitido isso.

No fim da discussão, Marina disse:

— Eu voltei porque achei que você me amava. Não para continuar uma história em que Helena precisa ser a vilã para nós dois nos sentirmos certos.

Caio ficou olhando para o volante.

Naquela noite, ele me enviou uma mensagem inesperada.

“Minha mãe falou coisas sobre você no casamento. Eu vi depois.”

Li.

Esperei.

Outra mensagem chegou.

“Eu deveria ter impedido isso.”

Não respondi imediatamente.

Quase uma hora depois, escrevi:

“Sim.”

Nada além disso.

Ele não pediu perdão naquela noite.

Eu também não precisava de um pedido apressado para continuar minha vida.

Mas alguma coisa havia mudado.

Caio finalmente começava a olhar para trás sem reescrever tudo para proteger a própria escolha.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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