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LEITURA EM PARTESParte 8 de 10

PARTE 8

Com os principais termos resolvidos, o processo deixou de ser uma batalha e passou a seguir seu curso formal.

O doutor César me explicava cada etapa sem dramatizar nada. Eu lia antes de assinar, perguntava quando tinha dúvida e recusava a velha tendência de simplesmente dizer “tanto faz”.

Durante anos, eu tinha deixado outras pessoas decidirem o ritmo da minha vida.

Agora, até uma escolha pequena importava porque era minha.

Henrique também passou a cumprir o que os advogados combinavam.

Não apareceu no meu apartamento.

Não telefonou durante a madrugada.

Não tentou usar Teresa ou Tiago para me convencer a voltar.

Talvez finalmente tivesse entendido que respeitar uma decisão também era uma forma de reconhecer a pessoa que a tomou.

Um mês depois, precisei voltar à antiga casa para separar os últimos objetos.

Avisei com antecedência.

Quando cheguei, Teresa estava na sala principal.

Ela me observou atravessar o corredor.

— Você emagreceu muito — disse.

Por pouco não respondi que aquilo acontecera enquanto eu morava na casa dela.

Mas não queria transformar cada encontro numa cobrança.

— Estou me cuidando.

Ela assentiu.

— Henrique está no escritório.

— Vim buscar minhas coisas.

— Eu sei.

Na antiga ala onde eu morava, encontrei caixas que os funcionários haviam deixado separadas.

Abri cada uma.

Havia roupas que eu não usava havia anos, livros, algumas fotografias e presentes simples de Dona Beatriz.

Nada de extraordinário.

Mesmo assim, tocar naqueles objetos me fez lembrar de quem eu era antes do casamento.

Uma mulher que tinha gostos próprios.

Horários próprios.

Planos que não dependiam de saber se alguém chegaria para jantar.

Henrique apareceu na porta enquanto eu fechava a segunda caixa.

— Posso ajudar?

— Pode levar aquela até a entrada.

Ele fez isso sem dizer mais nada.

Quando voltou, ficou olhando para o quarto quase vazio.

— Eu nunca entrei aqui muitas vezes.

— Eu sei.

— Não percebia como você vivia.

— Também sei.

Ele se aproximou da estante e pegou um pequeno porta-retratos de Dona Beatriz comigo em uma comemoração antiga.

— Ela gostava muito de você.

— Eu gostava muito dela.

— Às vezes acho que aceitei o casamento culpando você por uma decisão que não foi sua.

Olhei para ele.

— Você me culpou.

— Sim.

Não havia mais sentido em discutir algo que finalmente conseguíamos nomear.

— Eu achava que você queria o casamento tanto quanto ela — acrescentou.

— Eu queria tentar fazer dar certo. Isso não significa que tenha obrigado você a alguma coisa.

— Eu sei agora.

Fechei outra caixa.

Henrique permaneceu ali.

— Marina, se eu tivesse sido diferente desde o começo…

— Não faça isso.

— Eu só…

— Nós não vivemos dentro do “se”.

Ele respirou fundo.

— Certo.

Na entrada da casa, Teresa apareceu novamente.

Dessa vez, segurava uma caixa menor.

— Isso estava guardado com algumas coisas da minha mãe — disse.

Meu coração apertou.

Ela abriu a tampa.

Eram cartas, fotografias e pequenos objetos de Dona Beatriz que já eram conhecidos da família e que ela havia destinado a mim ainda em vida.

Não era uma herança inesperada nem uma revelação.

Apenas lembranças pessoais que haviam ficado guardadas.

— Acho que devem ficar com você — Teresa disse.

Peguei a caixa.

— Obrigada.

Ela hesitou.

— Eu disse coisas cruéis sobre você não ter filhos.

Fiquei quieta.

— Quando pensei que Helena tinha dado um neto ao Henrique, eu… tratei aquilo como se justificasse tudo.

— Tratou.

Teresa baixou os olhos.

— Eu estava errada.

Não corri para abraçá-la.

Não disse que estava tudo bem.

Algumas desculpas merecem ser ouvidas sem que a pessoa ofendida precise apagar imediatamente as consequências.

— Espero que a senhora não faça isso com outra mulher.

Ela assentiu.

Henrique levou minhas caixas até o carro.

Quando terminou, tirou algo do bolso.

Minha aliança de aço.

— Você deixou isso no meu escritório.

Olhei para o pequeno aro sobre a palma da mão dele.

— Pode ficar com ela.

— Não quero ficar com uma coisa que é sua.

Peguei a aliança.

Por um instante, pensei em jogá-la fora.

Mas a coloquei dentro da bolsa.

Henrique me observou.

— Vai guardar?

— Ainda não decidi.

Ele quase sorriu, mas não sorriu.

— Justo.

Entrei no carro.

Antes de fechar a porta, ele falou:

— A audiência final deve ser marcada em breve.

— César me avisou.

— Eu vou estar lá.

— É o que espero.

Dirigi para longe da casa.

No primeiro semáforo, olhei pelo retrovisor.

A construção enorme desaparecia pouco a pouco atrás das árvores.

Durante três anos, eu acreditara que sair daquela casa significaria fracassar com Dona Beatriz, com o casamento e comigo mesma.

Agora enxergava o contrário.

Eu não estava abandonando uma promessa.

Estava parando de usar uma promessa antiga para justificar uma vida sem respeito.

Quando cheguei ao apartamento, abri a caixa de lembranças de Dona Beatriz.

Passei a noite organizando fotografias e cartas.

Em nenhuma delas havia uma ordem para eu suportar sofrimento.

Havia carinho.

E carinho não deveria ser uma prisão.

Na manhã seguinte, o doutor César enviou a data da etapa final do processo.

Li a mensagem.

Marquei no calendário.

E, pela primeira vez, não contei quantos dias faltavam como alguém esperando uma libertação concedida por outra pessoa.

Era apenas uma data.

A decisão já tinha sido tomada muito antes.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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