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LEITURA EM PARTESParte 7 de 10

PARTE 7

A questão da paternidade de Helena continuou sem a minha participação.

Gustavo havia conseguido identificar o homem das imagens como Rafael Mendes, alguém que Helena conhecia havia algum tempo. Eu entreguei essa informação ao doutor César apenas para que permanecesse registrada junto aos materiais que já tínhamos reunido.

Depois disso, pedi a Gustavo que encerrasse o trabalho.

— Tem certeza? — perguntou.

— Tenho.

— Ainda existem coisas que poderíamos verificar.

— Não preciso saber de tudo.

Dizer aquilo foi estranho.

Durante meses, eu vivera procurando peças escondidas de uma história da qual todos pareciam saber mais do que eu.

Agora finalmente compreendia que liberdade também significava parar de investigar pessoas das quais eu estava saindo.

Alguns dias depois, Rafael concordou em esclarecer a paternidade por meio do procedimento adequado.

Eu soube disso pelo doutor César porque a informação influenciava apenas indiretamente o contexto das declarações feitas por Helena.

Não perguntei quando seria o exame.

Não perguntei onde.

Não perguntei se Henrique estaria presente.

Naquela mesma semana, Helena tentou falar comigo usando outro número.

“Eu só quero explicar.”

Bloqueei.

Ela escreveu de outro contato.

“Você me deve dez minutos depois de dez anos de amizade.”

Dessa vez, respondi:

“Amizade não cria dívida que obrigue alguém a ouvir quem mentiu durante anos. Não me procure novamente.”

Depois bloqueei de novo.

A resposta não veio.

Duas semanas mais tarde, o exame confirmou Rafael como pai biológico da criança.

O resultado não produziu em mim a satisfação que Helena talvez imaginasse.

Era apenas a confirmação de algo que já não mudava minha decisão.

Henrique, porém, quis ouvir dela por que havia escondido a possibilidade.

Eles se encontraram com advogados presentes.

Mais tarde, ele me contou parte da conversa, não porque eu tivesse pedido, mas porque acreditava que eu tinha o direito de saber como certas mentiras haviam começado.

Helena admitiu que mantivera contato com Rafael durante o período em que se relacionava com Henrique.

Não tinha certeza de quem era o pai quando descobriu a gravidez.

Sabia apenas que as datas permitiam as duas possibilidades.

— Então por que disse que tinha certeza? — Henrique perguntou.

Ela respondeu depois de um longo silêncio:

— Porque eu queria que fosse você.

— Querer não transforma uma possibilidade em certeza.

— Com você, meu filho teria segurança.

A frase deixou a sala imóvel.

Henrique entendeu finalmente que, para Helena, o nome dele havia sido também uma escolha de conveniência.

Mas eu me recusei a transformar aquilo em absolvição para ele.

Quando Henrique apareceu no escritório do doutor César alguns dias depois para terminar outros documentos, pediu para falar comigo.

Aceitei porque já estava lá.

— Rafael é o pai — disse.

— Eu soube.

— Helena admitiu que sabia da dúvida.

— Imaginei.

Ele apertou os lábios.

— Durante três anos, eu pensei que você fosse uma pessoa difícil de entender.

Quase ri.

— Você quase nunca tentou.

— Eu sei.

Ficamos em silêncio.

Ele continuou:

— Muitas vezes Helena me ligava antes de eu encontrar você. Dizia que você estava irritada, que estava cobrando coisas, que queria usar minha avó para me prender.

Aquela informação doeu, mas não me surpreendeu.

— E você acreditava.

— Porque era mais conveniente acreditar nela.

Essa resposta, ao menos, não tentava fugir da responsabilidade.

— Sim — falei. — Era conveniente.

Henrique olhou para a mesa.

— Quando você tentou falar comigo sobre o hotel três anos atrás, eu nem deixei você terminar.

Eu me lembrava.

Eu me lembrava de cada segundo daquela conversa curta.

Mas não precisava revivê-la.

— Henrique, saber agora como Helena manipulava as coisas pode ajudar você a não repetir isso no futuro. Não muda o nosso passado.

— Eu sei.

— Então pare de procurar uma informação que torne tudo reparável.

Ele me encarou.

— É isso que você acha que eu estou fazendo?

— Acho que você está tentando encontrar o momento exato em que nosso casamento deu errado. Como se, descobrindo o ponto, pudesse voltar e consertar.

Ele ficou calado.

— Nosso casamento não acabou num único momento — continuei. — Acabou aos poucos. Toda vez que você escolheu não perguntar, não ouvir, não voltar para casa, não me reconhecer diante dos outros.

Henrique assentiu devagar.

— E a maternidade?

Pensei.

— A maternidade foi apenas o dia em que eu parei de fingir que ainda havia alguma coisa para esperar.

Ele não tentou argumentar.

Naquela tarde, assinamos os últimos termos patrimoniais pendentes.

Nenhuma fortuna secreta apareceu.

Nenhuma cláusula milagrosa mudou nossas vidas.

Apenas dois adultos, seus advogados e uma pilha de documentos organizando o fim prático de uma relação que já havia terminado emocionalmente.

Ao sair, liguei para Gustavo.

— Obrigada pelo trabalho.

— Foi suficiente?

Olhei para a rua.

— Foi mais que suficiente.

Apaguei do celular a pasta onde mantinha as imagens do Hotel Imperial.

Guardei apenas as cópias que o advogado considerava necessário conservar no arquivo do caso.

Não queria levar Helena, Rafael ou qualquer investigação comigo para a próxima fase.

Naquela noite, preparei jantar no meu apartamento.

Sentei à mesa.

Durante o casamento, eu costumava olhar para a cadeira vazia do outro lado e imaginar quando Henrique voltaria.

Dessa vez, a cadeira estava vazia também.

Mas não parecia abandono.

Era apenas uma cadeira.

E aquela diferença significava mais para mim do que qualquer resultado de DNA.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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